Obama, um Homem de Paz?
Não, apenas um prémio Nobel por engano

Robert Fisk*    25.Oct.09    Colaboradores

Robert FiskDepois de analisar a teia do Médio Oriente que Obama complicou, o autor interroga-se:
“Está o Sr. Obama com mais medo da retaliação do Irão? Ou das suas capacidades nucleares? Ou mais assustado com a possível agressão de Israel ao Irão?
Mas, por favor, nada de ataques a 10 de Dezembro. Essa é a data em que Barack Obama aparecerá em Oslo para levar ao bolso o seu Prémio Nobel, por feitos que ainda não alcançou e por sonhos que irão tornar-se pesadelos”.

A sua política no Médio Oriente está a ruir. Os israelitas arrasaram-no, ignorando o seu pedido pelo fim da construção de colonatos, continuando a construí-los em terra árabe. Disseram friamente ao seu enviado especial que uma paz israelo-árabe irá demorar «muitos anos». Agora ele quer que os palestinianos negoceiem a paz com Israel sem condições. Pressionou o líder palestiniano para deixar passar a oportunidade de escrutínio internacional do juiz das Nações Unidas Goldsmith, que condenou os crimes de guerra de Israel em Gaza, enquanto o seu Secretário de Estado Assistente afirmava que o relatório de Goldsmith continha «graves erros». Depois de ter quebrado a sua promessa pré-eleitoral de designar os massacres arménios de 1915 pela Turquia Otomana um genocídio, instou os arménios a assinar um tratado com a Turquia, mais uma vez «sem condições prévias». O seu exército ainda enfrenta uma revolta no Iraque. Ele não consegue decidir como ganhar a «sua» guerra no Afeganistão. Nem sequer mencionarei o Irão.

E agora o Presidente Barack Obama acaba de ganhar o Prémio Nobel da Paz. Depois de apenas oito meses de mandato. Nada mau. Não é de admirar que tenha dito que se sentiu «humilde» quando lhe deram a notícia. Devia ter-se sentido humilhado. Mas talvez a fragilidade fique bem a um vencedor do Prémio Nobel da Paz. Shimon Perez também ganhou um e nunca ganhou as eleições em Israel. Yasser Arafar ganhou-o. E vejam o que lhe aconteceu. Pela primeira vez na história o comité Nobel Norueguês atribuiu o seu prémio a um homem que nada conseguiu; na vaga esperança de que ele fará qualquer coisa de bom no futuro. Isto mostra até que ponto as coisas estão a correr mal. Mostra até que ponto o Médio Oriente se tornou explosivo.

Não há ninguém na Casa Branca que lembre ao Sr. Obama que os israelitas nunca fizeram favores a um presidente norte-americano que tivesse pedido o fim da construção de colonatos judeus (e apenas para judeus) em terra árabe? Bill Clinton pediu isto (escreveu-se nos acordos de Oslo) e os israelitas ignoraram-no. George W. Bush pediu o termo dos combates em Jenin há nove anos atrás. Os israelitas ignoraram-no. O Sr. Obama pede o fim absoluto da construção dos colonatos. «Eles pura e simplesmente não percebem, pois não»?, terá dito um ministro israelita (aparentemente o Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu) quando a Secretária de Estado norte-americana Hillary Clinton reiterou as palavras do seu presidente. Foi isso que Avigdor Lieberman, o lunático Ministro dos Estrangeiros israelita (não tão lunático como Mahmoud Ahmadinejad, mas aproxima-se) disse novamente na quinta-feira. «Quem quer que diga que é possível chegar nos próximos anos a um acordo global», afirmou, antes de se encontrar com o ignorante e idoso enviado George Mitchell, «…simplesmente não entende a realidade».

Por toda a Arábia, escusado será dizê-lo, os potentados árabes continuam a tremer de medo nos seus minaretes dourados. O grande jornalista libanês Samir Kassir (assassinado em 2005, muito provavelmente pelos novos companheiros sírios do Sr. Obama) disse-o apropriadamente num dos seus últimos ensaios. «Subestimado pelo Egipto desde a paz de Sadat», escreveu, «convicto do apoio infalível dos EUA, com impunidade moral garantida pela má consciência europeia e apoiado por um arsenal nuclear que foi adquirido com a ajuda das potências europeias e que continua a crescer sem nenhum comentário relevante por parte da comunidade internacional, Israel pode literalmente fazer o que quiser ou for levado a fazer pelas fantasias de dominação dos seus líderes».

Portanto Israel leva a sua avante como sempre, abusando do distinto responsável (que é também judeu) pelo inquérito das Nações Unidas sobre os crimes de guerra em Gaza (que também culpou o Hamas), juntando-se ao mesmo tempo aos EUA; e trazendo a desgraça à autoridade palestiniana, o «Presidente» Mahmoud Abbas, está mais interessado em manter as suas relações com Washington do que com seu próprio povo palestiniano. Até voltou atrás com o compromisso de recusar conversações de paz até que a termine a expansão colonial de Israel. Numa única afirmação devastadora, Rami Khouri, esse comentador jordano geralmente brando observou a semana passada que o Sr. Abbas é «um pateta sonso, superficial, politicamente impotente, que ninguém apoia nem respeita». Coloquei «Presidente» Abbas entre aspas porque ele agora detém o estatuto do Sr. Ahmadinejad aos olhos do seu povo. O Hamas está encantado. Graças ao Presidente Obama.

Estranhamente, o Sr. Obama também está a humilhar o presidente arménio Serg Sarkisian, insistindo para que ele dialogue com os seus adversários turcos sem condições. Na Cisjordânia, é preciso esquecer os colonatos judeus. Na Arménia, é preciso esquecer o assassínio pelos turcos de 1,5 milhões de arménios em 1915. O Sr. Obama recusou honrar a sua promessa pré-eleitoral de reconhecer o primeiro holocausto do século XX como genocídio. Se ele não consegue lidar com a I Guerra Mundial, como poderá lidar com a terceira?

O Sr. Obama anunciou o conflito no Afegasnitão como a guerra que os EUA tinham que travar (não aquela terra anárquica que o Sr. Bush imponderadamente invadiu). Esqueceu-se que o Afeganistão era outra das guerras de Bush; e até anunciou que o Paquistão era agora também uma guerra dos EUA. A Casa Branca criou o chavão «Afpak». E lá vieram os machos aos magotes através da velha linha Durand para matar os Talibã e uma legião de civis inocentes. Deverá o Sr. Obama concentrar-se na Al-Qaeda? Ou gritar para o General Stanley McChrystal uma ordem ao estilo do Vietname pedindo mais 40.000 tropas? A Casa Branca mostra-os sentados frente a frente, o Sr. Obama num fato charmoso, McChrystal no seu uniforme militar. O coelho e a lebre.

De modo nenhum vão ganhar. Os neo-conservadores dizem que «cemitério do Império» é um cliché. É. Mas também é verdade. O Governo Afegão é totalmente corrupto; os seus senhores da guerra (pagos por Karzai e pelos EUA) aumentam o tráfico de droga e o medo dos civis afegãos. Mas há mais para além disto.

A embaixada indiana foi novamente bombardeada na semana passada. Saberá o Sr. Obama porquê? Será que compreende que a decisão de Washington de apoiar a Índia contra o Paquistão no conflito de Caxemira (simbolizado pela nomeação de Richard Holbrooke como enviado no Afeganistão e no Paquistão mas sem permissão para discutir Kashmir) enfureceu o Paquistão. Ele pode querer que a Índia estabeleça o equilíbrio face ao poder da China (que expectativa) mas a inteligência militar do Paquistão compreende que a única maneira de persuadir o Sr. Obama a agir com justiça na disputa sobre Caxemira (reconhecendo as pretensões do Paquistão assim como as da Índia) é aumentar o seu apoio aos Talibã. Se não houver justiça em Caxemira, não haverá segurança para as tropas dos EUA ou para a embaixada indiana no Afeganistão.

Então, depois de atacar o Irão nas conversações de Genebra sobre a questão nuclear, o Presidente dos EUA percebeu que o gato tinha novamente as garras de fora no final da semana passada. Um comandante da Guarda Revolucionária, conselheiro do líder supremo Khamenei avisou que o Irão «rebentaria com o coração» de Israel se este ou os EUA atacassem a República Islâmica. Duvido. Rebentar Israel é rebentar a «Palestina». Os iranianos (que compreendem o Ocidente muito melhor do que nós os compreendemos a eles) têm outra política em caso de apocalipse. Se os israelitas atacarem, talvez não lhes respondam. Têm um plano, segundo me informaram, para se concentrarem antes nas tropas dos EUA no Iraque e no Afeganistão, e nas suas bases no Golfo e nos seus navios de guerra que atravessam Ormuz. Não responderiam aos Israelitas. Os EUA aprenderiam então o preço de se ajoelharem perante os seus senhores israelitas.

Porque os iranianos sabem que os EUA não têm estômago para uma terceira guerra no Médio Oriente. É por isso que o Sr. Obama tem enviado os seus generais em grande número para o ministério da defesa in Tel Aviv, para dizer aos israelitas para não atacar o Irão. É também por isso que os líderes de Israel (incluindo o Sr. Netanyahu) fumaram durante toda a semana o cachimbo da paz falando da necessidade de negociações internacionais com o Irão. Mas isto levanta uma questão importante. Está o Sr. Obama com mais medo da retaliação do Irão? Ou das suas capacidades nucleares? Ou mais assustado com a possível agressão de Israel ao Irão?

Mas, por favor, nada de ataques a 10 de Dezembro. Essa é a data em que Barack Obama aparecerá em Oslo para levar ao bolso o seu Prémio Nobel, por feitos que ainda não alcançou e por sonhos que irão tornar-se pesadelos.

* Jornalista correspondente do jornal The Independent no Médio Oriente

Este texto foi publicado em The Independent

Tradução: André Rodrigues P. Silva

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