O território e os plurinacionais

Andrés Soliz Rada*    13.Mar.09    Outros autores

Andrés Soliz RadaA China, a Coreia do Sul, o Kuwait o Qatar, a Arábia Saudita, entre outros, estão a adquirir terras o a negociar o seu acesso a elas em países tão distintos como “a Austrália, Kazaquistão, Laos, México, Brasil, Suriname e sobretudo em África”. “ Regiões inteiras estão sob controlo de estrangeiros como Soros, Tompkins e Benetton, em especial em países com pouca população e governos pouco zelosos da sua soberania nacional. O problema irá agravar-se ainda mais devido ás batalhas pela alimentação no século XXI.

O director do Le Monde Diplomatique, Ignácio Ramonet, numa nota intitulada «Neocolonialismo Agrário» (Fevereiro de 2009), adverte que os Estados ricos estão comprando terras freneticamente em diversas partes do mundo. Revela que a China é um «comprador compulsivo». Possui mais de dois milhões de hectares na Austrália, Kazaquistão, Laos, México, Brasil, Suriname e sobretudo em África. Pequim estabeleceu 30 acordos de cooperação com governos que lhe dão acesso a terras. A Coreia do Sul adquiriu 2,3 milhões de hectares. O Kuwait, o Qatar e a Arábia Saudita procuram parcelas férteis «em qualquer parte», sobretudo agora, acrescentamos nós, que podem pagá-las com dólares desvalorizados. Regiões inteiras estão sob controlo de estrangeiros como Soros, Tompkins e Benetton, em especial em países com pouca população e governos pouco zelosos da sua soberania nacional. O problema irá agravar-se ainda mais devido ás batalhas pela alimentação no século XXI.

Será oportuno perguntar se o reconhecimento constitucional na Bolívia de 36 nações indígenas, com sistemas jurídicos próprios, livre determinação e territorialidade, favorece ou prejudica essa transferência de terras frenética e compulsiva. Ramonet revelou o verdadeiro objectivo de dezenas de ONG norte-americanas e europeias que, mediante a invocação de legítimas reivindicações culturais, adubaram o terreno para atomizar a Bolívia. De maneira idêntica, os separatistas da “Media Luna”, após facilitarem a entrada de menonitas e capitalistas norte-americanos, brasileiros e paraguaios, preferem mil vezes que a terra seja ocupada por empresários agrários do que pelos quechuaimaras das terras altas.

A Nova Constituição Política do Estado (NCPE) determina que os povos indígenas financiem as suas próprias autonomias. Por que não fazê-lo mediante a venda de uma parte dos extensos territórios já entregues a poucas famílias, sem excluir as dos povos nómadas? Dir-se-á que a NCPE proíbe a venda de territórios a estrangeiros, mas também reconhece a livre determinação e territorialidade dos povos originais. Não deve esquecer-se que nos países fracos, a Constituição tem um valor relativo. Gonzalo Sánchez de Lozada (GSL) entregou ás transnacionais os recursos estratégicos do país, apesar de estar em vigor uma Constituição de cariz estatizante. Por que não fazê-lo agora se as nações indígenas têm o apoio dos centros de poder mundial? Os presidentes da França e da Rússia, por exemplo, acabam de anunciar que ajudarão a aplicar o novo texto.

Separatistas e indigenistas repudiam os pensadores nacionais. Um deles, René Zavaleta Mercado, depois de maldizer a casta latifundiária que cobrou compensações económicas das oligarquias do Chile, pelo assalto á costa marítima, e do Brasil, pela apropriação de parte da Amazónia Boliviana, recordava estas palavras:

«O território é o que um povo tem de mais profundo. Só o próprio sangue é tão importante como o território. O território tem valor absoluto». O chanceler Rafael Bustillo, en 1872, dizia: «O território é a primeira e mais sagrada das propriedades nacionais, porque encerra em si todas as outras». Que valor podem ter estas expressões para Alvaro Garcia Linera, ideólogo do separatismo étnico, que disse só querer dividir o que já está dividido («La Época» O4-11-01); para Raúl Prada, do MAS, que insiste em desestruturar o país através do retorno ao Tawansinsuyo, desprezando a memória dos soldados Bolivianos que se imolaram em três conflagrações com países vizinhos; ou para os propagandistas do plurinacionalismo financiado pela Europa e pela USAID?

*Escritor boliviano, ex-ministro do Governo de Evo Morales
Este texto foi publicado em rebelion.org

Tradução: Guilherme Coelho

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