Os efeitos nocivos dos “Antifa” nos EUA

Diana Johnstone    18.Nov.17    Outros autores

Este texto dá conta de um movimento recente nos EUA pouco conhecido entre nós: o Antifa. A autora (de quem foi recentemente publicado o livro «Rainha do caos», sobre Hillary Clinton) tem suficiente experiência política para saber do que fala. E, para além do que fala, o que se lê nas entrelinhas é a alarmante situação de boa parte do progressismo americano, ideológica e politicamente à deriva.

Está em vias de ser desperdiçada uma ocasião histórica. A desastrosa eleição presidencial de 2016 (nos EUA) poderia e deveria ter provocado um despertar. Um sistema político que oferece aos eleitores a escolha entre dois candidatos horríveis não é democracia.
Isso poderia ter constituído o sinal para encarar a realidade. O sistema político norte-americano é redondamente apodrecido, despreza a população, está ao serviço das empresas e dos grupos de pressão que pagam para os manter no poder. Tinha chegado o momento de organizar uma verdadeira alternativa, um movimento independente para libertar o sistema eleitoral das garras dos milionários, para exigir um transição de uma economia de guerra para uma economia voltada para melhorar a vida das pessoas. O que faz falta é um movimento de pacificação dos EUA, aqui e no estrangeiro.

É um trabalho de vulto. Mas esta abordagem poderia beneficiar de um amplo apoio, sobretudo se uma juventude vigorosa se organizasse para estimular o debate popular, entre as pessoas reais e vivas, de porta a porta se necessário, criando assim um movimento de massa a favor de uma democracia, de uma igualdade e de uma paz autênticas. É um programa tão revolucionário quanto é possível nas condições actuais. Uma esquerda moribunda deveria reviver para tomar a iniciativa de construir um tal movimento.
O que sucede é precisamente o contrário.

Provocar uma nova guerra civil?

O primeiro passo para impedir um tal movimento construtivo foi a falsa interpretação, massivamente promovida pelos media, do sentido da vitória de Trump. Tratou-se essencialmente do alibi do clã Clinton para explicar a derrota de Hillary. Segundo eles, a vitória de Trump é o fruto de uma convergência entre a ingerência russa e os votos dos “misóginos, racistas, homofóbicos, xenófobos e suprematistas brancos”. A influência de toda esta má gente significou o ascenso do “fascismo” nos EUA, com Trump desempenhando o papel de potencial “ditador fascista”.

Deste modo, a crítica do sistema que produziu Trump sumiu-se em favor da diabolização do indivíduo Trump, tornado assim mais fácil aos Clintonianos consolidar o seu controlo sobre o Partido Democrata, enquanto a sua própria oposição de esquerda se insurgia contra o espectro do fascismo. Em muito pouco tempo, o movimento Antifa emergiu como a vanguarda de um a “resistência” contra uma imaginária maré fascista inspirada por Donald Trump.

Esta resistência marcou os seus primeiros pontos gerando incidentes com o objectivo de impedir personalidades de direita de intervir na universidade de Califórnia em Berkeley. Depois o Antifa conheceu a sua hora de glória a 12 de Agosto em Charlottesville, sede da universidade de Virgínia, por ocasião dos motins entre os que se opunham ao desmantelamento de uma estátua de Robert E. Lee (o general que comandava as forças do Sul na guerra da Secessão) e os que o exigiam em nome do anti-racismo. O drama de Charlottesville tinha todos os ingredientes de provocação, com a vinda do Ku Klux Klan e de nazis carnavalescos, oferecendo aos Antifa um palco para ganharem importância nacional enquanto salvadores. Uma semana mais tarde foi publicado um livro de um jovem universitário, Mark Bray, « Antifa : the Handbook of Antifascism ». Esta obra anarquista, abertamente favorável ao recurso à força para calar «os fascistas», não tardou a obter recensões muito favoráveis por parte dos grandes media, que habitualmente nem sequer fazem menção das obras oriundas da esquerda radical.

Facto significativo, os motins de Charlottesville deram lugar a que Trump dissesse que havia «boa gente» dos dois lados, o que foi aproveitado pelo coro dos seus inimigos para o tratar de “racista” e “fascista”. É assim oferecida à desorientada “esquerda” uma causa clara: combater “o fascista Trump” e os “fascistas” que o apoiam. É mais simples do que organizar-se para exigir que Washington ponha fim às ameaças contra o Irão e a Coreia do Norte, ponha fim ao seu projecto de remodelar o Médio-Oriente para garantir o domínio regional de Israel, e que retire o dispositivo nuclear visando a Rússia. Para não falar do apoio aos verdadeiros nazis na Ucrânia. Portanto, esta política de militarização mundial contribui muito mais para a violência e a injustiça, incluindo nos EUA, do que os resíduos de causas definitivamente perdidas e desacreditadas.

A esquerda e os Antifa

A esquerda social e anti-guerra foi sistematicamente enfraquecida e marginalizada depois da tomada do poder no Partido democrata pelos Clintonianos, que redefiniu «a esquerda» como um clientelismo favorecendo as mulheres e as minorias. A esquerda clintoniana substituiu o objectivo progressista da igualdade económica e social pela política identitária, cooptando ostensivamente as mulheres e os negros para a elite visível, para melhor ignorar as necessidades da maioria. A esquerda clintoniana introduziu o conceito de “guerra humanitária” para valorizar a implacável destruição de nações recalcitrantes que levou a cabo, seduzindo uma grande parte da esquerda e levando-a a apoiar o imperialismo norte-americano como uma luta pela democracia contra os “ditadores”. O discurso de esquerda tornou-se, cada vez mais, a cobertura do partido da guerra nos EUA. Isto provocou uma tal confusão que já não se sabe muito bem o que é que significa “esquerda”.

Os Antifa contribuem para esta confusão dando prioridade à supressão das “más” ideias, ideias que são igualmente condenadas pelo establishment. Com efeito, os ataques antifa contra os «politicamente incorrectos» tendem a impor a doutrina neoliberal dominante, que evoca igualmente o espectro do fascismo como pretexto para a agressão contra os «ditadores». Os antifa parecem-se cada vez mais com os activistas das «revoluções coloridas» apoiadas pelos EUA para derrubar os regimes de países seleccionados para «mudanças de regime».

Os pretextos dos Antifa

Figuras da esquerda tradicional, como Noam Chomsky e Chris Hedges, insistem em que o recurso à violência é contraproducente e tende e favorecer precisamente as correntes de direita. Os apologistas dos Antifa respondem sobretudo com os argumentos seguintes:
1. A violência é justificada pela violência implícita atribuída aos “racistas” e “fascistas” que, se não forem detidos desde logo, acabariam por exterminar grupos populacionais inteiros.
Isto é manifestamente falso, porque o Antifa são notoriamente generosos na distribuição da etiqueta fascista. Os publicistas que esses militantes impediram de falar em Berkeley, por exemplo o provocador gay Milo Yiannopoulos e a ultra-conservadora Ann Coulter, não advogam a violência e muito menos o genocídio.

2. Os Antifa dedicam-se a outras actividades políticas.
O alibi é completamente despropositado. Ninguém critica essas “outras actividades políticas”. O alvo das críticas é o recurso à intimidação para impedir a livre expressão dos seus adversários – marca distintiva do Antifa -. Eles que abandonem essa prática e prossigam as suas outras actividades, e ninguém se oporá a isso.

3. Os Antifa defendem as comunidades ameaçadas.

Não é certamente isso tudo o que eles fazem. E também não é a isso que os seus críticos se opõem. A defesa real de uma comunidade seriamente ameaçada é tarefa dos dirigentes respeitados da própria comunidade, e não de Zorros autoproclamados que chegam mascarados. O problema reside na definição dos termos. Para os Antifa, a comunidade das vítimas pode ser uma categoria de pessoas, como os LGBTQI, e a ameaça pode ser um conferencista controverso susceptível de produzir uma observação que os feriria. E que comunidade estava a ser defendida por Linwood Kaine, filho mais novo do senador Tim Kaine, candidato democrata à vice-presidência ao lado de Hillary Clinton, quando foi detido em St Paul, Minnesota no passado dia 4 de Março, apanhado em flagrante delito de motim de segundo grau por ter tentado dispersar pela força uma concentração pró-Trump? Embora Kaine, vestido de negro da cabeça aos pés, tenha resistido à prisão, a coisa ficou por ali. Que comunidade oprimida defendia o jovem Kaine, se se excluir o círculo de Clinton? Os seus próprios privilégios enquanto membro de uma família da elite política de Washington?
4. Os Antifa pretendem ser a favor da liberdade de expressão em geral, mas que os racistas e os fascistas são excepção, porque não se pode discutir com eles, e que o discurso do ódio não é um discurso mas uma acção.

Isto equivale a uma assombrosa capitulação intelectual face ao inimigo, à constatação da incapacidade de vencer um debate aberto. O facto é que as palavras são palavras, e deveriam ser contrariadas com palavras. Deveríamos regozijar-nos por ter ocasião de debater em público de forma a poder evidenciar as debilidades da sua posição. Se efectivamente não é possível debater com eles, cabe a eles mostrá-lo recusando o debate, que assim teremos mralmente vencido. Caso contrário, estamos a dar-lhes essa vitória de presente.

5. Os Antifa insistem em que a liberdade de expressão garantida pela onstituição dos EUA apenas se aplica ao Estado. Dito de outra forma, apenas ao governo é vedado privar os cidadãos do direito à liberdade de expressão e de reunião. Aos cidadãos, tudo é permitido.
Trata-se de um notável sofisma. A intimidação e a ameaça são aceitáveis se forem efectuadas por um grupo não oficial. Os Antifa, segundo uma pura tradição neoliberal, querem privatizar a censura ideológica assumindo eles o encargo.

Violência verbal

A violência verbal dos Antifa é pior que a sua violência física na medida em que é mais eficaz. A violência física tem em geral consequências menores, quando muito impedindo temporariamente qualquer coisa que acabará por se realizar mais adiante. A violência verbal tem maior sucesso em impedir a livre discussão de questões controversas.

Persuadida do papel nocivo de Antifa, e alarmada pela proliferação de artigos pró-Antifa no sítio CounterPunch, que se diz a verdadeira voz da esquerda, ousei escrever uma crítica, «Antifa na teoria e na prática». O resultado foi uma torrente de vitupérios na página facebook de CounterPunch, bem como um certo número de mensagens hostis de correio electrónico, incluindo da parte de Yoav Litvin, o campeão dos artigos pró-Antifa em CounterPunch, mas que eu não tinha nomeado. E culminou com um ataque pessoal publicado em CounterPunch por um certo Amitai Ben-Abba. Registemos que Litvin e Bem-Abba são israelitas mas pró-palestinos, os que lhes confere impecáveis referências de esquerda.

Estas reacções proporcionaram uma ilustração perfeita das técnicas de discussão dos Antifa. Trata-se de uma espécie de batalha em que se atira tudo o que se pode contra o adversário, seja qual for a lógica ou a pertinência daquilo que se atira. Litvin, na página de facebook, na base dos meus objectivos artigos sobre a política francesa, acusou-me de “militar a favor de Marine Le Pen”. A despropósito e inexacto.

No seu artigo, Ben-Abba introduziu esta afirmação totalmente alheia ao assunto: «Tal como no início dos anos 2000 o seu desmentido pseudo-histórico do massacre de Srebrenica contribuiu para encorajar os nacionalistas sérvios, a sua análise actual pode encorajar os suprematistas brancos». Será necessário sublinhar que nunca neguei o “massacre”, mas que recuso qualificá-lo de “genocídio”, e que os nacionalistas sérvios nunca tiveram necessidade da minha humilde opinião para se sentirem “encorajados”, tanto mais que nessa altura a guerra já tinha terminado?

Admiti de boa vontade que algumas questões levantadas no meu artigo inicial merecem ser debatidas, como a emigração e a questão de saber se o “fascismo” do início do séc. XX existe ainda nos dias de hoje. Admitir isto sugere que somos racistas e portanto cúmplices dos fascistas. Ben-Abba responde com uma pirueta: «Antifa…proporciona às pessoas indocumentadas (como o padeiro migrante sem-papéis que fabrica os croissants de Johnstone) a possibilidade de participar na defesa das suas comunidades contra a intimidação neofascista».
Muito engraçado: eu impeço a defesa do pobre padeiro sem-papéis que explor comendo os seus croissants. Para além do facto de eu só muito raramente comer um croissant, os padeiros do meu quarteirão estão todos em regra, e para além disso esta zona, maioritariamente de imigrantes, é lugar de frequentes manifestações pacíficas de africanos sem-papéis, claramente não intimidados pelos neofascistas. É evidente que não precisam dos Antifa para os proteger. Este fantasma do neofascismo omnipresente é tão indispensável aos Antifa como o fantasma do anti-semitismo omnipresente é indispensável a Israel.

A especialidade dos Antifa é de qualificar os activistas e opinadores de esquerda de «vermelho-castanho» desde que estes admitam estar de acordo com um conservador ou um libertário sobre um assunto qualquer, e sobretudo sobre a necessidade de evitar as guerras. Se alguém se desvia da doutrina maniqueísta dos Antifa, se admita que existem questões complicadas que merecem um debate contraditório, então é «Vermelho-castanho» e merece ser colocado de quarentena.

Assim, os Antifa pretendem ser a única voz «da esquerda», desqualificando como proto-fascistas todos aqueles que denunciem as suas acções tresloucadas.

E as suas acções tornam-se cada vez mais tresloucadas. Para «resistir» ao fascismo, Refuse Fascism, criado por um grupúsculo Revolutionary Communist Party, apela a manifestações neste sábado 4 de Novembro, manifestações que devem prosseguir o tempo que for necessário para derrubar «o regime Trump-Pence» - ou seja, o Presidente e vice-presidente eleitos.

Eis uma imitação das «revoluções coloridas» apoiadas pelos serviços secretos dos EUA em numerosos países, agora posta em prática em solo norte-americano. Qual pode ser o objectivo? Encenar a comédia do «povo que já não aguenta mais» para contribuir com um espectacular apoio aos esforços do «estado profundo» para correr com Trump por outros meios? Ou concluir a destruição da esquerda desacreditando-a completamente? Ou ambas as coisas?

Os media de direita repicam ao alarme, prevendo todo o género de atrocidades perpetradas pelos esquerdistas. Pelo menos o caos alastra no espírito de todos.

O iminente perigo de guerra nuclear é totalmente obliterado, eclipsado pelas cada vez mais profundas divisões entre os próprios norte-americanos. Seja o que for que os Antifa pensem fazer, seja o que for que pretendam fazer, a única coisa que fazem é identificar a esquerda com um fanatismo que torna impossível qualquer movimento anti-guerra capaz de tarais uma parte importante da população. Se o Antifa não é uma provocação montada pelo Partido da Guerra, parece-se maravilhosamente com isso.

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