Os antissionistas são antissemitas disfarçados?

ABP / UPJB    02.Mar.19    Outros autores

O sionismo e seus aliados têm em andamento uma campanha internacional no sentido de fazer equivaler antisionismo e antissemitismo. No Labour inglês, por exemplo, a ofensiva prossegue apesar da capitulação de Corbyn. A questão não diz apenas respeito ao martirizado povo palestino e à situação no Médio Oriente. O Estado sionista de Israel desempenha hoje uma intervenção muito alargada na ofensiva imperialista em curso, como é visível nomeadamente na América Latina.

Os velhos preconceitos antissemitas do tipo “os Judeus são poderosos”, ou ainda que “dominam os media e as finanças e, portanto, controlam o mundo”, são ainda relevantes? Sim. Ainda são mortos Judeus por serem judeus? Sim. O antissemitismo está em recrudescimento? Sem dúvida, como muitas outras formas de racismo visando minorias, em todo o mundo. Esse recrudescimento é parcialmente explicado pela deterioração do conflito israelo-palestino? Certamente.

Mas como explicar isso?

Os dirigentes do Estado de Israel apresentam-se como os representantes políticos dos Judeus de todo o mundo aos quais é exigido apoiar “o seu” Estado, quaisquer que sejam as suas escolhas políticas. Para estes e seus apoiantes em todo o mundo apenas ligeiras críticas podem ser aceites. Mas não o questionar a fundamento sionista deste Estado, isto é, o facto de que ele deve ser considerado como “Estado judeu”. O que implica necessariamente a discriminação de seus cidadãos não-judeus, que constituem pelo menos 20% de sua população. Sem falar nos mais de 4 milhões e meio de habitantes não-judeus dos territórios ocupados e colonizados por este Estado há 51 anos (!) que não gozam da cidadania israelita e são, portanto, privados de todos os direitos que a cidadania confere, nem a negação dos direitos de milhões de exilados e seus descendentes, ainda que reconhecidos pelo direito internacional.

Para os defensores de Israel enquanto “Estado judeu” (dito de outra forma, sionistas), exigir direitos iguais para todos os habitantes que vivem sob a dominação israelita e, portanto, o fim das discriminações entre judeus e não-judeus reveste-se de “anti sionismo radical”, que eles igualam ao antissemitismo.

Deve ser lembrado, no entanto, que o sionismo permaneceu por muito tempo uma ideologia muito minoritária entre os Judeus europeus e quase ignorada pelas comunidades judaicas não-europeias. Foi somente após a Segunda Guerra Mundial que a maioria dos Judeus europeus, traumatizados pelo judaicídio, aderiram ao projecto sionista. Mas ainda hoje, por razões políticas e/ou religiosas, muitos Judeus recusam qualquer lealdade ao “Estado judeu”. Muitos deles afirmam-se até antissionistas porque recusam que um Estado discrimine severamente em seu nome milhões de pessoas.

Mas os dirigentes israelitas e seus apoios exteriores, defensores de Israel como um “Estado judeu”, fazem de tudo para que a opinião pública acredite que todos ou quase todos os Judeus do mundo apoiam o “seu” Estado. Judeus antissionistas são sistematicamente denegridos, tratados como “ultraminoritários”, “traidores” e/ou “pessoas mentalmente doentes animadas pelo ódio a si mesmos” e/ou “Judeus abandonando a sua condição” ou mesmo “falsos Judeus”.

Neste contexto, entender-se-á que muitas pessoas, vítimas da propaganda sionista, estejam convencidas de que todos os Judeus apoiam o “seu” Estado. Alguns pensam até que todos os Judeus do mundo têm cidadania israelita além da do Estado em que vivem. Além disso, o Estado de Israel apropriou-se, colocando-o na sua bandeira, o Maguen David (”Escudo de David”, mais comumente chamado de “Estrela de David”), um símbolo judeu [], bem anterior ao nascimento do projecto político sionista. Isso contribui ainda mais para aumentar a confusão entre judaísmo e sionismo.

Alguns dos onze “exemplos” que acompanham a definição de antissemitismo da Aliança Internacional de Recordação do Holocausto (International Holocaust Remembrance Alliance - IHRA), que o governo israelita e as organizações sionistas se empenham em fazer adoptar pelas mais altas instâncias mundiais, aumentam a confusão. Exemplos: “negar ao povo judeu o seu direito à autodeterminação, por exemplo alegando que o Estado de Israel é um Estado racista” ou “a comparação gráfica da política israelita contemporânea aos actos nazis”.

Como combater o antissemitismo?

Para combater eficazmente o antissemitismo, é necessário estabelecer uma distinção clara entre judaísmo e sionismo, bem como entre antissemitismo e anti-sionismo. Porque a confusão entre essas noções reforça preconceitos em relação aos Judeus. Não só o de que todos os Judeus teriam nacionalidade israelita e apoiariam as escolhas políticas dos governos israelitas, mas também o de que os Judeus seriam poderosos e secretamente organizados a ponto de impor a sua vontade aos grandes do mundo. O relativo sucesso deste último é explicado pela impunidade de que o pretenso “Estado dos Judeus” goza há tanto tempo. Com base no sentimento de culpa dos europeus relativamente ao judeocídio que a Europa não deteve e, mais recentemente, sobre o medo do “islamismo” que prevalece no nosso continente, o movimento sionista conseguiu efectivamente impor na opinião pública ocidental a ideia da legitimidade da existência do Estado de Israel enquanto Estado judeu, apesar das enormes discriminações que daí resultam para os habitantes não-judeus da Palestina-Israel. Daí decorre que, desde a sua criação, Israel beneficia de uma culposa indulgência por parte dos dirigentes ocidentais relativamente às suas inúmeras violações das decisões da ONU e do direito internacional à custa dos palestinos. O que faz com que, para aqueles que são permeáveis à teoria racista da “conspiração judaica internacional”, o mundo ocidental possa parecer “submetido aos Judeus”.

Nenhum lobby pró-Israel?

Afirmar, como faz Marie-Cécile Royen (p.31), que “não há lobby israelita em actividade” é uma mentira flagrante. Qualquer pessoa minimamente informada sabe hoje quão poderosos são os lobbies que apoiam o Estado de Israel, seja qual for a política que ele conduz, particularmente nos Estados Unidos [], mas também na Europa [].

Os defensores do boicote a Israel são antissemitas?

Nesta matéria, Joel Kotek lança a suspeita de antissemitismo sobre os que apoiam a campanha cidadã BDS (Boicote Desinvestimento Sanções) iniciado em 2005 por 171 organizações palestinas para forçar Israel a respeitar finalmente o direito internacional. Esta campanha cidadã não-violenta foi lançada depois de 57 anos de negação dos direitos dos exilados palestinos, 57 anos de grave discriminação contra os cidadãos palestinos de Israel e 38 anos de ocupação e colonização dos territórios conquistados pelo exército israelita. E depois da recusa do Estado de Israel de desmantelar o “muro de separação” construído na

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NB: este velho símbolo foi desde há muito utilizado por numerosos outros grupos humanos.

Ver. MEARSHEIMER, J.J. e WALT, S.M., Le lobby pro-israélien et la politique étrangère américaine, La Découverte, 2009 e BELIN, C., Jésus est juif en Amérique. Droite évangélique et lobbies chrétiens pro-Israël, Fayard, 2011.

Ver. por exemplo CRONIN, D., Europe – Israël. Une alliance contre nature, La Guillotine, 2012.

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