Orhan Pamuk: Na fronteira da genialidade

Os livros de Orhan Pamuk estão hoje traduzidos em 60 línguas. Adversário de sucessivos governos ditatoriais ou de fachada democrática, nunca foi perseguido pelo poder. Os generais e os políticos temiam hostilizar um escritor cujas obras eram sempre best-seller na Turquia e no mundo.

Ler Orhan Pamuk arrasta-me de surpresa em surpresa para uma Turquia que me faz espetador de um painel de pessoas que, sendo turcas, surgem como mostruário da aventura humana.

Li em Istambul em 2010 pela primeira vez um romance seu: Istambul, Memórias de uma Cidade.*

Conhecera a milenária Constantinopla há mais de meio século. E o choque foi enorme. Pamuk revelou-me uma cidade desconhecida, enfeitiçante.

Em 1953 estivera ali três dias. Mas fora uma visita de turista; escrevi então banalidades sobre a cidade.

Ao voltar na transição de 2010 para 2011 festejei o novo ano num pequeno hotel do bairro de Sultanhamet. Na bagagem incluíra o romance que, recordo, levava na mão nos meus passeios pela cidade, para reler alguns capítulos.

Uma Estranheza em mim é o último livro de Orhan Pahmuk, lançado em Portugal**. O título é enigmático, mas o conteúdo força o leitor permanentemente a uma concentração dolorosa.

O romance começa com o relato do rapto de Rayiha por Mevlut em l982 e termina com uma perambulação noturna de Mevlut em 2012 por ruas de Istambul. Nesse espaço de trinta anos a população aumentou de 3 milhões para 10 milhões. Hoje tem mais de 15 milhões.

Em 1953 quando por ali passei, Istambul era uma cidade semeada de ruinas maravilhosas e de monumentos deslumbrantes. No casco histórico a maioria das casas era de madeira. Teria no máximo um milhão de habitantes. Passei horas em Santa Sofia e nas grandes mesquitas imperiais. A herança de Ataturk, que evitara o esfacelamento da Turquia era identificável em muitos aspetos da modernização. Na cidade nova a maioria das mulheres não usava o lenço na cabeça. Nas grandes naves das mesquitas vi pouca gente. As raízes da laicização estavam, na aparência, a penetrar fundo.

Mas pelas ruelas poeirentas da cidade antiga ainda caminhavam camelos pachorrentos. A atmosfera aí era asiática.

MEVLUT E O AMOR

A cronologia de Uma Estranheza em Mim é desarrumada, confunde o leitor pelo vaivém.

Depois do primeiro capítulo, sobre o rapto da futura mulher, Pamuk dedica o segundo ao assalto a Mevlut em 1994, quando vendia boza***numa rua escura.
No terceiro, a personagem está ainda na aldeia natal, em 1968,e a cronologia normaliza-se.

Pamuk conta com vagares a vida de Mevlut, então um menino de doze anos que foi viver com o pai em 1969 em Istambul numa casota de madeira de quarto único num bairro degradado dos subúrbios da grande cidade.

Registei que na minha primeira vista a Istambul, 15 anos antes, atravessei bairros pobres mas não me apercebi da existência de bairros degradados. Essa cintura de imundas habitações formou-se com as migrações galopantes de camponeses da Anatólia e das províncias curdas do sudeste.

O tema de muitas páginas do livro é o amor de Mevlut por Rayiha.

Ele, durante a festa de um casamento, viu uma jovem de uma beleza quase irreal. Aquilo que sentiu evoluiu para paixão absorvente. Era uma de três irmãs da sua aldeia. Um primo disse-lhe que ela se chamava Rayiha, e, com a ajuda de um amigo, Mevlut escreveu-lhe cartas de amor tempestuosas. Rayiha não respondeu, mas gostou muito. Ele acabou por raptá-la com consentimento e alegria dela. Somente na longa viagem para Istambul percebeu que o primo o enganara. Rayiha era a irmã da moça que o enfeitiçara; muito menos bela.

Mevlut concluiu mais tarde que a troca o favorecera. Amou Rayiha como não imaginara ser possível amar alguém. Não cumpria as orações rituais. Mas respeitou a tradição que vinha da época otomana; somente fizeram amor depois de casados segundo o rito muçulmano. Eram virgens.

O sexo assumiu para ambos uma importância e significado enormes. Mas nem ele nem ela o comentavam. Pamuk é mais do que discreto nas referências ao encontro dos corpos de Mevlut e Rayiha.

Pensei em páginas do Adeus às Armas, quando Hemingway descreve a descoberta do amor por Jordan e Maria sob as estrelas de uma noite límpida. Ela fazia sexo pela primeira vez e viveu a eterna ilusão de que ninguém antes sentira aquilo que ela sentia e a inundava de felicidade e prazer.

Recordei também a evocação por Volodia Teitelboim numa noite do fim de ano nas ruas de Santigo deserta, procurando um hotel que o recebesse e à jovem que seria a sua futura companheira. É um texto maravilhoso sobre o amor. Volodia é para mim o escritor que mais textos importantes escreveu sobre mulheres que amam e deixam de amar.

Pamuk difere do americano e do chileno pelo pudor com que aborda o tema do sexo.

Nesse como noutros capítulos apercebi-me de que a rapidez da ocidentalização não apagou tradições, modos de pensar e agir dos turcos do interior da Ásia Menor, profundamente marcados pelo Islão. Coexistem em conflito permanente. O atual presidente Erdogan e o seu partido são mostruário dessa realidade.

A METAMORFOSE DE ISTAMBUL

Nascido numa família abastada da burguesia de Istambul, Orhan Pamuk teve uma educação de elite. Fez o secundário num colégio americano e na universidade estudou arquitetura e jornalismo. Mas não exerceu essas profissões. Muito jovem ainda decidiu dedicar se integralmente à literatura
Os seus livros estão hoje traduzidos em 60 línguas. Adversário de sucessivos governos ditatoriais ou de fachada democrática, nunca foi perseguido pelo poder. Os generais e os políticos temiam hostilizar um escritor cujas obras eram sempre best-seller na Turquia e no mundo.

Críticos que cultivam chavões afirmam que foi um pós-modernista. É um disparate. Os livros de Pamuk, como os de Joyce ou Kafka, não cabem em escolas literárias.

De comum entre esses três gigantes da literatura somente a fidelidade obsessiva à minucia na descrição de pormenores que têm a aparência de irrelevantes.
Em Uma Estranheza em Mim, uma elevada percentagem das mais de 600 páginas é ocupada por Istambul como personagem, mais exatamente pelas metamorfoses de uma cidade em ininterrupta e alucinante transformação.

Todas as grandes cidades, quando sobrevivem, se transformam.

Mas em Istambul o fenómeno da mudança, desde a metrópole greco-romana fundada por Constantino no seculo IV da nossa era até a megalópolis turca da atualidade, apresenta características irrepetíveis que não a despojaram do seu poder encantatório.

O complexo entrançado entre a cidade mutante, os migrantes que a ela chegam da Turquia profunda, a pobreza desses aldeões, o peso do cenário urbano no seu comportamento, a fauna de aventureiros mafiosos que os envolve, a influencia da aventura politica, a vida quotidiana das mulheres, o choque permanente entre a tradição e a religião na Istambul que entra pelo seculo XXI modelada por um capitalismo selvagem - obrigam o leitor a viajar por um romance que fascina mas também é doloroso, deprime.

Mevlut não escapa aos efeitos do terramoto transformador.

Muda igualmente. O homem que se aproxima dos 60 difere muito do menino que ao chegar se instalou com o pai num casebre desconjuntado, fétido. Vendiam então nas ruas iogurte e boza.

Em 2012 reside num arranha-céus de 12 andares, implantado num bairro que durante décadas integrava a cintura de favelas.

Muda mesmo na maneira de amar. Tem uma nova companheira, a mulher a quem escrevia as cartas em que fervia a paixão.

A nova Istambul, «poderosa, indomada, assustadoramente real» é terrível e deslumbrante». Amedronta-o. Talvez por isso continua a vender boza,à noite, em ruas mal iluminadas.

Está consciente de que somente não mudou na fidelidade ao amor pela companheira morta aos 30 anos após um aborto caseiro.

«Eu amei Rayiha mais da qualquer outra coisa neste mundo».

São as palavras que fecham este romance inesquecível. Dele escreveu Umberto Eco: «A loucura de Pamuk contém uma genialidade única».

*Orhan Pamuk, Istambul, Memórias de uma Cidade, Editorial Presença, 365 páginas, Lisboa 2008
**Orhan Pamuk, Uma Estranheza em Mim, Editorial Presença, 635 páginas, Lisboa 2016.
*** Bebida tradicional turca, levemente alcoólica, com grão-de-bico e trigo torrados, canela e água. É vendida nas ruas por ambulantes.

Vila Nova de Gaia, Outubro de 2016

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