O Vaticano de Joseph Ratzinger ( I )

Jorge Messias *    22.Feb.07    Colaboradores

“Ratzinger, enquanto teólogo, não oculta o que pensa dos outros teólogos católicos que foram surgindo depois do Vaticano II: “São espíritos com pouca envergadura, traficantes de um fundo de comércio liberal. Afirmam o impensável e declaram depois que o que disseram é continuação e prolongamento do espírito do Concílio. E não sendo capazes de dar vida a uma nova teologia criadora, criam condições para venderem a bom preço as verdades do seu fundo de comércio liberal a que chamam Nova Teologia Católica”.

O poderio do Vaticano é inegável, sobretudo na Europa onde o sistema capitalista se expande à custa da destruição acelerada do poder político do estado laico institucional. A igreja católica participa nesse autêntico saque dos patrimónios nacionais. Mas sendo uma entidade milenar bem anterior à formação das actuais nacionalidades europeias, reúne condições particulares para reencontrar os equilíbrios que os seus parceiros assustadoramente falham. Embora acusando um desgaste crescente, o Vaticano tem sabido harmonizar as suas principais componentes que são, actualmente, a tradição e as dinâmicas de mercado.

A força vital da igreja católica resulta de saber conservar em doses bem estudadas a desejada relação entre a centralidade rígida a que obedece o seu corpo místico e a relativa autonomia dos seus agentes económicos confessionais, organizados segundo as regras tecnocráticas do grande capital. No plano financeiro, as instituições católicas agrupam-se em corporações numerosas que têm revelado, em numerosos casos, a sua capacidade em gerir negócios gigantescos. Já a nível eclesiástico, prevalece uma cadeia hierárquica rígida e única, dogmática e imperial, chefiada por um monarca entronizado – o Papa, Guardião da Fé. A delicada operação de articulação das acções da igreja em duas áreas com características tão distintas é superiormente dirigida por altos especialistas com formação mista, teológica e de mercado, moldados pelas universidades católicas mais elitistas, pelos institutos do Vaticano e pelo Opus Dei. Na realidade, são eles que em ligação íntima com o Papa e com as estruturas superiores do grande capital, constituem o governo invisível que dirige, actualmente, os destinos da Europa e do mundo. O actual pastor da Santa Sé, como se sabe, é um alemão que foi cardeal no seu país, acumulou poder e influência e acabou por ocupar, um tanto contra a corrente dominante no colégio cardinalício, a cátedra de S. Pedro. Referir passos da vida de Joseph Ratzinger é desafiar o tempo e regressar aos labirintos das intrigas quatrocentistas dos Borgias ou dos Médicis. Mas tentar a aventura tem interesse na medida em que pode sugerir outras investigações mais apuradas. Embora falar-se do papa como homem seja abordagem que não pode ser metódica nem exaustiva, visto a maior parte da vida do actual chefe da igreja ter decorrido sob o signo da confidencialidade. Porém, aceitar-se o desafio, em ordem dispersa, sem sistematização, contribuirá eventualmente para abrir pistas de interesse documental. A simples ficha biográfica do cardeal que acabou por dominar o Vaticano já diz muito acerca das características da sua personalidade e como nesta se confundem os traços pessoais e a imagem que Ratzinger cultiva de uma Igreja magnífica e triunfante.

Rigor, disciplina e luxo

Ratzinger nasceu na Alemanha em 1927, na católica Baviera e na pequena cidade de Marktl am Inn onde seu pai era comissário de polícia e comandava as forças de segurança locais. Devido a essa situação, Joseph Ratzinger nasceu num quartel e residiu, durante a infância, em várias localidades para onde seu pai era destacado. Numa dessas cidades, em Traunstein, os pais matricularam-no num seminário católico onde começou, aos 12 anos, a estudar Grego e Latim. A sua mãe, extremamente devota, promoveu mais tarde a transferência de Ratzinger para o Ginásio Maximiliano, em Munique, onde viria a ser ordenado padre simultaneamente com o seu irmão, Georg. Nesta fase da sua vida inscreveu-se nas Juventudes Hitlerianas, serviu no destacamento de artilharia antiaérea que protegia uma importante fábrica da BMW (batalhão Flak) e foi transferido para a Arma de Infantaria onde fez o curso de minas e armadilhas. Com a aproximação dos exércitos aliados, em 1945, Ratzinger despiu o uniforme e procurou refúgio em casa de familiares, em Traunstein. Identificado como soldado desertor, foi preso pelos americanos que todavia o libertaram, poucos meses mais tarde.

Ratzinger regressou então ao seminário, cursou Filosofia e doutorou-se em Teologia, por volta de 1959. Nesse mesmo ano começou a leccionar, primeiro em Bona, depois em Munster, Tubingen e Regensburg em cuja universidade ensinou Teologia Dogmática e História do Dogma. Fanaticamente conservador, anti-ateísta e anticomunista, Ratzinger levou tão longe as suas posições que, nos inícios da década de 70, o Vaticano o disciplinou suspendendo-o da sua Cátedra de Teologia. Curiosamente porém, poucos anos depois, em 1977, o papa João Paulo II nomeou-o cardeal, arcebispo de Munique e Ministro Pastoral da Grande Diocese da Baviera. Em 1981, finalmente, o cardeal Ratzinger foi designado pelo mesmo papa, Prefeito da Congregação para a Defesa da Fé ( ex-Tribunal do Santo Ofício) e começou a chamar as atenções de todo o mundo. Em 2005, aos 78 anos de idade, o cardeal Ratzinger, consensualmente considerado não elegível como Papa, foi proclamado chefe de toda a igreja católica. Tinham bastado dois dias de conclave para vencer a resistência dos cardeais. Assim, há dois mistérios (ou dois milagres) na vida de Ratzinger que é importante não passar em claro. O primeiro, foi a súbita passagem do teólogo em estado de desgraça para os pináculos da fama, quando João Paulo II mudou em confiança a sua desconfiança inicial e nomeou Ratzinger para cargos com tão alto poder que o transformaram no segundo vulto da hierarquia católica.

O segundo milagre verificou-se quando os cardeais eleitores, que à esquerda e à direita olhavam com reservas a ascensão do inquisidor-mor, cessaram inesperadamente toda a resistência e o Conclave encontrou um novo papa em menos de dois dias… Que se terá passado?

A isso voltaremos. Antes, porém, completemos o quadro dos traços biográficos mais evidentes da personalidade do grande vencedor da Teologia da Libertação. Disse um comentador que Ratzinger nunca esquece e avança com a velocidade de um buldozer. É um homem determinado e implacável cujo fundamentalismo teológico se ampara na tradição e na liturgia. É daí que vem a sua paixão pelo esplendor do culto e pelo luxo pessoal. Veste-se nos melhores alfaiates, calça sapatos italianos Tod’s de 300 euros, usa óculos Prada, e tudo quanto põe em cima do corpo trás a assinatura dos grandes estilistas da moda. É, reconhecidamente, um notável inovador na área dos paramentos e das alfaias litúrgicas.

Os seguidores do cardeal bávaro gostam de dizer que ele é senhor de uma personalidade forte e sedutora. Não é essa, evidentemente, a análise que muitos outros fazem do homem que, ao longo de uma extensa carreira, sempre soube impor as suas posições pessoais transformando-as, habilmente, em dogmas canónicos da igreja. Ratzinger, enquanto teólogo, não oculta o que pensa dos outros teólogos católicos que foram surgindo depois do Vaticano II: “São espíritos com pouca envergadura, traficantes de um fundo de comércio liberal. Afirmam o impensável e declaram depois que o que disseram é continuação e prolongamento do espírito do Concílio. E não sendo capazes de dar vida a uma nova teologia criadora, criam condições para venderem a bom preço as verdades do seu fundo de comércio liberal a que chamam Nova Teologia Católica.

Praticamente, todas as grandes teses de referência da igreja actual têm a chancela e a autoria principal de Ratzinger. Entre os principais documentos que circulam e fazem doutrina, podem citar-se o “Novo Catecismo”, as instruções do “Código do Direito Canónico”, a “Vocação Eclesial do Teólogo” o “Compêndio da Doutrina Social da Igreja”, o “Compêndio do Catecismo da Igreja Católica”, a “Introdução ao Cristianismo” ou “Alguns aspectos da Teologia da Libertação”. Mas o fundamental da sua intervenção na vida da igreja, na segunda metade do século XX, fica marcada pelo anonimato da sua colaboração nos escritos e na formação do cardeal Wojtyla como Pontífice, na forma impiedosa como perseguiu os teólogos da Libertação e na intriga política que culminou no desmantelamento do aparelho partidário e de estado nos países do Leste europeu.

Conhecida como é a devoção fanática que Ratzinger tem por Fátima, o seu inesperado cancelamento ao santuário produziu alguma curiosidade ao ser conhecido. Tanto mais que as justificações alegadas não eram convincentes. Ratzinger, por muito que isso custe à sua imagem mediática, é irresistivelmente autoritário e rígido. Falar-lhe em interrupção da gravidez é virá-lo do avesso. Sugerir que um político poderá, mesmo que muito pouco, fazer o jogo da despenalização do aborto, é falar-lhe no inferno e nas forças do mal. Ratzinger estava informado e sabia o que se preparava em Portugal com a consulta popular do dia 11 de Fevereiro. Por isso, cortou. “O inalienável direito à vida por parte de todo o indivíduo humano inocente, é um elemento constitutivo da sociedade civil e da sua legislação… A colaboração formal num aborto constitui falta grave. A Igreja pune com a pena canónica da excomunhão este delito contra a vida humana “ (“Catecismo da Igreja Católica”, Nos. 2270 a 2275). E, ainda “Quando o Estado não coloca a sua força ao serviço dos direitos de todos e, em particular, dos mais fracos (entre eles dos concebidos ainda não nascidos) passa a ser minados os fundamentos do Estado de direito” (Compêndio do Catecismo da Igreja Católica, num. 472).

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