Os ausentes*

Gustavo Carneiro    18.Sep.20    Outros autores

Na redoma em que o BE vive será em Setembro que “regressam as lutas”. Não deu conta das muitas acções de luta que se verificaram ao longo destes meses. Mas, pior ainda, naqueles que foram dos meses mais duros de que há memória em termos de ataque aos direitos laborais e sociais, o BE optou por dar para o peditório dos que queriam ver confinada a luta, aprovando o estado de emergência (que limitou e suspendeu os direitos à greve e à resistência) e criticando abertamente a CGTP-IN pelas comemorações do 1.º de Maio.

«Setembro marca o regresso das lutas e a busca por alternativas para vencer a crise»: quem o afirma é o Bloco de Esquerda, na convocatória para uma iniciativa pública realizada no passado fim-de-semana, no Porto. Por esclarecer fica se o dito regresso é após um confinamento de meses ou simplesmente depois das férias estivais, mas para o caso pouco importa: só regressa o que alguma vez partiu e a luta, essa, sempre aí esteve. Sem o BE e, muitas vezes, apesar dele.

Só quem tenha andado muito distraído pode não ter compreendido que o grande capital viu no surto epidémico de COVID-19 uma excelente oportunidade para intensificar a exploração, centralizar a riqueza, sacar apoios públicos e, de caminho, semear o medo (haverá sentimento mais paralisante?). E que aproveitou – e cavalgou – legítimos receios e instigadas confusões para impor despedimentos, cortes de salários, alterações de horários e férias forçadas, em muitos casos após ter distribuído milhões em dividendos aos accionistas. 800 mil trabalhadores (dados do final de Maio) viram o seu salário cortado por via do lay off simplificado, a grande bandeira do Governo para, dizia-se, salvar a economia e o emprego. Dos beneficiários deste expediente, 54% eram grandes empresas e só 7,4% pequenas.

Só a quem não estiver todos os dias junto dos trabalhadores poderão ter passado ao lado as marchas realizadas em Sines, Setúbal e Évora; as greves nos CTT, no SUCH, no Pingo Doce, no Lidl e no Dia, na Coca Cola, nas minas da Panasqueira, na Super Bock, na Covibus, na Lauak, na Euroresinas, no Complexo Industrial de Sines; as concentrações dos trabalhadores dos transportes, da hotelaria e restauração, da Administração Pública, da RTP Porto, dos artistas e trabalhadores da cultura; a acção sindical junto à Sonae da Azambuja, em defesa da saúde dos trabalhadores.

Não fosse aquela infeliz afirmação coerente com a prática e podíamos estar perante um lamentável (mas ainda assim desculpável) lapso de linguagem. Mas não é disso que se trata: naqueles que foram dos meses mais duros de que há memória em termos de ataque aos direitos laborais e sociais, o BE optou por dar para o peditório dos que queriam ver confinada a luta, aprovando o estado de emergência (que limitou e suspendeu os direitos à greve e à resistência) e criticando abertamente a CGTP-IN pelas comemorações do 1.º de Maio, juntando-se assim – conscientemente ou não – aos sectores mais reaccionários da sociedade.

De pouco lhe vale, agora, louvar o regresso das lutas. É que ser verdadeiramente contra o medo implica coragem, que não teve quando se tratou de defender o emprego e os direitos.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2442, 17.09.2020

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