O Regresso do primado

Rossana Rossanda*    26.Ene.08    Outros autores


A recente renúncia do Joseph Ratzinguer a usar da palavra na abertura do ano lectivo da universidade romana La Sapienza tem sido motivo de larga controvérsia que, como é frequente em tanta coisa que se refere ao Vaticano, nem sempre é para esclarecer, antes para confundir as questões. Sobre o assunto publicamos textos de Rossana Rossanda e Marina Minicuci.

Há dias Joseph Ratzinger celebrou missa na capela Sixtina, de costas para os fiéis. Liturgia que o Vaticano II tinha substituído pela celebração cara a cara, para que esta não fosse um diálogo com Deus, de costas para os fiéis, mas uma celebração comum. Agora volta-se atrás. Desde que é papa, Ratzinger aproximou-se dos lefebverianos, [1] cancelou o diálogo ecuménico no seio do próprio cristianismo, negou com o seu não casual lapsus cultural de Ratisbona qualquer tipo de espiritualidade ao Islão, cortou cerce o avanço de um sacerdócio feminino, confirmou a obrigação do celibato para os sacerdotes, negou os sacramentos aos divorciados que voltarem a casar, lanços para as trevas os homossexuais, condenou não só o aborto e a eutanásia, mas também qualquer forma de fecundação assistida, proibiu a investigação com embriões, e interveio quotidianamente, directamente ou através dos bispos, nas políticas do estado italiano. Pouco falta para voltarmos a Syllabus. [2]

São decisões meditadas que significam um passo atrás em relação ao Concílio Vaticano II, que tinha aberto os braços a toda a comunidade cristã e, ainda mais, ao «povo de Deus» em toda a sua amplitude, que era formado pelo clero mais ilustrado e pelos laicos. Em resumo, tal como Cristo, a Igreja voltava a baixar até às suas gentes, e não saía obrigatoriamente com ele na cruz. Foi João XXIII – um papa que não alardeava grandes méritos teológicos – a quem coube o mérito de olhar com generosidade a crise do catolicismo moderno e voltar a estender pontes. E sobreveio um grande fervor, a crise pareceu diluir-se por algum tempo durante os anos sessenta. Agora gangrena-se novamente, basta ler as alarmadas informações de Filippo Gentiloni sobre o lugar que hoje ocupa a prática do catolicismo entre os italianos, e a crise de vocações que daí deriva. E é com este papa com quem a totalidade do mundo político italiano, da direita à esquerda com excepção dos radicais, dialoga e acorda, cedendo todos os dias um pouco mais. Luigi Berlinguer já tinha começado a elidir a proibição constitucional, ao financiar as escolas confessionais, mas se aquilo era uma concessão, ao menos não era a aceitação de uma perpétua interferência. Que se foi acentuando pelo contrário, com Karol Woityla, ali onde as opções políticas deixavam abandonado o terreno da consciência. Como se esta fosse um domínio reservado da religião, católica naturalmente, e não existisse uma consciência laica, ou esta fosse de ordem inferior.

E se ontem João Paulo II foi convidado a visitar essa sede eminentemente política que é o Parlamento, algo que nem a Alcide de Gaspieri [3] lhe tinha passado pela mente, e hoje, Walter Veltroni pensa que sendo Roma a sede do solo pontifício, não será apropriado celebrar na cidade uniões civis entre pessoas do mesmo sexo, e esperemos que julgue má-criação continuar a celebrar as outras uniões entre pessoas de sexos diferentes, mas mal-educadamente civis. E a universidade da capital esquece que nunca nos ateneus nenhuma autoridade estranha, nem sequer os ocupantes alemães, tinha posto o pé, e convida Ratzinger – que sabiamente renunciou – não sei se para prodigalizar palavras ou bênçãos, nem se alguém chegou a sustentar que se tratava de um teólogo sublime o autor das duas modestas encíclicas sobre a caridade (o amor depurado de qualquer resquício de éros) e esperança (na salvação), e de um livro sobre Cristo que a ninguém causou assombro. Que a direita vaticana deseje a reconquista do estado é compreensível. Que este lhe abra as portas de par em par não o é. Eu convidaria Veltroni a constituinte do PD a reler o debate de 1905 sobre a separação entre o estado e a igreja. Nela Jaurés argumentava que constituía a única garantia de liberdade para um e outra. Ou será que, numa democracia postmoderna, postcomunista, reformista, há mais propensão a inspirar-se na Opus Dei da senhora Binetti?

Notas de Sin Permiso:
[1] Grupo de católicos integristas, ou de extrema-direita, que se opuseram às directrizes do Concílio Vaticano II e seguiram o bispo reaccionário monsenhor Lefèbvre, heresiarca que encabeçou a contestação e criou uma nova igreja.
[2] Encíclica publicada em 1864 por Pio nono (IX) onde se condena os princípios fundamentais da modernidade: liberdade religiosa, separação da igreja e do estado, democracia, etc.
[3] Alcide de Gaspieri, 1881,1954. Fundador da Democracia Cristã italiana e da Internacional Democrata Cristã. Procedente do Partido popular fundado por D. Sturzo, pertencia à minoria católica sinceramente comprometida com a democracia. Foi preso por Mussolini durante quatro anos. Ao terminar a segunda guerra mundial fundou, como se disse, a Democracia Cristã italiana, partido que dirigiu e de que fez parte, novamente de uma minoria: a dos democratas ou pessoas não comprometidas com o regime fascista, visto que este partido passou a ser o guarda-chuva onde se reciclaram os fascistas, os membros da Máfia que, apesar de perseguidos pelo fascismo, não se podem classificar de democratas. Como estadista desempenhou os cargos de primeiro-ministro e ministro das relações exteriores de Itália.

* Rossana Rossanda é escritora e analista política italiana

Este artigo foi publicado em Sin Permiso

Tradução de José Paulo Gascão

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