O socialismo é a alternativa dos povos á crise estrutural do capitalismo**

Pavel Blanco Cabrera
Publicamos hoje a intervenção de Pavel Blanco Cabrera no Encontro dos Partidos Comunistas e Operários reunido em S. Paulo, Brasil, de 21 a 23 de Novembro de 2008, em nome do Partido dos Comunistas, do México.

Camaradas:

Este décimo Encontro dos Partidos Comunistas e Operários mostra o vigor do nosso movimento; para trás ficam os anos em que o discurso triunfal do imperialismo proclamava o rigor mortis do marxismo-leninismo e dos partidos da classe operária.

Queremos agradecer ao Partido Comunista do Brasil a preparação das condições para esta reunião. Este Encontro em S. Paulo, na América, é também um indicativo de que a classe operária e os povos do nosso continente estão de pé na luta, que se rebelam contra o sistema capitalista, e que em condições diferentes, com diversas formas e métodos lutam por terminar a exploração e o despojo, pela conquista, como proclamou o histórico Encontro dos Partidos Comunistas e Operários da América Latina e Caribe reunido em Havana em 1975, da segunda e definitiva indeoendência.

Não é apenas a crise do neoliberalismo, da arquitectura financeira, mas da crise estrutural do sistema capitalista.

Neste momento o tema do Encontro é vasto, no entanto, existe um traço fundamental que é a crise. Ainda que as suas primeiras manifestações tenham sido no sector financeiro nós sabemos que apresenta características de uma crise de sobreprodução. O primeiro indício é a perda financeira, a especulação monetária, a exigência do pagamento das dívidas por parte dos credores; as bolsas de valores, os banqueiros e especuladores entram em pânico; as perdas atingem as pequenas empresas; os armazéns estão repletos de mercadorias que não são compradas; o encerramento das empresas lança os operários no desemprego; reduz-se a produção, sobrevém a depressão; baixam-se os salários e aumenta a intensidade de trabalho. Como sabemos as crises são inevitáveis em capitalismo porque são engendradas pela contradição básica deste sistema: o antagonismo entre o carácter social da produção e a forma capitalista de apropriação do produto.

A crise que está em curso tem a peculiaridade de ser a primeira a atingir demolidoramente o discurso surgido no auge contra-revolucionário do fim do século XX, quando perante a dissolução da URSS se proclamou o capitalismo como o fim da história; quando se colocou o livre comércio, o mercado, como o motor da sociedade. Então, o neoliberalismo, isto é a reestruturação capitalista, empurrou para a diminuição do papel do Estado na economia, reduzindo o público perante o privado. A mão invisível era a solução. Hoje esse discurso, tal como os índices das bolsas, esfumou-se. Advoga-se a intervenção do Estado, a regulação das transferências, o controlo dos câmbios, e os próprios porta-vozes do capitalismo falam do fracasso do neoliberalismo. Exigem a mudança do modelo para preservar o sistema. Nestas circunstâncias é um dever dos comunistas corrigir esse discurso dos ideólogos do capital e os seus parceiros sociais-democratas, inclusive também assumido por forças progressistas que pensam que a substituição do neoliberalismo pelo neokeynesianismo significará algo de positivo para a humanidade, para a classe operária e para os povos. O absurdo chega quando se pensa que uma maior intervenção do Estado na economia no quadro da propriedade privada dos meios de produção, do domínio dos monopólios é uma coisa positiva; esse argumento ideológico devemos confrontá-lo pois leva a que as massas mantenham a ilusão e não se integrem na luta.

Outro argumento negativo é o do pós capitalismo, como se a crise, por si só, provocasse o derrube do sistema. Pensar na alternativa sem antes se concentrar na estratégia, na táctica da classe e dos povos contra os seus exploradores, desdenhando o papel do partido marxista-leninista como contribuinte basilar da organização da revolução. Pensar num mundo novo sem se colocar a ruptura, com todas as suas consequências, pode ser uma tarefa de especuladores, mas não o que se esperaria dos revolucionários.

Diferente é o caso das forças que se inscrevem no anticapitalismo. Aí, trata-se de identificar o sistema como responsável pela barbárie, pelo conjunto de problemas que enfrentam o povo e os trabalhadores. Identificar o inimigo e combatê-lo a partir de posições militantes, politizando as lutas. É neste quadro que, por exemplo, actuam os comunistas do México.

O debate sobre o socialismo

O significativo avanço do processo libertador na Venezuela gera expectativas esperançosas, como é o caso da proposta do «Socialismo do Século XXI». Esta, há que dizê-lo de acordo com os nossos princípios, é uma proposta distante da que sustentam os marxistas-leninistas:

a) Não parte da maturação das condições objectivas que geram as contradições básicas do capitalismo, inclusive aspira a coexistir com ele e as suas instituições;

b) Não reconhece o papel do proletariado, da classe operária e dos seus aliados, principais interessados em enterrar o capitalismo, mas recebe influência de conceitos do oportunismo, como o de Toni Negri da «multitud»;

c) Desqualifica o papel do partido de classe, do partid comunista, do Estado-Maior e opta por partidos pluriclassistas que se desenvolvem no contexto da velha luta política, isto é, tão só como instrumentos eleitorais;

d) Desqualifica a construção socialista da URSS e da Europa de Este, condenando-a, fazendo eco da crítica anticomunista.

Já no seu tempo foram Karl Marx e Frederich Engels quem sublinhou que nem sempre a expressão «socialismo» indicava os objectivos emancipadores das classes oprimidas, inclusive o capítulo Literatura socialista e comunista do Manifesto dedica-se a esse fim.

No contexto positivo do debate, devemos abordá-lo sem concessões. O derrube do capitalismo na sua fase imperialista é uma luta dura, intensa, que exige sacrifícios, que exige organização e a cientificidade do materialismo dialéctico e do materialismo histórico. Será obra das massas de trabalhadores, dospárias da terra, não de bondosos caudilhos.

Um trabalho paciente mas sem descanso no campo ideológico nos espera, depois de anos de ofensiva contra o marxismo. É verdade que para trás ficaram como modas passadas as teses reformistas, oportunistas do Império de Negri, do movimentismo neobernsterniano da não tomada do poder de Holloway, do Fim do Trabalho, dos sujeitos emergentes. A sua perda de intensidade não anula a sua nociva influência, somada às modas ideológicas que chegam às estantes.

Novas manifestações de anticomunismo

A cruzada ideológica anticomunista do capital tem hoje expressões que ontem denunciámos. A condenação do terrorismo, advertimo-lo desde 2001, é uma condenação cínica, pois a sua principal manifestação é o terrorismo de Estado que praticou o imperialismo na Jugoslávia, no Iraque e no Afeganistão, abertamente e com dezenas de operações em menor escala em vários outros países; A mesma prática de terrorismo é seguida pelos Estados burgueses contra as lutas de classe e populares, os movimentos sociais ao criminalizá-los e reprimi-los, como é o caso recente no México de S. Salvador Atenco, Oaxaca e Xoxocotla.

Um passo mais no terrorismo de Estado foi o bomardeamento contra o acampamento das FAR-EP em que se encontrava o comandante Raul Reyes. Como sabemos, depois seguiu-se uma intensa campanha internacional do imperialismo norte-americano, do narco fascista Uribe e de instrumentos como a Interpol, DEA, o Grupo de Diários da América (GDA), a Organização Democrata Cristã da América (ODCA) e grupos fascistas, campanha claramente anticomunista, criminalizando o internacionalismo proletário e a solidariedade entre os povos.

Este é um claro renascimento do macartismo. A intensidade do ataque militar, ideológico e político contra as FARC-EP é devida à natureza de partido comunista em luta pela Revolução Colombiana desta organização. Nunca, nos últimos anos, uma força revolucionária foi objecto de tão nauseabunda cruzada. A santa cruzada vai mais além, pretende alcançar os princípios essenciais do marxismo-leninismo pois absolutiza como único método de luta o cingir-se à democracia burguesa, onde o monopólio da violência pelas forças reaccionárias condena como crime o direito histórico dos povos à rebelião. Mais, uma gigantesca provocação aponta para a perseguição dos comunistas e outras forças revolucionárias, baseados na montagem dos supostos computadores. É muito clara a coordenação internacional entre grupos policiais nacionais e internacionais, meios de comunicação e governos e forças reaccionárias baseada no combate ao terrorismo, fachada para o combate aos comunistas, às organizações revolucionárias e anti-imperialistas. Por isso, cabe-nos manter a luta ideológica e não fazer a perigosa concessão de admitir o discurso antiterrorista.

Condenamos a perseguição ao camarada Carlos Lozano, membro da direcção do partido Comunista Colombiano e director do jornal Voz.

A campanha atingiu o México, desde Marçi os diários burgueses desenvolvem a partir dos seus editoriais o linchamento do Partido dos Comunistas, exigindo ao governo a adopção de medidas judiciais e repressivas.

Independentemente dos custos a pagar, nós mantemos a convicção da solidariedade política, agora mais do que nunca, com as FARC-EP, com o povo colombino, pela paz com justiça social.

A colaboração entre os partidos comunistas e operários é uma necessidade impostergável

Esta época, as turbulências, a internacionalização dos custos chamam-nos a ir para além do Encontro, para a coordenação regional, continental e mundial dos partidos comunistas, ampliando a colaboração das forças revolucionárias e progressistas, começando por articular uma estratégia comum, com base ideológica e programática. Há que atrevermo-nos a isso sem os preconceitos que se expõem sobre as experiências negativas. O comunismo veio ao mundo coomo um partido internacional.

Brevemente sobre o México

As peculiaridades da luta no México são o aumento da insubmissão popular e a resposta repressiva do Estado que militariza a vida nacional com o concurso do imperialismo norte-americano. A iniciativa Mérida ou o Plano México é o fortalecimento do Exército e dos corpos repressivos policiais e paramilitares, a fascistização da Justiça e a criminalização da luta popular.

Mantém-se o cerco militar contra os povos zapatistas, reprime-se violentamente a greve dos professores em Morelos, mantém-se o racismo contra os povos índios, violenta-se o movimento operário.

Mas a repressão não intimida nem a classe operária nem o povo nem as organizações anticapitalistas. Cresce a luta e o protagonismo do partido dos Comunistas ao lado dos mineiros de Pasta de Conchos, dos operários e trabalhadores, dos camponeses.

É esse o quadro da comemoração dos 90 anos da Secção Mexicana da Internacional Comunista que em Novembro de 2009 se cumprirão.

O comunismo é a alternativa histórica

Novamente e mais do que nunca, face á crise do capitalismo, à bancarrota do sistema, à guerra imperialista, à devastação ambiental, contra a exploração , o despojo, o racismo e a repressão a proposta comunista de Marx, Engels e Lenine:

Proletários de todos os países uni-vos!


Intervenção de proferida no Encontro dos Partidos Comunistas e Operários realizado em S. Paulo Brasil de 20 a 23 de Novembro de 2008 em nome do Partido dos Comunista, do México

* Secretário para as Relações Internacionais e membro da Comissão Política do Partido dos Comunistas, do México

** Contribuição para o Encontro dos Partidos Comunistas e Operários reunido em S. Paulo, Brasil, apresentada pelo Partido dos Comunistas através do camarada Pável Blanco Cabrera

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