O turno de Obama
na direcção política dos negócios imperiais

José Paulo Gascão    28.Ago.09    Colaboradores

“Atendo-nos aos factos, tirando a proposta de reforma do sistema de saúde, nada há na política interna e externa de Obama que permita concluir ter havido uma alteração às práticas e objectivos da administração Bush. Inclusive intensifica a política belicista, como o demonstra o acordo com a Colômbia de criar aí mais 7 bases militares, para somar às 865 que os EUA já têm no estrangeiro”.

Depois do desaparecimento da URSS e da queda do sistema socialista europeu, muitos foram os comunistas e outros progressistas que perderam a perspectiva histórica e passaram a ver o mundo como se, na prática, não houvesse alternativa ao capitalismo.

A eleição de Barack Obama provocou uma injustificada explosão de alegria mundial que envolveu, por razões diferentes e até contraditórias, democratas e conservadores, progressistas e reaccionários, negros, brancos e amarelos, num sentimento de alívio, assente em razões não coincidentes e muitas vezes opostas. Até políticos, governantes e jornalistas tidos como de esquerda deram ao jovem presidente dos EUA o benefício de dúvida…

Se é compreensível a explosão de alegria por ver eleito para a presidência dos EUA, um país maioritariamente racista, um afro-americano, não pode confundir-se os desejos com a realidade e pensar que o ex-senador de Illinois, não segue a lógica do sistema que o preferiu a Hillary Clinton, nas primárias dos Democratas e ao empedernido candidato republicano, John McCain.

Seis meses após a tomada de posse, no passado dia 1 de Julho ainda Ramonet afirmava que Obama «não cometeu nenhum erro importante (…), manteve as suas principais promessas (…), [e] contrariamente à fanática carga ideológica da diplomacia de George W. Bush, (…) adoptou uma atitude não-ideológica (…) multiplicando, (…) os gestos de conciliação, de abertura e (…) de firmeza (…), [na tentativa de] reabilitar a credibilidade dos Estados Unidos e reganhar a confiança internacional».

Atendo-nos aos factos, tirando a proposta de reforma do sistema de saúde, nada há na política interna e externa de Obama que permita concluir ter havido uma alteração às práticas e objectivos da administração Bush. Inclusive intensifica a política belicista, como o demonstra o acordo com a Colômbia de criar aí mais 7 bases militares, para somar às 865 que os EUA já têm no estrangeiro.

Obama e a «abertura» a Cuba

As relações EUA-Cuba foram objecto de uma enorme campanha de manipulação da opinião pública: Em 13 de Abril, na véspera da Cimeira das Américas, foi criada na opinião pública mundial por manipuladora campanha na imprensa, a ideia que os EUA tinham derrogado as restrições a cubanos residentes naquele país, para viajarem até Cuba, e feito algumas alterações no campo das telecomunicações, mas a realidade é que essas medidas «até ao momento presente não foram implementadas».

Sem a agressividade de Bush, Obama mantém o essencial da política do governo anterior: permanece intacto o bloqueio económico, financeiro e comercial a Cuba e o país caribenho continua na lista criada por Bush de Estados promotores do terrorismo internacional.

Se Obama adopta o estilo de estadista da abertura, já Hillary Clinton falando dum diálogo que apenas se abriu em 14 de Julho exclusivamente para questões de emigração, diz que quer «ver mudanças fundamentais no regime cubano».

A nova estratégia afegã

Na euforia da vitória passaram despercebidas as declarações de Obama que a guerra no Afeganistão era um objectivo estratégico da sua política na luta contra o terrorismo. O novo objectivo estratégico passa pela intensificação da guerra que a NATO está a perder e pela nomeação do Gen. McCrhystal para o comando militar estadunidense e da NATO no Afeganistão.

Muito apreciado por Rumsfeld e Dick Cheney, Stanley McCrhystal foi comandante das Operações Especiais Conjuntas do Pentágono, um corpo militar frequentemente acusada da prática de tortura e do bombardeamento de populações civis por engano, no Iraque, no Afeganistão, e de há uns meses para cá no Paquistão… A sua nomeação não pode ser desligada da decisão de Obama de proibir a publicação de dezenas de fotos a documentar a prática de tortura por militares norte-americanos sobre prisioneiros, nomeadamente das Forças Especiais sob comando de General Stanley McCrhystal, com a desculpa esfarrapada de que «afectaria negativamente as tropas».

É num país ocupado por um exército atolado neste lodaçal que teve lugar a farsa eleitoral do passado dia 20.

Os motivos para as considerar uma farsa são inúmeros, apesar de Barack Obama as ter considerado «um êxito».

Ninguém acredita nisso: O recenseamento é uma burla, num país atrasado onde a quase totalidade das mulheres ainda usa burka, há mais eleitores femininos que homens; apesar de já ter acabado a contagem dos votos só em meados de Setembro está prevista a divulgação dos resultados; a tinta indelével com que os eleitores são marcados no indicador direito e que era suposto permanecer no dedo durante uma semana, foi pelo candidato Ramazan Bashardost apagada com lexívia diante dos jornalistas, durante uma conferência de imprensa realizada no próprio dia das eleições.

Podem multiplicar-se os exemplos…

Um populista acima da média

Com uma cultura acima da média dos políticos norte-americanos e um discurso fluido e bem elaborado, Barack Obama não está, na opinião de James Petras em conversa há três anos num hotel de Lisboa, no mesmo nível de Hillary Clinton, uma versão humana da capacidade de raciocínio de barbie que, já a pensar no futuro, uma intensa campanha de imprensa durante o mandato do marido transformou em estadista…

À senhora Clinton ainda lhe assoma á boca a agressividade do império e deixa ver o jogo que o presidente esconde como um profissional de poker.

Ao escolher Timothy Geithner para seu secretário do Tesouro, até aí presidente do Reserve Federal Bank de Nova Iorque, Obama confiou a Wall Street a decisão sobre as medidas a tomar para a resolução da crise e pôde começar a dedicar-se aos temas quentes da política externa, onde já mostrou ser um hábil e inusual dirigente político dos negócios do império, um homem do establishment, como não podia deixar de ser.

Nas grandes questões internacionais, com uma retórica polida e apaziguadora, reafirmou todas as opções da administração Bush: incondicional apoio a Israel, criação da força de intervenção rápida em África para protecção dos interesses norte-americanos altamente prejudicados com o que entende ser a instabilidade política, reafirmação da natureza agressiva e belicista da NATO onde a União Europeia deve continuar a ter o papel subsidiário de seguidora das decisões norte-americanas, manutenção do escudo antimísseis na República Checa e Polónia, como forma de pressão sobre a Rússia…

Quanto às Honduras as declarações públicas contradizem as posições encobertas: Em 21 de Junho (sete dias antes do golpe), como relatou o diário La Prensa, os políticos golpistas e chefias militares reuniram com o embaixador norte-americano, Hugo Llorens, um cubano-americano colaborador de Otto Reich, que com ele já participou na preparação o golpe falhado da Venezuela em 2002…

Mudou o estilo grosseiro e boçal de George W Bush, sem que isso signifique uma política de respeito pelos outros povos, países e governos.

Os quase 700 milhões de dólares que o capital norte-americano fez chegar à milionária campanha eleitoral de Obama não indiciavam outra coisa.

O capital sabe em que cesta põe os ovos.

Lisboa, 23 de Agosto de 2009

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