O Retorno Cíclico da Al-Qaeda

José Paulo Gascão    29.Ene.07    Colaboradores

“O Império planetário dos EUA, idealizado no “Plano Americano para o século XXI”, elaborado pelo gabinete de Dick Cheyney, Vice-Presidente dos EUA, e que preconizava para a UE a sua “destruição antes que se transforme num concorrente”, já está a ser derrotado. O tempo histórico está mais próximo do tempo real”.

John Negroponte, que em 5 de Janeiro foi nomeado para um cargo equivalente a subsecretário de Estado, ainda como Director da Inteligência Nacional (serviços de secretos dos EUA), disse na sua declaração anual ao comité do Senado (11 de Janeiro) que “a Al-Qaeda está a reforçar a rede operacional a partir do Paquistão, onde se escondem os seus líderes, em direcção a todo o Médio Oriente, África do Norte e Europa”. E,continuou: “Capturámos e matámos numerosos operacionais de topo da Al-Qaeda, mas os elementos centrais continuam a resistir e a planear atentados, escondidos em refúgios seguros em solo paquistanês”.

A patética declaração foi parcialmente transcrita, e largamente comentada como se de coisa séria se tratasse, pelos mídia de referência. De Islamabad vem o desmentido do porta-voz do exército paquistanês e a surpresa, no Afeganistão, os governantes de turno por graça da NATO, confirmam as declarações de Negroponte.

É o retorno cíclico e conveniente da Al-Qaeda, sempre que o imperialismo norte-americano quer desviar as atenções da crescente impopularidade da sua política imperial. Com a credibilidade interna ao nível mais baixo de sempre, querem agora fazer crer que a Al-Qaeda não enviaria operacionais para os EUA, o seu principal inimigo, mas para a Europa e o mundo árabe, onde os EUA vêem a sua presença contestada de forma crescente, a par dos conhecidos insucessos militares. O mais poderoso e bem armado exército de sempre, dotado de poderosos meios tecnológicos, capazes de interceptar e gravar praticamente todas as comunicações a nível mundial (programa ECHALLON), recebendo a colaboração da generalidade dos serviços de informação mundiais, não consegue derrotar uma organização dirigida a partir de uma paupérrima e desértica região, situada algures entre o Afeganistão e um fiel aliado, o Paquistão…

Desde sempre ligado à CIA, John Negroponte começa ser falado na guerra do Vietname. Na luta contra a Revolução Sandinista aparece atolado no Irãogate, escândalo de venda clandestina de armas ao Irão, para subsidiar a contra-revolução nicaraguense à margem do Orçamento de Estado, uma ilegalidade que fez rolar algumas cabeças (Oliver North…).

Reaparece ligado à invasão do Iraque, quando é nomeado embaixador dos EUA naquele país invadido, onde chega com a arrogância de quem já tinha ganho a guerra. O seu consulado no Iraque saldou-se por um fracasso. Depois de assistir, impotente e incapaz de contrariar, ao começo da derrota dos EUA, numa guerra baseada nas mentiras que os serviços de informação encontraram para a justificar (o Iraque possuía armas de destruição massiva e Sadam Hussein era um aliado da Al-Qaeda), é promovido a Director da Inteligência Nacional. Regressou à casa-mãe.

Agora, aproveitando a sua experiência no Iraque, W Bush nomeia-o para junto de Rice (o que não deixa de ser uma retirada de poderes à Secretária de Estado), forma encontrada para dar alguma credibilidade interna à decisão de reforçar o desmoralizado contingente norte-americano na Mesopotâmia. Tal como o exército norte-americano no Iraque, também Negroponte parte desmoralizado para o novo cargo. Antecipa ser esta a sua última tarefa, e com o fim da administração Bush, antevê a reforma e o fim das desilusões: será “ a altura de fazer as malas”, disse.

Negroponte sabe que o tempo de euforias do final do século passado passou. O constante e acelerado desenvolvimento das forças produtivas acelerou de igual modo o tempo histórico. Com 67 anos, Negroponte já não tem tempo para ilusões, nem vida para esperanças…

Longe já vão os tempos seguintes à derrota do sistema socialista europeu e O Fim da história, tese da eternização do sistema capitalista, desapareceu como um delirante e volátil desejo juvenil de concretização impossível.

A globalização imperialista ainda em curso, legitimada ideologicamente pelo neoliberalismo reinante, apesar do elevado aumento da capacidade produtiva, levou a sociedade a uma crise estrutural sem precedentes, agudizando as contradições há muito existentes, gerando novas e insuperáveis contradições.

Recorrendo às novas tecnologias, a globalização da produção leva à criação novas indústrias como a robótica, a engenharia genética, a biotecnologia… Com a terceira revolução industrial (científico-técnica), a produção anterior, fruto da segunda revolução industrial (metalomecânica, química, plásticos…) perde importância e poder.

Mas foi no sector financeiro que a globalização mais fez sentir os seus efeitos nefastos. Se o capital nunca teve pátria, com a globalização e a desregulamentação dos mercados, tornou-se um “globetrotter”: Não é preciso ser um grande investidor mundial para, no mesmo dia, o mesmo capital ser utilizado em transacções especulativas, sucessivamente nas bolsas de Hong-Kong, Bombaim, Moscovo, Frankfurt, Londres e Nova Iorque. Tudo isto, sem contribuir para a produção de um grão de arroz de riqueza, apenas especulando.

A internacionalização das empresas é considerada condição de sobrevivência, a ela se submetendo governos, incluindo de socialistas e social-democratas.

E a realidade está à vista: à crescente capacidade de produção e à produção de cada vez mais bens, corresponde um maior fosso entre ricos e pobres, um crescente número de mendigos, marginalizados, excluídos e sem-abrigo!

A social-democracia, que na sua luta contra o socialismo criou o reformismo no início do século XX, é hoje, passado quase um século, a sua principal coveira… Em Portugal, a direita, sem base de apoio popular suficiente para ir tão longe, agradece.

Vivemos um tempo de resistência, e os povos (do Iraque, Afeganistão, Palestina, Líbano e um pouco de toda a América Latina…) já estão a derrotar o sonho do império norte-americano a nível planetário. Na América Latina, os povos levantam-se contra a política neoliberal, o ALCA, tratado multilateral com que os EUA projectavam recolonizar o continente, foi derrotado há um ano em Mar da Plata, e são eleitos políticos que defendem programas com políticas antineoliberais.

O Império planetário dos EUA, idealizado no “Plano Americano para o século XXI”, elaborado pelo gabinete de Dica Chernes, Vice-Presidente dos EUA, e que preconizava para a UE a sua “destruição antes que se transforme num concorrente”, já está a ser derrotado. O tempo histórico está mais próximo do tempo real.

A esquerda não tem razões para estar na defensiva.

Este artigo foi publicado no Jornal do Fundão

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