O ressurgimento do fascismo, uma questão actual

John Pilger    12.Mar.15    Destaques

Desde 1945 mais de um terço dos membros das Nações Unidas — 69 países — sofreram de um modo ou de outro às mãos do moderno fascismo americano. Foram invadidas, os seus governos derrubados, os seus movimentos populares reprimidos, as suas eleições subvertidas, os seus povos bombardeados e as suas economias espoliadas de toda a protecção e as suas populações submetidas a um assédio paralisante com as chamadas «sanções»

O recente 70.o aniversário da libertação de Auschwitz foi um reavivar do imenso crime do fascismo, cuja iconografia nazi se inscreveu na nossa consciência colectiva. O fascismo permanece como história, como o terror perante os camisas-negras em passo de ganso, a sua terrível e indiscutível criminalidade. Mas, nas mesmas sociedades liberais, cujas elites fazedoras de guerra nos instam a não esquecer, o perigo crescente de um género de fascismo moderno é ocultado, porque esse é o seu fascismo.

Os juízes do Tribunal de Nuremberga afirmavam em 1946: «O início ou começo de uma guerra de agressão… não é apenas um crime internacional, é o supremo crime internacional, e só difere de outros crimes de guerra porque contem em si o mal acumulado de todos eles».

Se os nazis não tivessem invadido a Europa, nem Auschwitz nem o Holocausto teriam acontecido. Se os Estados Unidos e os seus satélites não tivessem iniciado a sua guerra de agressão no Iraque em 2003, quase um milhão de pessoas estaria hoje viva, e nem o estado islâmico, ou ISIS, nos teriam hoje submetidos à sua selvajaria. Eles são os filhos do fascismo moderno, criados com as bombas, os banhos de sangue e as mentiras que constituem esse teatro surrealista conhecido como noticiário.

Como no fascismo dos anos 30 e 40, grandes mentiras são espalhadas com a precisão de um cronómetro, graças a uns omnipresentes media repetitivos e à sua virulenta censura por omissão. Veja-se a catástrofe na Líbia.

Em 2011, a OTAN efectuou 9700 ataques aéreos contra a Líbia dos quais mais de um terço foi dirigido a alvos civis. Utilizaram-se ogivas de urânio, as cidades de Misrata e Sirte foram arrasadas à bomba. A Cruz Vermelha identificou valas comuns e a Unicef informou que a maioria das crianças assassinadas tinha idade inferior a dez anos.

A sodomização pública com uma baioneta «rebelde» de que foi objecto o presidente líbio Muammar Kadhafi foi recebida pela secretária de estado da época, Hillary Clinton, com as palavras «Viemos, vimos, ele morreu». O seu assassínio, tal como a destruição do seu país, foi justificado com a grande mentira habitual de que estava planeando um genocídio contra o seu próprio povo. «Sabíamos — declarou Obama — que se aguardássemos mais um dia, Bengasi, uma cidade do tamanho de Charlotte, poderia sofrer um massacre que teria ressoado em toda a região e manchado a consciência do mundo».

Foi uma patranha das milícias islamitas ante a sua derrota perante as forças governamentais líbias. Afirmaram à Reuters que iria verificar-se «um verdadeiro banho de sangue, um massacre, como o que vimos no Ruanda». Difundida a 14 de Março de 2011, a mentira propiciou a primeira chispa para o inferno da intervenção da NATO, descrito por David Cameron como uma «intervenção humanitária».

Abastecidos e treinados em segredo pelo serviço de operações especiais aerotransportadas britânico, o SAS, muitos dos «rebeldes» passariam para o ISIS, cuja última entrega de vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas sequestrados em Sirte, a cidade destruída a pedido seu, pelos bombardeiros da NATO.

Para Obama, David Cameron, e o então presidente francês Nicolas Sarkozy, o verdadeiro crime de Kadhafi era a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de parar a venda das maiores reservas do petróleo da África em dólares norte-americanos. O petrodólar é um pilar do poder imperial americano. Kadhafi atreveu-se a planificar a criação de uma moeda comum africana convertível em ouro, estabelecer um banco universal para a África e promover a união económica entre países pobres com recursos naturais valiosos. Fosse isto viável ou não, só a ideia tornava-se intolerável para os Estados Unidos precisamente quando se dispunham a entrar em África e subornar governos africanos com «parcerias» militares.

Após o ataque da NATO ao abrigo de uma resolução do Conselho de Segurança Obama, segundo Garika Chengu, «confiscou mais de 30 mil milhões de dólares do Banco Central da Líbia, que Kadhafi tinha destinado à criação de um banco central africano e todo o ouro destinado a garantir o dinar africano.»

A «guerra humanitária» contra a Líbia baseou-se num modelo muito aceitável para os sentimentos liberais ocidentais, especialmente dos meios de comunicação. Em 1999 Bill Clinton e Tony Blair enviaram a NATO a bombardear a Sérvia, porque segundo a sua mentira, os sérvios estavam a cometer «genocídio» contra a população albanesa na província separatista do Kosovo. David Scheffer, embaixador em missão especial para crimes de guerra [sic], afirmou que uns «225.000 homens de etnia albanesa de idades compreendidas entre 14 e 59 poderiam ter sido assassinados». Tanto Clinton como Blair evocaram o Holocausto e «o espírito da Segunda Guerra Mundial». Os heróicos aliados do Ocidente eram o Exército de Libertação do Kosovo (ELK), cujo cadastro de crimes foi deixado de lado. O ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, Robin Cook, declarou-lhes que podiam ligar a qualquer hora para o seu telemóvel pessoal.

Com o bombardeamento da NATO sobre a Sérvia grande parte da infra-estrutura sérvia ficou em ruínas, juntamente com escolas, hospitais, mosteiros e a estação de televisão nacional. Equipas forenses internacionais desceram sobre o Kosovo para exumar as provas do «holocausto». O FBI não encontrou uma única vala comum e foi-se embora. A equipa espanhola fez o mesmo, o seu chefe furioso denunciou «uma pirueta semântica da máquina de propaganda da guerra». Um ano mais tarde, um tribunal das Nações Unidas sobre a Jugoslávia publicou um relatório final dos mortos no Kosovo: 2788, entre combatentes dos dois lados, sérvios e ciganos, assassinados pelo ELK. Não era genocídio. O «holocausto» era uma mentira. A justificação para o ataque da OTAN fora uma fraude.

Por detrás dessas mentiras havia uma intenção séria. A Jugoslávia era uma federação excepcionalmente independente, multi-étnica, que se destacara como uma ponte política e económica durante a Guerra Fria. A maior parte dos seus serviços e empresas eram propriedade pública. Isso era inaceitável para uma Comunidade Europeia em expansão, sobretudo para a Alemanha recém-unificada, que planeava a sua incursão para este lado a fim de captar o seu «mercado natural» nas províncias jugoslavas da Croácia e Eslovénia. Pela altura em que os europeus se reuniram em Maastricht, em 1991, para planificar a sua desastrosa zona euro, já um acordo secreto estava formado; a Alemanha reconhecia a Croácia. A Jugoslávia estava condenada.

Em Washington, os Estados Unidos conseguiram que fossem negados empréstimos do Banco Mundial à aflita economia jugoslava. Por seu lado a NATO, na altura uma relíquia quase extinta da Guerra-Fria, foi reinventada como braço armado imperial. Em 1999 na conferência da «paz» de Rambouillet sobre o Kosovo, celebrada em França, os sérvios foram submetidos a tácticas dúplices. O acordo de Rambouillet incluía um anexo B secreto que a delegação dos Estados Unidos inseriu no último dia. Implicava a ocupação militar da totalidade da Jugoslávia — um país com amargas recordações da ocupação nazi — e a prática de uma «economia de livre comércio» mais a privatização de todos os activos do governo. Nenhum estado soberano poderia assinar aquilo. O castigo foi imediato, bombas da NATO caíram sobre um país indefeso. Foi o prelúdio das catástrofes do Afeganistão e do Iraque, da Síria e da Líbia, e da Ucrânia.

Desde 1945 mais de um terço dos membros das Nações Unidas — 69 países — sofreram de um modo ou de outro às mãos do moderno fascismo americano. Foram invadidas, os seus governos derrubados, os seus movimentos populares reprimidos, as suas eleições subvertidas, os seus povos bombardeados e as suas economias espoliadas de toda a protecção e as suas populações submetidas a um assédio paralisante com as chamadas «sanções». O historiador britânico Mark Curtis calcula que o número de mortos se conta em milhões. Em todos os casos, foi previamente difundida uma grande mentira.

«Esta noite pela primeira vez desde o 11 de Setembro, a nossa missão de combate no Afeganistão terminou». Estas foram as palavras com que Obama abriu a conferência em 2015 sobre o Estado da União. No entanto, cerca de 10 mil soldados e 20 mil funcionários militares a contrato (mercenários) permaneceram no Afeganistão numa missão indefinida. «A guerra mais longa da história dos Estados Unidos está a chegar a uma conclusão responsável» declarou Obama. De facto, morreram mais civis no Afeganistão em 2014 do que em qualquer outro ano desde que a ONU tem registo. A maioria — civis e militares — mortos no período da presidência de Obama.

A tragédia do Afeganistão rivaliza com o épico europeu cometido na Indochina. No seu muito elogiado e citado livro «O Grande Tabuleiro de Xadrez: primazia americana e os seus imperativos geoestratégicos», Zbigniew Brzezinski, o padrinho da política dos Estados Unidos do Afeganistão à actualidade, escreve que se os Estados Unidos controlarem a Eurásia e dominarem o mundo, não podem manter uma democracia popular, já que a «busca do poder não é um objectivo que desperte a paixão popular… A democracia é inimiga da mobilização imperial». E tem razão. Tal como a WikiLeaks e Edward Snowden revelaram, a vigilância e o estado policial estão a usurpar a democracia. Em 1976, Brzezinski, então Conselheiro de Segurança Nacional do presidente Carter, demonstrou o seu ponto de vista ao assestar um golpe mortal na primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história decisiva?

Na década de 60, uma revolução popular atravessou o Afeganistão, o país mais pobre do mundo, acabando por derrubar, em 1978, os vestígios do velho regime aristocrático. O Partido Democrático Popular do Afeganistão (PDPA) formou um governo e apresentou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, a liberdade de todas as religiões, a igualdade de direitos para as mulheres e a justiça social para as minorias étnicas. Mais de 13 mil presos políticos foram libertados e os arquivos da polícia queimados publicamente.

O novo governo introduziu os cuidados médicos gratuitos para os mais pobres, aboliu-se a peonagem, pôs-se em marcha um programa de alfabetização maciça. Para as mulheres, os ganhos foram inauditos. Em finais de 1980 metade dos estudantes universitários eram mulheres e as mulheres representavam quase metade dos médicos no Afeganistão, uma terça parte dos funcionários públicos e a maioria dos docentes. «Todas as raparigas» lembrou Saira Noorani, uma cirurgiã, «podiam frequentar a escola secundária e a universidade. Podíamos ir onde quiséssemos e vestir a nosso gosto, íamos aos cafés e ao cinema ver o último filme da Índia às sextas feiras e ouvir a musica mais actual. Tudo começou a correr mal quando os mujahidines começaram a ganhar. Puseram-se a matar professores e a queimar escolas. Estávamos aterrorizados. Foi curioso e triste ver que eram estas as pessoas que o Ocidente apoiava.»

O governo do PDPA era apoiado pela União Soviética apesar de, como mais tarde admitiu o ex-secretário de Estado Cyrus Vance, «não existir prova de cumplicidade soviética [na revolução]». Alarmados pela confiança crescente dos movimentos de libertação em todo o mundo, Brzezinski decidiu que se o Afeganistão tivesse sucesso sob a direcção do PDPA, a sua independência e progresso iriam representar «a ameaça de um exemplo promissor».

Em 3 de Julho de 1979 a Casa Branca autorizou em segredo o apoio em armas e logística aos grupos tribais «fundamentalistas» conhecidos como mujahidines, um programa que cresceu até mais de 500 milhões de dólares anuais em armas e outra ajuda por parte dos EUA. O objectivo era o derrubamento do primeiro governo laico e reformista do Afeganistão. Em Agosto de 1979 a embaixada dos Estados Unidos em Cabul informou que «a queda do governo do PDPA seria favorável aos interesses mais amplos dos Estados Unidos…, independentemente dos reveses que isso poderia significar para futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão». O itálico é do autor.

Os mujahidines foram os antecessores da Al-Qaeda e do Estado Islâmico. Incluindo o líder mujahidine Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu dezenas de milhões de dólares em efectivo da CIA. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio o lançamento de ácido à cara das mulheres que se negavam a usar véu. Convidado para ir a Londres, foi celebrado pela primeira-ministra Thatcher como um «lutador pela liberdade».

Estes fanáticos poderiam ter permanecido no seu mundo tribal se Brzezinki não tivesse lançado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e assim destruir a libertação politica laica e «desestabilizar» a União Soviética, com a criação, como escreveu na sua autobiografia, «uns quantos muçulmanos exaltados». O seu grande plano coincidiu com as ambições do ditador paquistanês, general Zia ul-Haq, de dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de inteligência do Paquistão, o ISI, começaram a recrutar gente de todo o mundo para se juntar à jihad afegã. O multimilionário saudita Osama bin Laden era um deles. Os operacionais que eventualmente se iriam juntar aos talibãs e à Al-Qaeda foram recrutados numa universidade islâmica em Brooklyn, Nova Iorque, e foi-lhes dado treino paramilitar num acampamento da CIA na Virgínia. Foi a chamada «Operação Ciclone». O seu triunfo teve lugar em 1996, quando o último presidente PDPA do Afeganistão, Mohamed Najibullah — que tinha ido anteriormente à Assembleia Geral da ONU para pedir ajuda — foi enforcado num candeeiro de rua pelos talibãs.

O «ricochete» da Operação Ciclone e de alguns dos seus muçulmanos exaltados» foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone transformou-se na «guerra contra o terror», em que inumeráveis homens, mulheres e crianças perderiam as suas vidas no mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iémen, Somália e Síria. A mensagem do executor [the enforcer] era e continua a ser «Ou estás connosco ou contra nós»

O fio comum do fascismo, passado ou presente, é o assassínio em massa. A invasão norte americana do Vietname teve as suas «zonas de fogo à vontade», «contagem de vítimas» e «danos colaterais». Na província de Quang Ngai, muitos milhares de civis [“gooks”] foram assassinados pelos Estados Unidos, no entanto apenas o massacre de My Lai é recordado. No Laos e no Camboja o maior bombardeamento aéreo na história originou um período de terror assinalada ainda hoje pelo espectáculo de sucessivas crateras de bombas que visto do ar, parecem colares monstruosos. O bombardeamento criou no Camboja o seu próprio ISIS, liderado por Pol-Pot.

Hoje em dia, a maior campanha do mundo contra o terror exige a imolação de famílias inteiras, de convidados para uma boda ou participantes de um funeral. São as vítimas de Obama. Segundo o New York Times, Obama faz a sua selecção a partir de uma «lista de matança» que a CIA lhe apresenta todas as quartas feiras na Sala da Situação da Casa Branca. Decide então, sem a menor justificação legal, quem viverá e quem morrerá. A sua arma de execução é o míssil Hellfire lançado de um avião não tripulado conhecido como drone, este míssil queima as suas vítimas e adorna a zona com os seus restos. Cada «êxito» é registado num monitor distante como um “Bugsplat” [mata-moscas].

«Em lugar de soldados a marchar em passo de ganso, temos hoje uma aparentemente mais inócua militarização da cultura total» — escreveu o historiador Norman Pullock. «E em lugar do líder grandiloquente e demiúrgico temos um reformista falhado, trabalhando jovialmente na planificação e execução de assassínios, sempre sorridente.»

O culto da superioridade une o velho fascismo com o novo. «Acredito no excepcionalismo americano com cada fibra do meu ser» — declarou Obama evocando as declarações de fetichismo nacional da década dos anos 30. Tal como afirmou o historiador Alfred W. McCoy , foi o devoto de Hitler, Carl Schmidt, que disse «é o soberano quem decide a excepção». Isso resume o americanismo, a ideologia dominante no mundo. Que não tenha sido reconhecida como uma ideologia depredadora é o sucesso, igualmente não reconhecido, de uma lavagem ao cérebro. Insidiosa, não declarada, espirituosamente apresentada como a ilustração em curso, a sua presunção impregna a cultura ocidental. Cresceu num regime cinematográfico de glória americana, quase toda ela distorção. Não tinha ideia de que fora o Exército Vermelho que destruíra a maior parte da máquina de guerra nazi ao preço de 13 milhões de soldados. Numero que contrasta com o das perdas norte americanas que, incluindo no Pacífico, foram 400 mil. Hollywood inverteu estes factos.

A diferença agora é que se convidam os espectadores a retorcer as mãos perante a «tragédia» dos psicopatas norte-americanos que têm de matar pessoas em lugares distantes — tal como o próprio Presidente mata. A encarnação da violência de Hollywood, o actor e realizador Clint Eastwood, foi nomeado este ano para um Óscar pelo seu filme «American Sniper», cujo tema é um assassino autorizado e louco. O New York Times descreveu-o como um «filme patriótico, pró-família, que quebrou todos os recordes de bilheteira na altura da estreia».

Não há filmes heróicos que tratem da ligação ao fascismo por parte dos Estados Unidos. Durante a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos e (a Grã Bretanha) foram à guerra contra os gregos, que tinham lutado heroicamente contra o nazismo e que resistiam ao avanço do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a subir ao poder uma junta militar fascista em Atenas — como fez no Brasil e na maior parte da América Latina. A alemães e europeus de leste que tinham pactuado com a agressão nazi e crimes contra a humanidade deram refúgio nos Estados Unidos; Muitos foram mimados e os seus talentos recompensados. Werner von Braun, por exemplo, foi o «pai» tanto da terrível bomba V-2 nazi como do programa espacial dos Estados Unidos.

Na década de 1990, quando as ex. repúblicas soviéticas, a Europa de leste e os Balcãs se transformaram em postos avançados militares da NATO, foi dada a oportunidade aos herdeiros do movimento nazi na Ucrânia. Responsável pela morte de milhares de judeus, polacos e russos durante a invasão nazi da União Soviética, o fascismo ucraniano foi reabilitado e a sua «nova onda» saudada pelo executor como «nacionalista».

Teve o seu apogeu em 2014, quando o governo de Obama gastou 5 mil milhões de dólares num golpe de Estado contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis conhecidos como o Sector de Direita e Svoboda. Entre os seus líderes, estava Oleh Tyahnybok que apelou a uma purga da «máfia judaico-moscovita» e «outra escória», incluindo os gays, as feministas e a esquerda política.

Estes fascistas fazem agora parte do governo golpista de Kiev. O primeiro vice-presidente do Parlamento da Ucrânia, Andriy Parubiy, um dos líderes do partido do governo, é co-fundador do Svoboda. A 14 de Fevereiro, Paruby anunciou que ia a Washington para conseguir «que os Estados Unidos nos dêem armas modernas de alta precisão». Se o conseguir isso será visto como um acto de guerra por parte da Rússia.

Nenhum líder ocidental se pronunciou sobre o ressurgimento do fascismo no coração da Europa — com excepção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões de pessoas com a invasão nazi através da fronteira da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a Subsecretária de Estado de Assuntos Europeus e da Eurásia de Obama, Victoria Nuland, ralhou contra os lideres europeus por se oporem ao armamento norte americano do regime de Kiev. Referiu-se ao ministro de Defesa alemão, como o «ministro do derrotismo». Foi Nuland quem planeou o golpe de Estado de Kiev. A esposa de Robert D. Kagan, uma importante figura «neocon» e co-fundadora do Projecto de para um Novo Século Americano, um projecto de extrema-direita, foi assessora de política externa de Dick Cheney.

O golpe de Nuland não decorreu como fora planeado. A NATO foi impedida de se apoderar da histórica e legítima base russa de águas quentes, a base naval na Crimeia. A população maioritariamente russa da Crimeia — ilegalmente anexada à Ucrânia por Nikita Kruschev em 1954 — votou esmagadoramente pela volta à Rússia, tal como o tinha feito na década de 1990. O referendo foi voluntário, popular e sob observação internacional. Não houve invasão.

Ao mesmo tempo o regime de Kiev voltou-se contra a população de etnia russa no leste com a ferocidade de uma limpeza étnica. Movimentando milícias neonazis à maneira das Waffen-SS, bombardearam e cercaram cidades e vilas. Utilizaram como arma a fome em massa, cortaram a electricidade, congelaram as contas bancárias, suspenderam a segurança social e as pensões. Mais de um milhão de refugiados fugiu através da fronteira com a Rússia. Nos meios de comunicação ocidentais, toda esta gente se transformou num povo que procurava escapar à «violência» causada pela «invasão russa». O comandante da NATO, o general Breedlove — cujo nome e acções poderiam ter sido inspirados no Dr. Strangelove de Stanley Kubrick — anunciou que 40 mil soldados russos se tinham «concentrado». Na era em que os satélites disponibilizam provas irrefutáveis, não apresentou uma única.

Estas pessoas que falam russo e são bilingues na Ucrânia — um terço da população — há muito lutam por uma federação que reflicta a diversidade étnica do país e que seja ao mesmo tempo autónoma e independente de Moscovo. Muitos são, não «separatistas», mas cidadãos que querem viver em segurança na sua pátria e se opõem à tomada golpista do poder em Kiev. A sua rebelião e a autoproclamarão de «estados» autónomos são uma reacção aos ataques de Kiev contra eles. Pouco se explicou disto ao público ocidental.

Em 2 de Maio de 2014, em Odessa, 41 pessoas de etnia russa foram queimadas vivas na sede sindical, com a polícia a assistir. O líder do Sector de Direita Dmytro Yarosh saudou o massacre como «outro dia brilhante na nossa história nacional». Nos meios de comunicação norte americanos e britânicos este caso foi encarado como uma «tragédia horrível», resultado de «confrontos» entre «nacionalistas» (neonazis) e «separatistas» (gente que estava a recolher assinaturas para um referendo por uma Ucrânia federal).

O New York Times enterrou a história desvalorizando como mensagens de propaganda russas as advertências sobre as políticas fascistas e anti-semitas dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal condenou as vítimas — «Incêndio mortal provavelmente provocado pelos rebeldes», declarou o Governo. Obama felicitou a Junta pela sua «moderação».

Se Putin puder ser provocado a ponto de vir em sua ajuda, o seu papel de «pária» pré-julgado pelo Ocidente terá justificado a mentira de que a Rússia está a invadir a Ucrânia. A 29 de Janeiro, o comandante máximo da Ucrânia, o general Viktor Muzhemko, sem se aperceber, desautorizou a própria base do argumento dos Estados unidos e da UE para as sanções contra a Rússia, quando declarou enfaticamente numa conferência de imprensa: «O exército ucraniano não está a lutar contra unidades regulares do exército russo». Havia «cidadãos individuais» que eram membros de «grupos armados ilegais» mas não havia invasão russa. Isso não foi notícia. Vadym Prystaiko, vice-ministro de Negócios Estrangeiros de Kiev, apelou a uma guerra «em grande escala» contra uma Rússia armada com armas nucleares.

A 21 de Fevereiro, o senador republicano pelo estado de Oklahoma, James Inhofe apresentou um projecto de lei que autorizava o envio de armas americanas ao regime de Kiev. Na sua apresentação no Senado, Inhofe utilizou fotografias onde alegava que tropas russas passavam para a Ucrânia, fotos que há muito está provado serem falsas. Era uma reminiscência das fotografias falsas de Ronald Reagan de uma instalação soviética na Nicarágua ou das provas falsas de Colin Powell apresentadas à ONU sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque.

A intensidade da campanha de calúnias contra a Rússia e a apresentação do seu presidente como um vilão de pantomima é algo de diferente de tudo o que já vi como repórter. Robert Parry, um dos jornalistas de investigação mais destacados dos Estados Unidos, que revelou o escândalo Irão-Contra, escreveu recentemente: «Nenhum governo europeu, desde a Alemanha de Adolf Hitler, chegou ao ponto de tropas de assalto nazis para fazer a guerra contra a própria população nacional, mas o regime de Kiev fê-lo e continua a fazê-lo deliberadamente. Todavia, através do espectro político/mediático ocidental, tem havido um cuidadoso esforço para encobrir essa realidade até ao ponto de ignorar factos perfeitamente documentados. Se nos interrogarmos como poderá o mundo tropeçar numa terceira guerra mundial — tal como foi o caso da I Guerra Mundial há um século — só temos de olhar para loucura na Ucrânia, manifestamente indiferente a factos ou à razão».

Em 1945, o acusador do Tribunal de Nuremberga afirmou aos media alemães: «A utilização que os conspiradores nazis fizeram da guerra psicológica é bem conhecida. Antes de cada grande agressão, com poucas excepções baseadas na conveniência, iniciavam uma campanha de imprensa calculada para debilitar as suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque… No sistema de propaganda de Hitler a imprensa diária e a rádio eram as armas mais importantes». No The Guardian de 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Ash apela na realidade a uma guerra mundial. «Putin deve ser parado» dizia o título. «Por vezes apenas as armas podem parar as armas». Reconheceu que a ameaça de guerra podia «alimentar uma paranóia russa de cerco», mas não havia problema. Fez uma verificação do equipamento militar necessário para o trabalho e assegurou aos seus leitores que «os Estados Unidos têm o melhor equipamento».

Em 2003, Garton-Ash, professor em Oxford, insistia na propaganda que levou ao massacre no Iraque. «Sadam, como [Collin] Powell documentou, tem armazenadas grandes quantidades de armas químicas e biológicas horripilantes, e esconde o que resta delas. Continua a tentar obter armas nucleares». Aplaudiu Blair como um «intervencionista liberal cristão gladstoniano». Em 2996, escreveu: «Depois do Iraque, enfrentamos agora o próximo grande teste do Ocidente: o Irão».

Estes arrebatamentos — ou como o próprio Garton-Ash prefere dizer a sua «torturada ambivalência liberal» — não são atípicos dos dessa elite liberal transatlântica que chegou a um acordo fáustico. O criminoso de guerra Blair é o seu líder perdido. The Guardian, onde foi publicado o artigo de Garton-Ash, apareceu com um anúncio de página inteira do bombardeiro American Stealth. Junto da imagem ameaçadora do monstro da fábrica Lockheed Martin, estavam as palavras: «O F-35. BOM para a Grã-Bretanha». Este «kit» americano custará aos contribuintes britânicos 1,3 mil milhões de libras, os seus predecessores F tendo já massacrado pelo mundo fora. Em sintonia com a sua publicidade, um editorial do The Guardian exigia um aumento nas despesas militares.

Mais uma vez há um objectivo sério. Os governantes do mundo querem a Ucrânia não só como uma base de mísseis mas também querem a sua economia. O novo ministro de Finanças de Kiev, Natalie Jaresko, é um alto funcionário do Departamento de Estado dos Estados Unidos encarregado de «investimentos» dos Estados Unidos no estrangeiro. Foi-lha atribuída cidadania ucraniana de forma expedita. Também querem a Ucrânia pelo seu gás abundante. O filho do vice-presidente Joe Biden está na administração da maior companhia de petróleo, gás e fracking da Ucrânia. Os fabricantes de sementes transgénicas, empresas como a infame Monsanto, também querem o rico solo agrícola da Ucrânia.

Mas acima de tudo, o que querem é o poderoso vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural do planeta. Como o gelo do Árctico está a derreter, querem o controlo do Oceano Árctico e as suas riquezas energéticas e a longa fronteira terrestre árctica da Rússia. O seu homem em Moscovo era dantes Boris Yeltsin, um bêbado que entregou a economia do seu país ao Ocidente. O seu sucessor Putin restabeleceu a Rússia como nação soberana, é este o seu crime.

A responsabilidade de todos nós é clara. Consiste em identificar e expor as insensatas mentiras dos belicistas e nunca sermos coniventes com eles. Há que tornar a despertar os grandes movimentos populares que trouxeram uma frágil civilização aos estados imperiais modernos. O mais importante é evitar que conquistem a nossa mente, a nossa humanidade, o nosso amor-próprio. Se permanecermos em silêncio eles ganham a batalha, e um holocausto espreita.

O original encontra-se em: http://johnpilger.com/articles/why-the-rise-of-fascism-is-again-the-issue

Tradução: Manuela Antunes

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos