O Supremo e os supremacistas*

António Santos    31.Oct.20    Outros autores

Quanto mais se aproximam as eleições nessa «democracia» que são os EUA, mais se confirma que quem decide o seu resultado final não é o voto dos cidadãos mas sim os múltiplos mecanismos de bastidores que o sistema engendra. Milhões de eleitores que já votaram por correspondência podem ver o seu voto ignorado. Muitos dos que forem votar presencialmente terão de se haver com as milícias fascistas que Trump mobiliza. Já está montada uma composição do Supremo Tribunal que avalizará qualquer fraude e qualquer golpada. E se o bando de Trump monta este cenário, fá-lo contando com a complacência do partido «democrata».

Na segunda-feira, Amy Coney Barrett prestou juramento nos jardins da Casa Branca como juíza do Supremo Tribunal. No mesmo dia, o mais alto órgão judicial dos EUA, em que agora reina uma confortável maioria de juízes trumpistas, pronunciou-se contra a contagem antecipada dos votos por correspondência em quatro Estados-chave para as eleições de 3 de Novembro.

No Michigan, na Pensilvânia, no Iowa e no Wisconsin, os votos enviados por correio, na sua maioria democratas, só poderão ser contados depois dos votos presenciais. É um grave precedente, que abre caminho a que o Supremo ordene interromper a contagem desses votos, como aconteceu nas eleições em que, em 2000, os republicanos roubaram a vitória aos democratas. No mesmo dia, Brett Kavanaugh, outro juíz do Supremo cooptado por Trump, fez saber que, caso as eleições venham a ser impugnadas, os Estados não têm autoridade para dirimir diferendos e atribuir a vitória, reservando esse poder ao órgão a que pertence.

É cada vez mais provável que, na sequência das eleições, Trump grite «fraude» e clame pela intervenção do Supremo. Para ajudá-lo a construir este cenário de emergência, Trump conta com o apoio de mais de 300 milícias de extrema-direita que prometem marcar presença armada nas assembleias de voto. Trump dirige-se-lhes agora directamente e na sua língua, apelidando os oponentes de «globalistas» (a versão actualizada da velha conspiração mundial judaico-bolchevique) e pedindo aos supremacistas brancos «Proud Boys» para «se manterem por perto».

A intimidação poderá dar lugar ao caos e à inapelável intervenção do Supremo que, recorde-se, não é eleito, cujos mandatos vitalícios não podem ser revogados e que está agora nas mãos de Trump. Para facilitar a vida ao presidente magnata, várias corporações estaduais de polícias, como a da Pensilvânia, que está neste momento em desobediência ao governador, já vieram a terreiro informar que não agirão para evitar a intimidação de homens armados nas assembleias de voto.

O Partido Democrata, por seu turno, não fez o mais pálido esforço para evitar a hegemonia de extrema-direita no Supremo Tribunal: não procurou inviabilizar nem atrasar a confirmação de Barrett, o que, tirando partido da arquitectura regimental do Senado, era possível à minoria democrata, e não procurou mobilizar o povo estado-unidense para rejeitar nas ruas a sanha golpista. Pelo contrário, os democratas têm vindo a reduzir a confirmação dos novos juízes a um estéril debate sobre percursos pessoais e profissionais, fazendo vista grossa da fotografia política que, paulatinamente, se começa a enquadrar para o golpe.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2448, 29.10.2020

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