O Vaticano e o mundo

Marina Minicuci*    20.Mar.07    Colaboradores

Marina Minicuci

Com a misteriosa morte de João Paulo I aos 33 dias de papado, o Vaticano iniciou um caminho de regressão com o populista João Paulo II, sempre acolitado pelo Cardeal Ratzinger, ora Bento XVI.

O Vaticano é o Estado mais pequeno e mais pernicioso do mundo. Uma monarquia eleitoral absoluta, uma organização piramidal e não democrática que possui bens e tesouros em todo o mundo, os quais gozam de estatutos privilegiados, e nalguns casos extraterritoriais, o que lhe permite a exoneração de impostos. Estatutos privilegiados aplicáveis também a assuntos comerciais e contratuais. Um rio de dinheiro flui para o Vaticano, de Itália e de outras nações e comunidades de maioria católica: ofertas, doações, heranças, quotas de impostos. Só uma pequena parte destas riquezas é dedicada a projectos humanitários. O resto vai para a catequese nas paróquias, construção de igrejas, manutenção do clero, mas também para negócios escuros, e bancos amigos, através dos quais o dinheiro se recicla e se multiplica em investimentos, títulos, imóveis, acções. Um Estado que pela opacidade das suas finanças, indubitavelmente, pode comparar-se a jurisdições off shore. Por isso não é de estranhar que o Vaticano se tenha visto envolvido em estranhos assuntos nunca esclarecidos: o caso Calvi, o chamado “banqueiro de Deus”, que apareceu enforcado na ponte dos Frades Negros, em Londres, o caso do Banco Ambrosiano e do assassínio de Marco Ambrosoli, o sinistro papel do IOR (o Banco do Vaticano) através do misterioso cardeal Marcinkus e outros facínoras de alto gabarito, como Michele Sindona (envenenado numa prisão de alta segurança com um café com cianeto). Como também não é estranho que o Vaticano tenha estado no centro dos maiores escândalos italianos (e não só italianos) dos últimos trinta anos, misturando-se com a maçonaria, a máfia e os serviços secretos, aparecendo implicado na lavagem de dinheiro sujo, tráfico de armas para a guerra das Malvinas, financiamento da ditadura de Somoza e do sindicato polaco Solidariedade (uma intriga internacional que custou à Igreja 75 milhões de euros).

Mas o incrível no Vaticano está na ordem do dia. Como é sabido, a “Santa Sé” fez tudo para proteger Noriega (que foi usado pelas administrações de Reagan e Bush pai no tráfico de estupefacientes da CIA), o ditador e narcotraficante panamense procurado pela DEA (DRUG Enforcement Administrations) estadunidense. No Panamá havia financeiras de Marcinkus, Calvi e Sindona, todas amavelmente protegidas de olhares indiscretos por Noriega. Lino Christ, abade da paróquia de Rio de Janeiro e correio da rede brasileira de narcotráfico, foi preso na Suiça com 9 quilos de cocaína pura na bagagem. O Vaticano, tal como a Opus Dei, parece mais uma escura organização financeira disfarçada de obra religiosa, com presumíveis conivências com a máfia siciliana e a “camorra” napolitana, com bandos subversivos e delinquentes comuns (o chefe do “bando da Magliana”, associação de delinquentes e assassinos que actuaram em Roma nos anos 70 a 90, foi enterrado na Basílica de Santa Apúlia, uma honra só concedida a papas e grandes prelados).

Um Estado que esqueceu por completo o significado de Ecclesia, a Igreja pobre e ao lado dos desfavorecidos, dos últimos que serão os primeiros, e que se está a converter, cada vez mais, numa multinacional que, ao contrário da Microsoft ou da Nestlé, pretende actuar sobre as consciências. Se nos concentrarmos nos tempos mais recentes, a deriva do Vaticano para posições retrógradas, que quer afundar-nos num futuro medieval, começou com o pontificado do populista João Paulo II e contínua com Bento XVI. Desde aí, a Igreja está a desvitalizar os conteúdos mais significativos do Concílio Vaticano II (convocado pelo papa João XXIII), que se caracterizou por uma vincada índole “pastoral”. Não se proclamaram novos dogmas, mas tentou-se “abrir a Igreja à leitura dos sinais dos tempos”. No próprio debate que precedeu a eleição de Bento XVI foi impossível encontrar o menor esclarecimento sobre os conteúdos e os programas dos grupos (os chamados conservadores e progressistas) que se enfrentam ferozmente dentro da Igreja. Nem uma só alusão à questão demográfica, mãe de todas as actuais tragédias (da sede de guerra, do desemprego massivo, do extermínio por fome de 350 milhões de crianças só durante o pontificado de Karol Wojtila), e o trágico impulso que deu à vesânica proibição do controlo de natalidade imposta pelo papa polaco. Proibição que, saliente-se, não é nem nunca foi a expressão de um mandato das Sagradas Escrituras, onde nada disso se menciona, nem das tendências dos fiéis que, pelo contrário, se têm repetidamente mostrado favoráveis em todo o mundo ao controlo da natalidade, mas apenas fruto das decisões deste ou daquele papa. Tanto assim é que Paulo VI a adoptou em 1968, em claro contraste com a opinião da alargada comissão teológico-científica nomeada pelo próprio, e que o predecessor de Wojtila, o papa Luciani, tinha decidido revogar, antes de morrer em circunstâncias misteriosas poucas semanas depois da sua eleição. Como disse Tullio Regge (eminente físico italiano) comentando a encíclica de João Paulo II, “as posições papais constituem um passo atrás em relação à recente abertura relativa à cosmologia e ao evolucionismo”. Na verdade, João Paulo II rebateu explicitamente os ensinamentos do Concílio Vaticano II sobre o racionalismo e o fideísmo. Retomou as condenações de Pio X, XI e XII contra o fenomenismo, o imanentismo, o agnosticismo, o marxismo, o evolucionismo e o existencialismo, e do Santo Ofício contra a teologia da libertação. Censurou o ecletismo, o historicismo, o modernismo, o parlamentarismo e o niilismo. E proclamou que os dogmas formulam uma verdade permanente e definitiva, não apenas pragmática e funcional. O papa polaco Karol Wojtila considerava que a encarnação de Cristo tinha restaurado a índole paradisíaca da razão, pelo que esta seria capaz de alcançar a verdade absoluta através da fé. Com desconcertante anacronismo, no final do milénio João Paulo II propunha voltar aos seus, eliminando séculos de conquistas do pensamento, reimplantando a escolástica e esquecendo que foi precisamente o seu fracasso o que libertou tanto a fé como a razão, e permitiu o nascimento tanto do protestantismo como da ciência.

Evidentemente, Wojtila sabia bem que nesta mortificante viagem iria ser seguido por muitos, como o demonstra o clamoroso ataque mundial ao darwinismo propiciado por outro papa, Bento XVI, que segue em passada larga o seu caminho. Um caminho em consonância com as teorias de Bush e do seu grupo, e portanto com os objectivos do outro Estado mais pernicioso do mundo: os Estados Unidos. Desde a eleição de Bento XVI desenvolveu-se um debate surrealista que situa ao mesmo nível o evolucionismo e o criacionismo, disfarçado de “desenho inteligente”. Sobre isto, Carlo Fabretti, companheiro de luta e matemático, escreveu: “Creio que não se concedeu a importância suficiente ao facto de o presidente de um país supostamente civilizado e líder da investigação científica mundial apoiar publicamente o criacionismo (ou a denominada “teoria do desenho inteligente”, que mais não é do que uma grosseira intenção de actualizar o mito de Adão e Eva). A evolução das espécies está tão provada como a esfericidade da Terra, e só a partir da mais supina ignorância e do mais obtuso irracionalismo (ingredientes básicos do fundamentalismo judaico-cristão) se pode negá-la ou pretender que possa haver outras explicações verosímeis para o biodiversidade e a origem do homem. Propor o “desenho inteligente” como alternativa à evolução equivale a dizer que o modelo coperniciano é só uma das possíveis interpretações do sistema solar, e que o modelo geocêntrico de Ptolomeu tem o mesmo direito a ser ensinado nas escolas”. E continua: “Que Bush não se destaca precisamente pela sua preclara inteligência é uma coisa que ele próprio se encarrega de demonstrar diariamente, mas não é possível que todos os seus assessores sejam tão estúpidos como ele. Algo tão grave como o questionamento do darwinismo não pode ser uma mera torpeza. É muito pior: é uma deliberada aposta pelo irracionalismo. E uma aposta muito forte, uma jogada de mestre contra a razão, como quando Millán Astray, expressando melhor que ninguém a essência do fascismo, gritou “Morra a inteligência, viva a morte”.

A religião é, desde sempre, um importante elemento na política dos EUA, mas a recente escalada, tanto em termos numéricos como de poder, dos evangelistas está redesenhando o mapa político do país. Com importantes consequências não só no que respeita aos próprios Estados Unidos mas também a nível da sua política externa. Os fundamentalistas povoam as fileiras do protestantismo conservador estadunidense, e alguns grupos evangelistas contam no seu seio com minorias impacientes por se fazerem ouvir e que, com toda a propriedade, podem definir-se como “fundamentalistas”. Os evangelistas declarados foram 40% dos votos obtidos por George W Bush nas eleições de 2004. E também jogaram um papel chave no Congresso e no Senado, tanto que a percentagem dos evangelistas eleitos passou de 10% para 25% em 2004, e a política estadunidense sobre Israel está claramente influenciada pelos evangelistas.

As vias do Senhor: o Vaticano e Itália

Sugiro que o Vaticano se transfira para Jerusalém, assim estaria perto do Santo Sepulcro e da Gólgota, e o mais longe possível de todos nós.
Piergiorgio Oddifredi (matemático e lógico italiano)

Foi através dos Pactos Lateranenses de 1929 – e o acordo subsequente – que se regularam as relações entre o Estado italiano e a Igreja, e que depois com o advento da República e dos governos democráticos, a Itália se converteu em sede temporal do poder eclesiástico, que penetrou nos governos por delegação, nos organismos públicos, nas leis. Houve apenas a resistência marginal, paga a alto preço, de alguns católicos politicamente comprometidos como De Gasperi ou Moro. Para manter intacto o poder temporal da Igreja, o Solo Sagrada e os seus renovados diocesanos, nunca condenaram as delapidações e a corrupção públicas que tinham lugar à vista de todos até se converterem num sistema de governo e de subgoverno. Em Itália, o Vaticano maneja propriedades imobiliárias, actividades bancárias, empresas industriais, financiamentos directos e indirectos à custa dos orçamentos do Estado italiano e dos organismos públicos. É quase um monopólio no vasto mundo da assistência social, uma presença constante nas iniciativas a favor da juventude, na gestão de clínicas e de instituições hospitalares. É um poderosíssimo lobby, uma multinacional com interesses que se ramificam em todos os sectores. Possui uma das emissoras mais potentes do mundo, “Rádio Vaticano”, o diário mais lido em Itália, “Família Cristiana”. E, graças à congregação Paulina, detém o quarto grupo mediático de Itália, atrás de Mondadori, Rizzoli e Rusconi. Isto significa “plasmar” o pensamento de muitas pessoas. O Vaticano publica muitos outros jornais e livros, com vendas muito consideráveis, publicações que beneficiam de financiamentos estatais, isto é, pagas por todos os italianos. Mas quando os nossos magistrados emitem uma ordem de prisão contra algum prelado nebuloso, o Vaticano impõe a sua extraterritorialidade enquanto Estado independente, protegendo e deixando em total liberdade estes padres sem escrúpulos e sem Deus. Mas para os financiamentos ao Vaticano, que os italianos pagam com impostos à razão de oito por mil, a extraterritorialidade não é tida em conta. Do Estado italiano, o Vaticano recebe tudo o que se acordou nos Acordos de Latrão e pretende também o que nunca foi acordado. Inclusivamente, até os impostos municipais pagos pelos cidadãos de Roma o Vaticano resiste a pagá-los, tanto os correspondentes a serviços como a um património imobiliário que torna pequenas a maiores fortunas do mundo. Quanto nos custa o Vaticano? É um livro onde se afirma que os pagamentos não efectuados ascendem a 2.440 milhões de euros por ano, pagamentos que revertem sobre os cidadãos romanos. Piergiorgio Odifreddi calculou que a política financeira iniciada pela administração Prodi poderia ser reduzida em 25% se o Vaticano pagasse a sua dívida ao Estado italiano. Sobretudo há custos sociais, e citarei só um caso escandaloso. As antenas da Rádio Vaticano, instaladas na campina romana, estão entre as mais potentes do mundo, e decuplicaram desde o tempo das primeiras instalações, nos anos cinquenta, até aos dias de hoje: um imenso espectro electromagnético que dia e noite emite para todo o mundo. A voz de Deus, omnipresente, acopla-se com as torneiras, as estufas, as fechaduras electrónicas e os atendedores automáticos. O Angelus passa pelas canalizações e o rosário recitado pelo papa sai pelo lavatório em frequência modulada. São constantes as denúncias de interacção com bypass e em instrumentos de diagnóstico, e é difícil fazer um electrocardiograma na área afectada, habitada por umas trinta mil pessoas. Liga-se um telemóvel e ouve-se o Urbi et Orbi, acende-se o televisor no domingo para ver um jogo de futebol e em vez dos golos do Ronaldo grama-se com a Celebração das Vésperas. É demasiado, inclusivamente para os fiéis!
Mas este quase cómico monumento de evangelização tem um reverso trágico. Há anos, demonstrou-se que quanto mais perto as habitações estão da área afectada maior é a incidência de leucemia infantil. As medições do campo electromagnético mostraram que a zona apresenta valores muito superiores aos seis vóltios/metro, nível máximo permitido em Itália para edifícios e áreas em que as pessoas permaneçam mais de quatro horas/dia: casas, escolas, locais de trabalho.

O tribunal de Roma tentou uma sentença de deslocação ou de diminuição da potência das retransmissoras mais perigosas mas não conseguiu. Na verdade, uma lei de 1951 que plasma um acordo bilateral Itália-Vaticano alarga às instalações amesma extraterritorialidade de que goza a Cidade do Vaticano. Os juízes alegam que um Estado estrangeiro também não pode contaminar o Estado italiano. O Vaticano defende-se, dizendo que não está demonstrada a relação entre os casos de leucemia e as antenas, e que, em todo o caso, a culpa seria do Estado italiano que permitiu edificar nas zonas afectadas. Os mensageiros de Deus tem de ocupar-se de assuntos muito mais importantes que uma miserável criança italiana afectada com leucemia.

Na verdade, a Igreja está muito ocupada, a lançar um ataque verdadeiramente subversivo, contra as instituições italianas, com uma ampla deslegitimação das iniciativas do Governo e do Parlamento. O pretexto é um inofensivo projecto de lei – feito por uma catolicíssima ministra de um Governo regido por um catolicíssimo líder – para equiparar direitos e deveres dos casais de facto (incluído homossexuais) aos dos matrimónios. Sobre isso o homófobo Bento XVI afirmou de forma peremptória que “nenhuma lei pode subverter as normas do Criador sem tornar precário o futuro da sociedade com leis em clara oposição ao direito natural”. E acrescentou que não se podem ignorar “normas inderrogáveis que não dependem da vontade do legislador ou do consenso dos estados, mas que precedem a lei humana e, portanto, não podem ser derrogadas por ninguém”. E o presidente da Comissão Episcopal Italiana, cardeal Camilo Ruini, há muitos anos indiscutível protagonista da política da Igreja, anunciou uma nota oficial na qual indicará como os católicos, e os parlamentos em primeiro lugar, deverão comportar-se face ao projecto de lei. O objectivo é, obviamente, muito mais ambicioso que a alienação provisória da política com uma posição definida pelas hierarquias eclesiásticas; trata-se de uma autêntica revisão constitucional, pois desde que a Igreja declara que há “normas inderrogáveis” que não podem submeter-se à vontade do legislador, recusa nestas matérias a autonomia e a independência do Estado e usurpa com a sua própria soberania a das instituições públicas. Saberá o Estado italiano reencontrar o sentido profundo da sua missão, da sua própria razão de ser, que o converte no âmbito de todos os cidadãos, crentes e não crentes, dignos de ser respeitados nas suas convicções e fiéis à Constituição e aos seus valores? É uma pergunta que muitos de nós fazemos hoje em Itália. Creio que se não há uma reacção firme por parte do Estado italiano, poderia ser um desastroso precedente para todos.

João Paulo I

A Igreja nomeou papa o filho mulher a dias e de um pedreiro! O filho de um socialista! Uma criança que passou fome!
(D. Hélder Câmara, bispo brasileiro)

Já em 1984 a editorial Pironti publicou, a propósito deste acontecimento crucial, o livro Em nome de Deus [1], do historiador estadunidense David Yallop (é inútil esperar que os historiadores italianos escrevam livros deste tipo, demasiado ocupados a puxar lustro à baixela papal). No seu livro Yallop descreve com clareza os possíveis mobiles da eliminação do papa Luciani. O primeiro móbil é assim apresentado: “O novo papa tinha decidido levar a cabo uma limpeza geral dos homens mais próximos do Banco do Vaticano, o IOR. E em 20 de Setembro de 1978 estava já claro que cinco homens – Marcinkus, Villot, Cody, Sindona y Gelli – tinham muito a temer se João Paulo I vivesse e muito a ganhar se ele morresse. E o papa Luciani morreu subitamente na noite de 28 de Agosto de 1978, a uma hora e por uma causa que nunca foram conhecidas. O corpo dos papas é intocável e não se pode fazer a autópsia que muitos reclamavam em voz alta”.

O segundo motivo provável daquela morte remonta, com toda a probabilidade, a 1968, quando Luciani, então patriarca de Veneza, tinha enviado a Paulo VI, que tinha de decidir qual a posição da Igreja sobre a questão demográfica, um memorando reservado em que lhe solicitava a modificação da linha tradicional, contrária a contracepção, e que adoptasse uma posição favorável à mesma, como já faziam há dezenas de anos as demais igrejas cristãs. Paulo VI retirou-se a meditar para o Castelo Gandolfo, onde o cardeal Urbani contou ter visto o memorando de Albino Luciani sobre a secretária do papa e, apesar de 64 dos 68 peritos da Comissão por ele nomeada aconselharem a aprovação da pílula anticonceptiva, Paulo VI publicou a 25 de Julho de 1968 a desastrosa encíclica Humanae Vitae, que condenava categoricamente qualquer método anticonceptivo e que paralisou durante quase meio século, mediante a nefasta obra das nunciaturas apostólicas, toda a iniciativa internacional para a regulação da natalidade e que pode considerar-se a principal causa da fome, da sede, das guerras territoriais, do desemprego, da pobreza, da mortalidade infantil e materna no Terceiro Mundo, e também das actuais migrações massivas provocadas pelo desespero. Quando foi eleito papa em 1968, Luciani tentou reparar tão espantoso erro, estabelecendo contactos com numerosos sectores interessados na questão, e parecia claramente decidido a eliminar o veto da Igreja à concepção. Lamentavelmente, destes contactos estava também informado o cardeal Jean Villot, enquanto secretário de Estado. É assim que Yallop descreve este momento crucial: “Villot e alguns mais estavam a par do diálogo entre o novo papa e o Departamento de Estado estadunidense sobre a questão demográfica, bem como da audiência privada prevista entre o papa e uma delegação de parlamentares estadunidenses para discutir o tema do controlo da natalidade. As discussões com Luciani tinham dissipado todas as dúvidas de Villot sobre as posições inovadoras do novo papa. Por outro lado, Albino Luciani tinha apenas 66 anos, o seu pontificado podia ser longo, e nas câmaras secretas do Vaticano este anunciava-se inesperado e ameaçador. Num mês apenas de papado ousou pronunciar frases como “a propriedade privada não é um direito inalienável”. A Igreja, segundo Luciani, teria de voltar a ser simples e humilde, abandonar as finanças pouco escrupulosas, dissipar as suspeitas que ao longo de décadas se tinham abatido sobre o Vaticano. Homicídios, conivências com a máfia siciliana, a “camorra” napolitana e outras grupos terroristas, evasões de capital e um longo etcétara. Quanto aos prelados filiados nas lojas maçónicas, coincidindo precisamente com a eleição do papa Luciani, publicou-se uma lista de 131 eclesiásticos inscritos na maçonaria, boa parte dos quais residentes no Vaticano. A lista foi difundida por um pequeno periódico, “Osservatore Político” de um tal Mino Pecorelli (conhecido pelas revelações sobre Andreotti e também sobre o caso Aldo Moro, morto pela Brigadas Vermelhas em 1978), que desapareceu um ano depois da eleição do papa Luciani em circunstâncias nunca esclarecidas. Segundo muitos, o Osservatore Político era uma espécie de “instrumento de comunicação” utilizado pelos serviços secretos italianos para divulgar mensagens de carácter político. Pecorelli, entre outras coisas, estava estreitamente ligado a Gelli, tal como a Sindona e a Calvi, o primeiro envenenado na prisão e o segundo enforcado debaixo da ponte dos Frades Negros em Londres. Mas voltando à lista eclesiático-maçónica, esta incluía, entre outros, os nomes de Jean Villot, (secretário de Estado), Agostino Casaroli (chefe do Ministério dos Negócios Estrangeiros do Vaticano), Paul Marcinkus [2], D.Virgílio Levi (subdirector do “Osservatore Romano”) e Roberto Tucci (director da Rádio Vaticano).

Um papa que, em brevíssimo pontificado de apenas 33 dias, entrou no coração de muitos e deixou uma recordação indelével. Em geral, nestes casos, pelo menos post mortem, a Igreja faz um esforço de adequação para conservar entre os fiéis, e esta flexibilidade garantiu a sua sobrevivência e o seu poder durante dois mil anos. Não foi assim no caso do papa Luciani. Sobre ele abateu-se o silêncio. Foi como se nunca tivesse existido. E este silêncio é mais eloquente que qualquer indício sobre o seu desaparecimento.

A chegada do medieval

Freud sustentava que a religião é um eficaz sistema de negação da realidade e que os dogmas religiosos podem equipara-se a “resíduos” neuróticos. É evidente que o objectivo principal das representações religiosas é prolongar a existência terrena numa vida após a morte em que todos os desejos se veriam, enfim, satisfeitos. Num momento tão difícil para a Humanidade, Bento XVI apostou em fazer redescobrir ao mundo os fundamentos do cristianismo, consciente de que o cristianismo atrai cada vez menos as massas de pobres disseminadas pelo mundo. Como ele mesmo declarou, “o cristianismo já não tem muita influência sobre 80% da população mundial”. Por outras palavras, o cristianismo não só se mostra incapaz de avançar, como está retrocedendo. Além disso, a maior parte dos cristãos já não frequentam as igrejas e a sua fé puramente nominal. Por sua vez, e esta é a maior preocupação que une estreitamente os Estados Unidos e o Vaticano, o Islão continua a crescer. Milhões de pessoas indefesas perante a globalização começam a ver na religião muçulmana um baluarte de esperança. Não se pode excluir a possibilidade de no futuro também aqueles que na América Latina tinham depositado as suas esperanças na teologia da libertação se voltem para o Islão, e é também esta possibilidade que se pretende travar com uma poderosa contra-ofensiva.

Mas a teologia blasfema e a perversa utilização da figura de Cristo perpetuadas pela Igreja Apostólica Romana e denunciadas por numerosos historiadores e investigadores (tal como essa parte sã da New Age que etiquetaram de “Obra de Lúcifer”) poderá assemelhar-se com sua? Não é casual estarmos a assistir a um fenómeno similar ao do Estados Unidos, os últimos e violentos safanões de um sistema que está a ponto de derrubar-se sob peso do descrédito. Parece lógico pensar que só uma Igreja diferente, que regressasse aos seus valores primordiais, a Igreja sonhada pelo papa Luciani, poderia recuperar consensos, deter a hemorragia de adeptos e sanear as fileiras do cristianismo. Mas esta é uma ideia que não pode surgir de quem despreza o homem e adora o poder, a ponto de estar disposto a ignorar a injustiça e a infelicidade sobre as quais se baseia. Bento XVI afirmou recentemente que “há épocas em que parece que o homem não existe”. Contemplando a Igreja de hoje, há que dar-lhe razão.

Como não denunciar esta situação? Por isso, certamente a denunciaram um grupo de prelados da Cúria Romana, os Milenários, com os dois panfletos mais ácidos escritos dentro do Vaticano (“Lo que viento se llevó en el Vaticano” e “Humo de Satanás en el Vaticano”, Ediciones Kaos), onde são descritas as lutas pelo poder entre clãs da Cúria e as misérias das “clientelas episcopais”. “Cada dia – dizem os autores – que Deus nos dá, quem trabalha na casa de Pedro vê de tudo, ouve de tudo, suporta tudo. Em muitos casos, a fé chega a vacilar sob os golpes de uma casta autoritária que confunde o exercício do poder temporal com a arbitrariedade e a impunidade… Invoca-se o silêncio para preservar o bom nome da Igreja, mas o silêncio que oculta o mal para evitar o escândalo pode converter-se em cumplicidade, e desde logo, a “omertᔠ[3] não faz parte dos ensinamentos de Cristo”.

Naturalmente, a Santa Sé, activando o tribunal da Rota Sagrada, tentou impedir a publicação destes livros. Felizmente não o conseguiu; em Itália vão já na décima edição e foram traduzidos em todo o mundo.

Notas do tradutor:
[1] Esta obra de investigação encontra-se editada desde 1985 pelas Edições Dom Quixote
[2] Marcinkus, norte-americano, dirigia naqueles anos o Banco do Vaticano, IOR, tendo aparecido envolvido em negócios de dinheiro sujo com os bancos de Sindona e Calvi.
[2] É a lei da máfia que impõe o silêncio aos seus membros fora da criminosa organização.

* Marina Minicuci é amiga e colaboradora de odiario.info.
Este texto foi uma comunicação ao Seminário

Tradução de José Paulo Gascão

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