OPCW*

Jorge Cadima    06.Ene.20    Outros autores

Os EUA/NATO/EU não suportam que seja quem for – organização internacional ou personalidade individual – ponha em causa as falsidades com que pretendem justificar sucessivas agressões militares. Cientistas da OPAQ (OPCW) que questionaram essa manipulação foram ameaçados. Jornalistas saíram dos órgãos em que trabalhavam. E Julian Assange está a ser lentamente assassinado na cela da prisão.

Peritos da Organização para a Proibição das Armas Químicas (OPAQ, ou OPCW na sigla inglesa) estão em revolta contra a manipulação e mentira que visa submeter a organização internacional ao belicismo imperialista.

Em Abril de 2018 uma das campanhas mediáticas que antecedem as operações militares dos EUA/NATO/UE acusava o governo sírio de usar armas químicas em Douma. Um video mostrava crianças, supostamente vítimas, a serem encharcadas com água por Capacetes Brancos. A foto dum cilindro em cima duma cama numa casa bombardeadea seria a prova. EUA, França e GB lançaram mais de 100 mísseis sobre a Síria, ainda antes dum relatório da OPAQ falar em cloro no local do alegado ataque.

Mas cientistas da OPAQ divulgaram pela Wikileaks documentos provando que o relatório oficial não foi escrito pela equipa de peritos que visitou o local do suposto ataque e «não reflecte as suas opiniões». Um memorando refere que «cerca de 20 inspectores expressaram a sua preocupação sobre a situação», adiantando que «o relatório da FFM [Missão de Apuramento dos Factos] não reflecte as opiniões de todos os membros da equipa que visitou Douma. Apenas um membro [do grupo que escreveu o relatório final] esteve em Douma». Particular revolta provocou o falso desmentido de que o inspector Ian Henderson tinha estado em Douma.

Henderson foi suspenso e expulso à força da sede da OPAQ. Após visitar Douma, tinha escrito que era inexplicável que o cilindro que alegadamente foi lançado dum helicóptero e atravessou um tecto em cimento armado, pudesse estar intacto em cima da cama onde foi fotografado. Foram também questionadas as imagens do hospital, lançando a suspeita duma encenação. O relatório final escondeu a informação de que o cloro encontrado era residual.

Já o primeiro chefe da OPAQ, o brasileiro Bustani, enfrentou o gangsterismo imperialista. Segundo contou à RT (7.4.18), o futuro Director de Segurança Nacional dos EUA, Bolton, visitou a sede da OPAQ antes da invasão do Iraque, dando-lhe um ultimato de 24 horas para se demitir. Face à recusa de Bustani, Bolton imitou Al Capone: «OK, haverá represálias. Prepare-se para aceitar as consequências. Sabemos onde estão os seus filhos». Segundo Bustani, o Iraque já não tinha armas químicas, mas os EUA «já tinham planos para […] acções militares».

Com raríssimas excepções, a comunicação social de regime não noticia a revolta na OPAQ. O jornalista Tareq Haddad conta como foi censurado pela Newsweek. Para não ter de calar-se ou mentir, optou por despedir-se (tareqhaddad.com, 14.12.19). Julian Assange, o fundador da Wikileaks, está preso em Londres, aguardando sentença sobre a sua extradição para as masmorras dos EUA. O Relator Especial da ONU sobre Tortura, Nils Melzer, considerou que Assange está a ser sujeito a torturas psicológicas (RT, 16.10.19). O ex-Embaixador britânico Craig Murray, após assistir a uma das sessões judiciais, manifestou-se «profundamente abalado» pelo estado físico e psíquico de Assange, receando «que possa não chegar vivo ao fim do processo de extradição» (craigmurray.org.uk, 22.10.19).

Querem calar quem desmascara a mentira para poderem cometer crimes com impunidade.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2404, 3.01.2020

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