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Obama go home,
e leva o Borbón contigo

Red Roja*    12.Jul.16    Outros autores

Crónica de um 10 de julho antifascista e anti-imperialista.

Domingo de Julho, com um calor sufocante e numa cidade ocupada pela polícia, o povo de Madrid escreveu uma importante jornada de dignidade.

A visita de Obama, logo após umas eleições gerais em que a guerra imperialista e a NATO pareciam ser de outro planeta – porque nem os da casta nem os da anti-casta as citaram – parecia se escrita exclusivamente pelas classes dominantes e os seus acólitos.

Não era fácil arriscar a convocação de uma manifestação sem as condições propícias, mesmo descontando o silêncio mediático e o vazio da esquerda institucional.

As Marchas pela Dignidade atreveram-se e fizeram-no convidando outras plataformas e organizações a organizarem-na conjuntamente. Deu-se aos que não fazem parte das Marchas a possibilidade – além de partilharem o comunicado, obviamente – de fazerem uma pequena intervenção naquelas condições.

Trabalhou-se muito e bem a propaganda, sem contar com a ajuda de ninguém para além da militância de companheiros nas redes sociais, rádios e webs alternativas. Distribuiram-se milhares de tarjetas, cartazes e autocolantes, fizeram-se pinturas em paredes e ruas. Tudo foi feito com a convicção de que só a presençana rua do «Obama Go Home», do NATO NÃO, FORA AS BASES e o resto das palavras de ordem constituia em si-mesmo um objetivo.

E o domingo dia 10 chegou. Um milhar de pessoas registadas uma a uma ao entrar numa cerca, rodeada de furgões, de blindados da polícia e de atiradores de elite da polícia em todos asvarandas, demonstraram que o medo não é um obstáculo quando – com tudo contra – se tem a consciência do que é o imperialismo e a vontade de o enfrentar.

Havia muita gente jovem e também veteranos e, sobretudo, uma recheada representação dos povos agredidos e que resistem, representados pela classe operária emigrante americana, africana, asiática, árabe e da Europa de Leste. Vivia-se o internacionalismo na sua expressão máxima: como classe operária única e com toda o peso de representar a luta heroica dos seus povos.

No comício intervieram representantes da organização republicana de ARCO-Costada, da Plataforma contra o TTIP, do PCE-ml, do PCP?E, da Coordenadora de Cuba, da Plataforma Bolivariana, da Plataforma 26 de Julho, de Classe contra Classe e de Não há tempo a Perder.

Em nome das Marchas da Dignidade apresentou o comício Victor Jimenez e o Manifesto foi lido por Viki Taibo e Nimes Maestro. Salientaram como a soberania subjugada e espezinhada pelos quatro líderes políticos que poucas horas depois prestavam vassalagem ao imperador e lhe asseguravam que – governasse quem governasse – os interesses dos EUA e do capital estariam a salvo, a soberania, diziamos, estava representada pelos que estavam em frente da Embaixada dos EUA e pelos que se manifestavam em Sevilha e em Rota [1].

Gritaram-se bem alto velhas e novas palavras-de-ordem. A melhor criação foi indubitavelmente: OBAMA GO HOME, E LEVA O BORBÓN CONTIGO.

As canções de «La Solfónica» e de Juan Anaya fizeram com que o sol da justiça parecesse mais fraco, porque contrastava com as nossas próprias vozes. Foi especialmente recordado Quintín Cabrera, querido camarada falecido, que compôs e cantou tantas vezes connosco «o que o ianqui necessita, é uma dose aumentada de xarope vietnamita». O «aprendemos a querer-te», em homenagem a Che Guevara ressoou com força renovada num ambiente que parecia de guerra, mas que recordava com propósito – hoje mais do que nunca – a resistência anti-imperialista.

Essa dignidade insubornável dos povos, que há 80 anos aprendiam em Madrid a pegar em armas para levantar as primeiras barricadas de resistência ao fascismo, e que teve o seu mais grandioso eco nas Brigadas Internacionais, não está morta. Revive em cada um de nós quando nos atrevemos a sair da impotência e das ilusões da institucionais, paar avançar na organização e nos preparamos, não só para gritar, mas para levar a cabo o «NÃO PASSARÃO».

Nota do tradutor:
[1] Base naval da NATO a norte da Baía de Cádiz, com pista de aviação, utilizada por barcos e aviões dos EUA, de Espanha e doutros países da NATO

* Organização política marxista no Estado espanhol.

Tradução de José Paulo Gascão

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