O sentido da «luta contra a pobreza» para o neoliberalismo

François Houtart *    11.Nov.06    Colaboradores

François Houtart
“Vivemos numa época em que produz mais riqueza do que nunca. Em 50 anos as receitas foram multiplicadas por sete, mas apesar disso, actualmente, cerca de 1 300 milhões de pessoas devem sobreviver com menos de dois dólares por dia”

Introdução

Há alguns anos quando visitei o Banco Mundial em Washington, uma grande inspiração adornava uma das paredes interiores da entrada: temos um sonho, um mundo livre da pobreza. Esta afirmação chocou-me de tal modo que tive vontade de escrever por baixo: e graças ao Banco Mundial continua a ser um sonho. Com efeito, o fim da minha intervenção é o de mostrar a contradição existente entre as intenções anunciadas e as políticas realizadas, e principalmente estudar o vínculo que existe entre a denominada luta contra a pobreza e as perspectivas neoliberais.

Mas primeiro um pouco de história.

É a partir de 1972 que o Banco Mundial aborda o tema da pobreza, o que corresponde ao início de uma política económica mundial neoliberal, a que se chamou mais tarde o Consenso de Washington. Mas foi a partir de 1990 que o Banco Mundial traduziu esta perspectiva em políticas mais explícitas, precisamente depois da queda do muro de Berlim e do triunfo do neoliberalismo.

Alguns anos mais tarde, o PNUD publicou a sua primeira informação sobre o Desenvolvimento Humano, introduzindo novos índices que davam valor a determinados aspectos qualitativos referentes a situações económicas e sociais no mundo. Em 1995 realizou-se em Copenhaga uma sessão extraordinária das Nações Unidas sobre o tema da pobreza, e em 1997 decretou-se a primeira década das Nações Unidas para a eliminação da pobreza.

O FMI, por seu lado, transformou, no princípio do século, os seus Planos de Ajustamento Estrutural em Programas de redução da pobreza e do crescimento (Poverty Reduction and Growth Facilities — PRGF) exigindo que cada país apresentasse também um artigo Poverty Reduction Strategy Paper — PRSP = PRSP, algo que nos fins de 2004, 43 países haviam apresentado. No que diz respeito ao Banco Mundial, este fala actualmente de Poverty Reduction Packages (PRSP). Em 2000, realizou-se em Genebra uma nova sessão extraordinária das Nações Unidas, para avaliar os resultados da realizada cinco anos antes. Chamou-se-lhe Copenhaga + 5 (embora alguns lhe chamasse Copenhaga – 5) e alguns meses mais tarde realizou-se outra reunião numa sede das Nações Unidas em Nova Iorque, que reuniu mais de uma centena de chefes de Estado, que emitiram a Declaração do Milénio, com 10 pontos, sendo o primeiro a erradicação da metade da pobreza extrema e da fome antes de 2015.

Com o decorrer do tempo e segundo as intenções, percebemos uma evolução do vocabulário. Passámos de «eliminar» a pobreza para «reduzir a pobreza» e durante os últimos anos, aparece o conceito de extrema pobreza associado ao da fome. Estes últimos, segundo as declarações, devem ser progressivamente erradicados, enquanto a pobreza deve ser aligeirada. Fixaram-se metas a 25 ou 15 anos, segundo o caso, não para resolver definitivamente o problema, mas sim reduzir para um terço ou para metade o número dos mais pobres do mundo. Já em 1990 as Nações Unidos propuseram diminuir para metade a pobreza extrema em 2015. Este objectivo foi ratificado para 2000 pela Declaração do Milénio. Tudo parece indicar que tal objectivo não será conseguido. No entanto, vivemos numa época em que produz mais riqueza do que nunca. Em 50 anos as receitas foram multiplicadas por sete, mas apesar disso, actualmente, cerca de 1 300 milhões de pessoas devem sobreviver com menos de dois dólares por dia.

Mais importante ainda do que a pobreza é a situação de desigualdade crescente no Norte como no Sul. Começa a falar-se de pobreza relativa. O Banco Mundial acaba de publicar uma informação sobre as desigualdades. Terá compreendido que o problema não é primeiro a pobreza, mas também a riqueza e a sua concentração?

1. A análise da Pobreza no discurso neoliberal. (1)
As cifras sobre a pobreza diferem segundo os cálculos, os pontos de referência e os métodos utilizados. Enquanto o Banco Mundial calculava em 1980 que havia 800 milhões de pobres, afirmava em 1990 que 633 milhões de pessoas viviam com menos de um dólar diário. Em 2002 publicou a tabela abaixo que exclui a China:

A pobreza no mundo segundo o Banco Mundial

Receitas 1.981 1990 2001
de 1 dólar 1.481,8 1 218,5 1 099
de 2 dólares 2.450,0 2 653,8 2 735
1 dólar 31,7% 26,1% 22,5%
de 2 dólares 58,8% 56,6% 54,9%

Fonte: S. Chen e M. Revallon, How have the world’s poorest fared since early 1980. World Bank Policy Research working Paper 3341, Junho de 2004, citado por Francine Mestrum, 2005.

Algumas pessoas acham que o cálculo do Banco Mundial está muito restringido. A UNTAC, através de questionários familiares, chegou a calcular números de pobreza mais elevados. A CEPAL (Comissão Económica das Nações Unidas para a América Latina) chegou a conclusões semelhantes (S. Chen e M. Ravallon, 2004, 334). A tabela do Banco Mundial apresenta, efectivamente uma interpretação muito optimista: a pobreza extrema diminui em números relativos e absolutos e a pobreza declina pelo menos nas cifras relativas. Mas isso significa também que no espaço de 20 anos há quase mais de 300 milhões de pobres no mundo. Às vezes esquecemos que os pobres não são estatísticas, mas pessoas e que sair da pobreza é o mais elementar dos direitos humanos.

Segundo a informação sobre o Desenvolvimento Humano do PNUD, em 2003, 54 países eram mais pobres em 2000 que em 1990 e 34 tinham visto diminuída a sua esperança de vida. Entre 1980 e 1998, 55 países desceram nos seus índices económicos e durante a década, 34 países desceram na escala dos indicadores de desenvolvimento. Portanto não é possível fazer um balanço favorável à escala mundial, sobretudo se levarmos em conta o crescimento económico, que se esperava constituir a fonte de diminuição da pobreza, foi menor para os países do Sul a partir dos anos oitenta, ou seja, foi menor durante o período neoliberal que durante o período precedente conhecido pelas suas regras (keynesiano ou desenvolvimento nacional).

Todo o anterior nos leva a questionarmo-nos sobre a definição da pobreza. Os números expressos mostram que é difícil de medir e que se mistura com uma forte dose arbitrária. Aos números abaixo de um ou dois dólares, temos de juntar um dólar flutuante, sem ao menos ter a vantagem de oferecer uma visibilidade concreta. Também temos de acrescentar uma série de considerações qualitativas, que não deixam de ser interessantes, mas que se revestem de grande ambiguidade, como indica muito bem Francine Mestrum (2002).

Com efeito, não se pode negar que a pobreza possui aspectos qualitativos: baixa qualidade de vida, dificuldades de acesso à educação e à cultura, ausência de higiene, mas o problema consiste em saber a que se atribuem esses factores. Uma parte da literatura trata de culpabilizar os pobres e isso não é novidade na história. É o conjunto destas carências a causa da pobreza ou ela é o fruto dessas insuficiências? Hoje em dia fala-se facilmente da demografia galopante, da má «governação» dos maus Governos, da corrupção, factos que nesse tipo de discurso aparecem como a causa dos problemas dos países do Sul.

Por outro lado, temos o mesmo problema para analisar os mecanismos da diminuição da pobreza. Pode ler-se na Comunicação patrocinada pelo Banco Mundial sobre a pobreza no Vietname o seguinte: «os lucros no Vietname, no que diz respeito à redução da pobreza, são o maior êxito conhecido em matéria de desenvolvimento económico» [Vietname Consultative Group Meeting, 2003]. O Grupo de trabalho atribui esse resultado principalmente à integração crescente da agricultura vietnamita dentro da economia de mercado. Pouca atenção se dá ao facto de que a economia socialista tinha conseguido livrar o país de uma situação desesperada, especialmente dada a consecução das guerras. [F. Houart, 2004]. É verdade que se seguirmos os critérios do Banco Mundial, a maioria da população vivia na pobreza (menos de dois dólares por dia), mas era uma pobreza compartilhada com dignidade, porque as necessidades básicas estavam garantidas. Tratava-se de uma austeridade evidentemente real, mas sem miséria e sem desigualdades crescentes. O facto de que nesta base a introdução de alguns mecanismos de mercado tenha acelerado um crescimento geral, não é nada assombroso. Como se pode explicar que na América Latina, por exemplo, onde o mercado é lei há muito tempo, os resultados não sejam semelhantes? Qual será o futuro da sociedade vietnamita, no dia em que todos os mecanismos reguladores sejam abolidos, segundo os cânones do Banco Mundial?

Francina Mestrum chega à conclusão de que a pobreza deve definir-se «como a falta de meios de existência» e acrescenta que «numa economia de mercado isso significa falta de meios financeiros» [Francine Mestrum, 2005]. Para compreender a pobreza, há então que conhecer o tipo de relações sociais existentes e os seus mecanismos de reprodução, porque a pobreza constrói-se socialmente. Ela não é um facto natural [Alternatives Sud, vol. VI (1999), N.º 4]

2. As estratégias de redução da pobreza

Os documentos do Banco Mundial e do FMI, para não falar dos da OMC, traçam com muita convicção o caminho da redução da pobreza. Partem de uma evidência: há que aumentar o crescimento, porque não se pode compartilhar um pastel sem o ter feito. A maneira de aumentar o crescimento, de acordo com essa perspectiva, é permitir ao mercado funcionar e, consequentemente liberalizar a economia, retirar todos os obstáculos para o intercâmbio dos bens, os serviços e os capitais, privatizar ao máximo as empresas do Estado e os serviços públicos e desregular as protecções sociais que travam esse processo. Com o decorrer do tempo, isso irá beneficiar os pobres aqueles que no pior dos casos, podiam desfrutar do efeito colador (trickle down) algo que poderíamos traduzir como recolher as sobras.

Para conseguir esta política de crescimento que deveria diminuir a pobreza, têm sido tomadas medidas concretas a nível macroeconómico, em especial foram colocadas em marcha as políticas monetárias do FMI. Nesta perspectiva também podemos situar as condições que se colocaram à atribuição de créditos aos Estados, ou seja, a diminuição dos seus gastos, a privatização dos serviços públicos, do ensino superior, da saúde, o pagamento da dívida para assegurar a credibilidade dos investimentos, a abertura dos mercados, os incentivos aos capitais externos, a desregularização do trabalho, e mais uma boa quantidade de elementos. A luta contra a pobreza está programada nesse contexto, com o fim de remediar as consequências não desejadas e podemos acrescentar sem dúvida inevitáveis, da dinâmica do mercado.

Assim devemos interrogar-nos sobre os reais resultados sociais destas políticas. Os exemplos abundam. No Bangladesh, a indústria têxtil, em grande parte deslocada para um país «mais competitivo», ocupa dois milhões de trabalhadores, principalmente raparigas (85%). De acordo com um testemunho: «elas trabalham 12 horas por dia, quase todos os 7 dias da semana, por um salário de 13 a 30 euros mensais. Fechadas à chave, registadas à saída, com uma liberdade sindical completamente teórica. As subversivas são despedidas e cerca de 300 trabalhadoras morreram em incêndios desde 1990» [Mundo Diplomático, Agosto de 2005].

No Sri Lanka, o Banco Mundial decidiu em 1996 que devia desaparecer o cultivo do arroz, porque ficava mais barato comprar ao Vietname ou à Tailândia. Como os pequenos camponeses não queriam abandonar a produção, o Banco Mundial impôs ao governo, primeiro desmantelar os organismos de Estado destinados a regular o mercado e a apoiar os pequenos camponeses e segundo impor um imposto (privatizado) sobre a água das regas. Mais tarde, exigiu ao Governo que distribuísse títulos de propriedade (as terras para o cultivo de arroz eram colectivas) com o fim de favorecer as vendas das terras a baixos preços às empresas nacionais ou estrangeiras que estivessem dispostas a promover cultivos de exportação.

Para responder ao que o Banco Mundial chama um crescimento a favor dos pobres (crescimento pro-pobre) o Governo do Sri Lanka publicou o Documento de Estratégia da Redução da Pobreza com o título Reerguendo Sri Lanka. Nessa informação afirmava-se, entre outras coisas, que esse plano significaria uma oportunidade real para o país, porque o milhão de pequenos lavradores que produziam arroz, se transformariam em mão-de-obra barata, o que permitiria atrair o capital estrangeiro. Mas como essa política já se executa há quarenta anos, o movimento de trabalhadores tem conseguido fazer pressão para melhorar os salários e as condições de trabalho. Resultado: a mão-de-obra tornou-se muito cara e os capitais vão para a China e para o Vietname, onde é mais vantajosa. Com toda a lógica, o Governo do Sri Lanka chegou à conclusão que há que reduzir os salários, diminuir a segurança social e diminuir as pensões, a fim de tornar mais competitiva a mão-de-obra, o que nas palavras de Sarath Fernando, responsável pelo movimento rural MONLAR: é fantástico que para promover um aumento a favor dos pobres, haja primeiro que criar os pobres.»

O Banco Mundial exige actualmente que, para a elaboração destas políticas se considerem as tradições culturais, a organização social e os valores. Solicita igualmente uma participação da sociedade civil. Mas na realidade, as organizações são consultadas de modo selectivo. As mais radicais não são levadas em conta. Os documentos raras vezes são traduzidos do Inglês (no Cambodja, não existem na língua do país, no Sri Lanka o documento do Governo está escrito em Inglês americano). Nos raros casos em que se realizou uma verdadeira consulta, os planos foram ou recusados ou substituídos por propostas alternativas (no caso do Sri Lanka).

Poderíamos pensar que se trata de estratégias de luta contra a pobreza a longo prazo, que exigem, infelizmente, sacrifícios humanos. De facto, a lógica vai mais longe. Segundo os documentos do Banco Mundial, individualizar o processo de redução da pobreza significa libertar de uma dependência de um sistema alienante de protecção social e, consequentemente torná-los donos do seu próprio destino. Esta ideia liberal é aparentemente generosa, mas está seriamente desmentida pelas relações sociais de um mercado onde ganha o mais forte, pelas privatizações que tornam cada vez mais difícil o acesso à educação, à saúde, à água, à electricidade, e certamente, o tornam menos acessível aos pobres, e pela transformação das políticas sociais, as quais passam de um sistema de protecção (já bastante aleatório no Sul) considerado como um direito, à apresentação de serviços privatizados sob formas de contratos.

Há que acrescentar que, segundo os estudos de Dante Salazar, os programas de luta contra a pobreza praticamente nunca chegam aos mais pobres. É apenas uma camada média da pobreza a que é beneficiada, porque os complexos mecanismos das políticas de luta contra a pobreza, associados à estrutura das relações sociais, deixam de fora os mais pobres [Dante Salazar, 1999, 47-62].

A verdade é que, incluindo o marco dos parâmetros existentes, seria apenas necessário que consagrar uma modesta parte das riquezas criadas para a satisfação das necessidades fundamentais de toda a humanidade, ou seja, para a erradicação da pobreza. Em 1997, o PNUD calculava que isso custaria aproximadamente 80 milhões de dólares por ano. Jeffrey Sacks por sua vez, Conselheiro do Secretário-geral das Nações Unidas, avaliou o custo do programa do Milénio em 133 milhões de dólares em 2006, passando a 195 milhões em 2015. Basta ver os números superiores a 400 milhões de dólares da divida dos países do Terceiro Mundo em 2004, ou os 900 mi8lhões de dólares de despesas de armamento (417 milhões dos Estados Unidos) ou os 3 ou 4 triliões de dólares depositados nos paraísos fiscais, para vermos que a solução do problema é possível. Por outro lado, mesmo em condições adversas consideráveis, algumas sociedades conseguiram eliminar em poucos anos o analfabetismo, a miséria e as enfermidades endémicas, sem dispor de somas comparáveis nem de planos Marshall.
Foi o caso entre outros, da China, do Vietname, de Cuba e da Venezuela, que tem lugar neste momento. Torna-se assim claro, que a luta contra a pobreza tal como é concebida pelo Banco Mundial, se insere num marco político geral que contradiz a sua realização. A razão encontra-se na filosofia que anima e cujos fundamentos se encontram no próprio seio do projecto económico neoliberal.

3. A filosofia da luta contra a pobreza

Não se trata no nosso caso de fazer um processo de intenção, mas antes entender as estratégias em que baseiam as aplicações concretas da luta contra a pobreza. Há que constatar que estas se inserem numa lógica económica global que não é inocente, porque favorece uns e desfavorece outros, criando deste modo, sob bases constantemente renovadas como consequência das novas tecnologias, desigualdade e antagonismos de classes. O liberalismo económico considera o mercado como um facto natural, consequentemente indiscutível, e não como uma construção social que depende das circunstâncias do seu funcionamento. Na lógica do capitalismo, as relações mercantis só podem ser desiguais, porque são a própria condição para acumulação provada do capital.

Dito isto, retomemos a lógica da luta contra a pobreza. Certamente esta opõe-se ao pensamento dos ultras do neoliberalismo, que consideram uma parte da humanidade incapaz de se integrar no mercado, como massas inúteis porque não são produtoras de um valor agregado e não são consumidoras (ver a crítica que Susan George, fez a esta posição em 2002. Para os liberais sociais, há que ajudar os pobres a integrarem-se no mercado, seja tornando-os capazes de vender a sua força de trabalho, seja transformando-os em pequenos empresários (capitalistas descalços) o que explica entre outras coisas, a importância que se dá ao microcrédito integrado no sistema bancário.

Não há assim mudança nas orientações do Consenso de Washington. Pelo contrário, a luta contra a pobreza insere-se com um décimo primeiro princípio que se junta aos dez primeiros, já formulados, porque permite a extensão da lógica mercantil a sectores que tinham ficado fora da acumulação capitalista, tais como a agricultura rural e os serviços públicos. Ela dá entrada aos pobres em estratégias individualistas que contribuem para debilitar as lutas sociais colectivas. Ela permite conjurar um perigo potencial para os ricos, tal Kofi Annan afirmou no Fórum Económico Mundial (Davos), na sua reunião em Nova Iorque em 2004. Ela contribui para conter as desigualdades, indispensáveis para estimular o crescimento, sob limites razoáveis, evitando assim exposições sociais. Em resumo, como declarou Francine Mestrum, ela cria uma «pobreza dócil, respeitosa, que se consola com um pouco de dinheiro» [F. Mestrum, 2005].

Recordemos que a definição de pobre e a atitude para com ele constituiu um dos problemas dos sistemas económicos geradores de desigualdades. Houve um período em que o estatuto dos pobres estava vinculado a uma leitura religiosa da sociedade: pobre era aquele que, ou ele ou os seus antepassados haviam pecado, e rico era aquele que estava abençoado por Deus, o pobre era aquele que não tinha acumulado méritos suficientes nas suas reencarnações, o pobre era aquele que permitia ao rico ganhar o céu, graças à sua generosidade. Por outro lado, a culpabilização do pobre levava à criminalização da pobreza e a identificar o indigente com o delinquente. A burguesia industrial do século XIX na Europa usou largamente a perspectiva dos séculos precedentes, mas adaptando-as aos novos dados de uma cultura secular e das relações sociais do capitalismo industrial. Os trabalhadores explorados ao máximo, deviam participar no progresso económico sacrificando a qualidade da sua existência. Os pobres não integrados no sistema e incapazes de vender a sua força de trabalho, eram considerados como marginais, quase sempre irrecuperáveis. Era a assistência ou a caridade que devia responder pelas necessidades dos pobres, satisfazendo assim as aspirações humanistas de alguns ricos, mas excluindo uma transformação das condições de trabalho ou das relações de poder no campo económico.

Na actualidade, encontramo-nos perante a mesma lógica. Michel Camdessus, quando era director do FMI, falava das três mãos: a invisível do mercado (base do sistema), a reguladora do Estado (que cria as condições favoráveis ao mercado) e a da caridade, para os que são excluídos. Também podemos lembrar o que diz Georges Simmel, sociólogo alemão, que escreveu em 1905, há um século: «a luta contra a pobreza responde sempre às necessidades daqueles que não são pobres» [citado por F. Mestrum]

Conclusões

A pobreza é um problema social historicamente construído. Numa economia de mercado capitalista, deve ser analisada à luz das relações sociais existentes, tanto no interior de cada sociedade, como no plano mundial, em particular no caso das relações Norte Sul. Claro que os contextos climáticos, geográficos, democráticos, têm um papel importante, mas sempre como fundo do modo como se constituem política e economicamente as sociedades.

No mundo actual, fora o caso das catástrofes naturais, cujos efeitos mais ou menos destrutivos estão também vinculados à organização social, ou dos factos de guerra, também produzidos por factores políticos e económicos, a miséria e a pobreza são domináveis. Não há desculpa para a sua reprodução e é inaceitável dar prazos tão longos para a sua erradicação. A riqueza produzida pode satisfazer todas as necessidades. Mas infelizmente, o problema não é só uma divisão desigual, mas sim o facto de que a produção da riqueza, tal como se concebe na lógica capitalista, se apoia na pobreza: os working poor na versão anglo saxónica, os desempregados na Europa continental, os mal pagos nas economias emergentes, as massas inúteis no Sul. Pior ainda, o crescimento está condicionado pela redução dos auxílios sociais, a privatização dos serviços públicos e o aumento das desigualdades.

É com este pano de fundo que se insere uma luta contra a pobreza, que apresenta um discurso altruísta e político, que seja assistencial, ou pontualmente válido (pequeno crédito, formação técnica) mas estruturalmente desviado pelo contexto global. Cavar poços ou melhorar os caminhos adjacentes contribui sem dúvida, para melhorar a situação das populações. Mas tais iniciativas têm apenas uma eficácia aleatória, quando, em simultâneo, as políticas macroeconómicas têm como efeito acrescentar a precariedade dos trabalhadores, concentrar as riquezas, quebrar a protecção social, eliminar o património colectivo pelas privatizações intempestivas, consagrar os recursos públicos a despesas rentáveis para o capital mas não produtivos, ou até maus para as populações (armamento demasiado, por exemplo) e destruir o meio ambiente, essencialmente o mais vulnerável.

Há então que saltar para o barco da luta contra a pobreza, em função de intervenções de carácter imediato, mas cujo preço a pagar é a submissão a uma ordem económica e social que a médio prazo as contradiz e as transforma num barril de Danaides, ou seja, sem fundo, ou num trabalho de Sísifo, que é necessário estar sempre a recomeçar. Na realidade, os pobres sofrem e morrem hoje e não amanhã e, por consequência há que agir. Mas ao mesmo tempo, a máquina que o fabrica está em movimento e é alimentada pelo Banco Mundial, o FMI, os bancos regionais, a OMC e todo o aparelho institucional do neoliberalismo

Assim é preciso continuar a obra, com os seus momentos sublimes e os seus erros dramáticos, de transformação do sistema económico capitalista e das suas expressões políticas e culturais. É um combate a longo prazo, sem o qual a luta contra a pobreza não tem sentido. Ao mesmo tempo, mas sem perder de vista a dimensão política, é indispensável trabalhar dia a dia no terreno, com uma perspectiva assistencial, nem individualizando as soluções, mas sim procurando reforçar uma acção colectiva, reconstruindo os mecanismos públicos de consolidação social e reduzindo as desigualdades. Então, quaisquer que sejam as intenções ou os efeitos positivos imediatos de alguns destes programas, a denominada luta contra a pobreza é a meta das políticas neoliberais e do desenvolvimento capitalista.

Existem alternativas. Desde já devemos recordar-nos de que a luta contra a pobreza é em primeiro lugar a luta dos pobres, melhor dizendo, dos empobrecidos. São eles que conseguem sobreviver e que lutam para melhorar as suas condições de vida. É possível outra filosofia para suprimir os obstáculos à libertação da pobreza, considerando a economia como a actividade humana que produz as bases materiais da vida física, cultural e espiritual de todos os seres humanos no mundo.

Outras políticas podem acompanhar o caminho para a emancipação dos empobrecidos e nós conhecemo-las. A humanidade de hoje tem os meios intelectuais e materiais de as aplicar a todos os níveis, desde a utopia do «Bem de todos», até às alternativas a médio e longo prazo. Esse é o compromisso moral que temos. Oxalá as grandes correntes do pensamento profético e emancipador, onde José Marti desempenhou um grande papel, nos inspirem nesta tarefa.

19.08.2005

(1) Os comentários que se seguem provêm em grande parte das duas obras de Francine Mestrum: mundialização e pobreza, 2002 e De Rattanvanger van Hameln, 2005, e também da Revista Alternativas do Sul «Como se constrói a pobreza?, 1999

Bibliografia

1. Alternativas Sul, como construir a pobreza? (Vol. VI (1999), n.º 4.
2. CHEN J. Y RAVALLON M., Competing Concepts of Inequality in the Globalization Debats, World Bank Policy Research Working Paper 3243, Março 2004.
3. HOUTART F., Hai Van, a transição dupla de uma comunidade vietnamita, Paris, As Índias Sábias, 2004
4. Mestrum, F., A luta contra a pobreza, utilidade política de um discurso na nova ordem mundial, em AMIN S. e HOUTART F., Mundialização das Resistências – O estado de lutas, 2002, Paris, L’Harmattan, 2002.
5. MESTRUM, F., Mundialização e pobreza, Paris, L’Harmattan, 2002.
6. Mestrum F., De Rattenvanger van Hameln, Amberes, Epo, 2005.
7. SALAZAR TRAZONA D., Como remediar a pobreza resultante da cooperação internacional? Alternatives Sud, Vol. VI (1999), n.º 4.
8. Vitename Consultive Group Meeting, Vietnam Development Report 2004, Hanoi, Dezembro 2-3, 2003

*Professor emérito de Sociologia, fundador e presidente do Centro Tricontinental (CETRI), Lovaina a Nova.

Tradução de Manuela Antunes

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