O trunfo de «Marianne»
Março de 2014, 70.o aniversário do programa do CNR

Um texto que fala da situação em França e da necessidade de uma perspectiva popular e combativa para a superar. Mas é necessário deixar claro que odiario.info não se revê em apelos ao boicote eleitoral como os que este texto veicula. Nas próximas eleições europeias nenhum voto democrático e progressista deve alhear-se do que nesse dia é indispensável afirmar: a rejeição e condenação das troikas nacional e estrangeira e das suas políticas de desastre nacional.

Atormentada pelo insaciável MEDEF, dividida entre a Europa federal em construção e a euro-regionalização galopante do território nacional, esvaziada do seu emprego produtivo por uma grande burguesia que sacrifica a indústria ao financeiro todo-poderoso (cf. o comportamento da família Peugeot) desprovida da sua protecção social e dos seus serviços públicos vindos do CNR, agredida até na sua língua pela invasão do inglês todo-poderoso, a França Republicana está ameaçada de decomposição. À sua cabeceira, François Hollande, pequeno procônsul do Eixo-Washington-Berlim-Bruxelas, só tem olhos para o grande patronato «nacional» e internacional. Mais grave ainda, o povo francês é chamado a «escolher» entre dois tipos de morte igualmente desonrosos: abandonar-se ao Partido Mastrichtiano Único (Pmu), formado pelo PS, UMP, do centro e da Europa-Ecologia, e a euro-austeridade eterna, tornará rapidamente inviável a ex- «doce França» com milhões de franceses em situação precária e empobrecidos. Que o nosso povo, levado pela actual vaga azul-castanha-azul marinho, acabe por optar por UM’Pen em gestação, e será a subida implosiva do racismo de Estado, violências intercomunitárias sobre um fundo de caça aos desempregados (os pretensos «auxiliados»), aos sindicalistas e aos funcionários. Nos dois casos, assistiríamos à negação inusitada da herança da Revolução francesa, da Comuna, das leis de 1905, da Frente popular e do CNR, com a terceira-mundialização das classes populares à cabeça e uma parte maior das «camadas médias». As municipais recentes de resto confirmaram e agravaram este quadro inquietante confrontando a direita radicalizada de M. Coppé e instalando a extrema-direita na escala local.

Ora a «esquerda da esquerda» não tem actualmente a capacidade de impulsionar o levante popular urgente. A «esquerda» do PS está ridicularizada pela opção neoliberal dura escolhida por Hollande. Quanto à Frente de esquerda, continua infelizmente prisioneira da mentira reformista da «Europa social» e «do euro ao serviço dos povos» em nome dos quais há decénios o PS se inscreveu na euro-desmontagem das aquisições sociais e da República. Acrescentemos a esse quadro sombrio que os estados-maiores sindicais euro-formatados e holando-complacentes apresentam uma grande inércia, com uma cumplicidade mal dissimulada, perante os incessantes ataques anti-sociais da UE, do MEDEF e do governo Ayrault.

Mas existem pontos de apoio para um contra-ataque progressista. As lutas duras multiplicam-se nas fábricas e nos serviços públicos. No plano ideológico, intelectuais progressistas tão diversos como J. Nikonoff, F. Lordon, A. Bernier, J. Sapir, E. Todd, o casal Pinçon-Charlot, pronunciam-se para que a França saia do euro, ou seja da UE e da OTAN, para alguns deles. À escala europeia, partidos comunistas e progressistas afastam-se do Partido da Esquerda europeia (presidida por Pierre Laurent), que admite em última análise a funesta moeda única. Personalidades não comunistas como Oskar Lafontaine (RFA) ou Tony Benn (Grã-Bretanha) apontam o dedo ao euro e colocam em causa a ruinosa «construção» europeia. Não só está claro que a UE não é sinónimo de democracia, de justiça social ou de prosperidade, que esse bloco reaccionário, anticomunista e grosseiramente russófobo não receia promover em Kiev forças abertamente nazis, como os conjurados da OTAN e da «União transatlântica» em gestação (na qual a UE imperial aspira a fundir-se sob os auspícios de Washington) não param de provocar confrontos político-militares explosivos do Próximo Oriente aos pés da Rússia passando pela África.

Mas nestas condições ainda há uma cartada de mestre para «Marianne» fazer

É essencialmente a carta ideológica vencedora de uma nova dialéctica entre o patriotismo republicano e o internacionalismo popular de nova geração.

Não, a ligação à soberania nacional não se opõe à cooperação internacional: constitui pelo contrário a condição como o demonstram os países latino-americanos da Alternativa bolivariana das Américas (Alba). Tão pouco a defesa republicana da soberania nacional se opõe ao internacionalismo dos trabalhadores e à resistência anti-imperialista dos povos, pois é associando-se um ao outro, como foi o caso de 1936 ou durante a Resistência, que o patriotismo e o internacionalismo progressistas poderão vencer a aliança duvidosa do euro-atlantismo, nacionalismos reaccionários, comunitarismos integristas e regionalismos da Antiga Senhora.

A seguir o mapa estratégico de uma ruptura progressista com o euro, a OTAN, a UE, e o conjunto das instituições do neoliberalismo em perspectiva, a ruptura revolucionária com o capitalismo. Se a França sair, pela via progressista desta prisão dos povos que é a UE, não só as bases de uma reconstrução da nossa economia produtiva poderiam ser reconstituídas, não apenas uma política avançada inspirada nos princípios do CNR poderia ver o dia, mas este desmoronamento politico salutar — necessariamente impulsionado pela Frente antioligárquica, soldando as camadas médias ao mundo do trabalho — lançaria o nosso povo à ofensiva suscitando a simpatia dos trabalhadores bem para lá do continente europeu.

É enfim o mapa táctico de uma campanha de massas para deslegitimar sobre bases progressistas a monstruosa UE de Maastricht; para isso convém boicotar as eleições ao parlamento europeu. Já a maioria dos cidadãos europeus e principalmente os trabalhadores, os empregados, os pequenos camponeses e artesãos, recusam votar nestas eleições estrangeiras de que o único fim — a direita e a social-democracia tendo tomado o hábito de co-gerir o «parlamento» de Strasbourg — é extorquir aos povos «um cheque em branco que permita à oligarquia instituir o «salto federal europeu» exaltado pelo MEDEF, o PS, os Verdes e a UMP; embora participar na mascarada signifique de facto «por um acto de cidadania», caucionar a obsolescência programada da República francesa. Ao apelo de forças republicanas diversas, quer venham do republicano Jean Moulin, do comunista Ambroise Croizat, do homem do 18 de Junho ou de Jean Jaurés, uma vasta frente francamente republicana poderia então organizar-se em todo o país para dar o seu pleno senso político em virtude da recusa de voto maioritário do nosso povo. Assim a «insurreição dos cidadãos» pedida pela Frente de esquerda sem produzir até agora o menor efeito tangível, poderia pôr em movimento milhões de cidadãos. Hoje, «dentro do possível» o campo do trabalho, da República e do progresso social poderia passar pela brecha de uma abstenção de cidadãos de massas para retomar a iniciativa nos planos social, cultural e político.

Para que o povo francês possa jogar essa cartada de mestre todos os que querem fazer viver os ideais muito actuais do CNR e forçar as barras da prisão euro-atlântica têm o dever, no «momento actual», de impor todos juntos um debate abrangente de massas sobre a saída unilateral da UE atlântica, da OTAN, e da ruinosa moeda única.

*Annie Lacroix-Riz, professora emérita de história contemporânea, Universidade de Paris 7, autora de Nas Origens do pelourinho europeu (1960-1965). A França sob a influência alemã e americana (2014).
**Georges Gastaud, filósofo, conhecido autor do livro Patriotismo e internacionalismo (2010).

Annie Lacroix-Riz e Georges Gastaud militam no Polo de Resistência Comunista em França (PRCF).

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