O saque imperialista das riquezas de África

Carlos Lopes Pereira    16.Mar.13    Colaboradores

A África, durante séculos vítima do colonialismo, é agora um dos terrenos em que o imperialismo se movimenta com maior agressividade. Derrube de regimes, destruição de Estados, massacre das populações, recolonização, saque de recursos, exploração e miséria para os povos: eis o imperialismo no quadro da crise geral do capitalismo.

O imperialismo planeia dominar os países do Norte de África e desestabilizara região e todo o continente de forma a perpetuar a pilhagem das riquezas africanas.

A agressão da NATO à Líbia (produtor de petróleo), a intervenção da França no Mali (ouro e urânio), a construção de uma base militar dos EUA no Níger (urânio) e o «cerco» à Argélia (petróleo e gás) são peças dessa estratégia que visa, face à crise do capitalismo mundial, intensificar a exploração dos trabalhadores e o saque dos recursos naturais africanos.

O jornalista Dan Glazebrook, que escreve em jornais como The Guardian, The Independent ou The Morning Star, publicou um artigo no Al-AhramWeekly (http://weekly.ahram.org.eg), do Cairo, denunciando esta conspiração.

Começa ele por recordar que o Ocidente drena todos os anos de África milhares de milhões de dólares em pagamentos do «serviço da dívida», em lucros de investimentos e em empréstimos ligados a esquemas de corrupção de sectores das burguesias nacionais.

Outra via de dominação da África é o saque das suas riquezas minerais. É apontado o caso do Congo, onde, no Leste, bandos armados – controlados pelos vizinhos Uganda, Ruanda e Burundi, por sua vez apoiados por potências ocidentais – patrocinam o roubo de minérios e a sua venda a empresas estrangeiras.

A África financia ainda as classes dominantes ocidentais através dos baixos preços das matérias-primas e dos miseráveis salários pagos aos trabalhadores que as extraem ou cultivam.

Em suma, o capitalismo impõe ao continente africano o papel de fornecedor de matérias-primas e mão-de-obra baratas. E, para que esta situação se mantenha,procura assegurar que a África continue pobre e dividida, flagelada por golpes e guerras.

Segundo Glazebrook, a criação em 2002 da União Africana (UA), dinamizada por Muamma rKhadafi, preocupou os estrategas ocidentais.
Para Washington, Londres e Paris era inaceitável o plano da UA de criação do Banco Central Africano e de uma moeda única. Era inaceitável a criação do Fundo Monetário Africano.E, sobretudo, era inaceitável a decisão da UA, em 2004, de elaborara Carta de Defesa e Segurança Comum Africana. E a decisão, em 2010, de avançar com uma força militar unificada.

Nessa altura, face ao seu declínio económico e à «ameaça» da China, os EUA já tinham traçado planos para recolonizar a África.

Em 2008 surgiu o Africom, comando militar que o presidente G. W. Bush pretendia instalar em território africano. Mas a UA rejeitou a presença de tropas norte-americanas e o Africom teve de montar o quartel-general na Alemanha.

Maior humilhação para os EUA foi ver Khadafi eleito presidente da UA em 2009 e a Líbia tornar-se o principal suporte da organização pan-africana.

O Império não tolerou as propostas da UA no sentido de um processo de integração africana. Depois de justificar a agressão à Líbia com«um pacote de mentiras ainda maior do que o que servira de pretexto para a invasão do Iraque» – como escreve Glazebrook –,a NATO destruiu o país, reduziu-o«à condição de mais um estado africano falhado» e «facilitou a tortura e o assassinato de Khadafi», assim se libertando de um seu opositor.

A guerra contra o coronel destruiu o seuregime e também a paz e a segurança no Norte de África.

O dirigente líbio tinha organizado desde 1998 a Comunidade de Estados Sahel-Saharianos, com o foco na segurança regional,travando a influência das milícias salafistas e apaziguando os líderes tribais tuaregues.

Com a queda de Khadafi, os radicais islâmicos da região obtiveram armas modernas –cortesia da NATO – e as fronteiras meridionais da Líbia entraram em colapso.

A primeira vítima dessa desestabilização regional foi o Mali. O avanço islamita, resultado da agressão à Líbia, foi pretexto para a intervenção militar da França.
A Argélia ficou igualmente na mira do imperialismo. Estáhoje «cercada» por radicais islâmicos a Leste (fronteira com a Líbia) e a Sul (fronteira com o Mali), onde se instalou também a legião francesa.

O imperialismo tem razões para não «simpatizar» com a Argélia, o único país do Norte de África ainda governado pelo partido que lutou pela independência (FLN):Argel apoia a UA, tem assumido posições internacionais dignas e, como o Irão e a Venezuela, vende por um preço justo o seu petróleo e o seu gás.

Este «nacionalismo dos recursos» leva as gigantes petrolíferas ocidentais a não esconder que «estão fartas da Argélia», como escreve o Financial Times. O mesmo jornal que, um ano antes da agressão da NATO, também acusou a Líbia do«crime» de proteger os seus recursos naturais…

(Este artigo foi publicado no jornal «Avante!» n.º 2050, de 14/03/13)

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