“Os EUA não vencerão o confronto com a China”

Esta entrevista contém interessantes elementos de reflexão e análise. Contém também apreciações discutíveis, a mais séria das quais é a concepção “revista” de imperialismo.

Até 2050, a China espera tornar-se a principal economia do mundo. O nosso camarada Jean-Claude Delaunay, economista e vice-presidente da Associação Mundial de Economia Política, fornece ao jornal L’Humanité as chaves para interpretar uma economia – a chinesa - em rápida mudança.
Humanité: Como analisar a actual guerra comercial entre a China e os Estados Unidos?

Jean-Claude Delaunay: Os Estados Unidos parecem estar com um atraso de cinco anos ​​na descoberta da estratégia chinesa de uma “nova normalidade”. Não se trata apenas de realizar o progresso social, mas também de desenvolver as forças produtivas: Internet, a electrónica, a inteligência artificial, o desenvolvimento do 5G …..
Washington tem medo.
Penso que há uma guerra porque os Estados Unidos têm medo de perder a sua posição. Sendo difícil de conduzir um confronto militar, estão a travar uma guerra económica. Perante isso, os chineses têm uma estratégia pacífica e extremamente paciente. Eles rodeiam-se da confiança dos países em via de desenvolvimento, que apoiam esta estratégia, a China não quer guerra, mas, não sendo ingénua, desenvolveu de facto as suas capacidades de defesa e procura neutralizar conflitos através do diálogo. Os norte-americanos não vencerão este confronto.

H: Estão a emergir críticas relativamente à nova Rota da Seda e o aumento da dívida nos países envolvidos. Trata-se de um perigo real?

Jean-Claude Delaunay: Os países em desenvolvimento interessados nesta estratégia são os primeiros a considerar a China do seu lado. Basta pensar no número de chefes de estado africanos presentes na cimeira da Rota da Seda no ano passado. Porquê? Porque a China é considerada uma contra-potência neste continente encruzilhada do imperialismo mundial. A suposta hegemonia chinesa é uma contra ordenação lançada pelas potências ocidentais. A China está a desenvolver infraestruturas que ficam à disposição dos Estados, não é uma pilhagem. É acusada de comprar terras para alimentar a sua população. Estes são os problemas que o mundo deveria enfrentar: como alimentar toda a população mundial, incluindo os chineses. Por enquanto, vamos deixá-los gerir a situação. Isso não é imperialismo no sentido estrito. Houve uma atenuação desse termo. O imperialismo é guerra.

H: A China define-se como um país em desenvolvimento com uma economia de mercado socialista …

Jean-Claude Delaunay: Penso que o socialismo será inevitavelmente comercial. Podemos sonhar com o socialismo sem um mercado com planeamento integral, mas isso fracassou completamente na China. Mao Zedong seguiu o modelo soviético, que era um modelo de economia de guerra. Deve entender-se que o mercado não é unimodal. Creio profundamente que há uma diferença entre um bem capitalista e um bem socialista. O bem capitalista é baseado em sociedades separadas que produzem bens que inevitavelmente trazem lucros. Uma mercadoria socialista pode ter uma orientação macroeconómica. As empresas chinesas, por exemplo, produzem reactores segundo um projecto planeado de produção de energia. Trata-se de uma mercadoria orientada para a produção global que não gera necessariamente lucros. Numa economia socializada os investimentos podem ser distribuídos de maneira diferente. Uma empresa não obtém lucro, mas uma outra o financiará. A socialização dos investimentos é um avanço significativo. Socializar significa que podemos planejar, racionalizar, controlar os investimentos, estudar os efeitos na força de trabalho. Neste tipo de investimento, o mercado capitalista é cego. Todos investem no seu próprio canto e isto produz sobre-acumulação.
H: A China teve problemas de sobre-acumulação. A sua forma de a afrontar é diferente?
Jean-Claude Delaunay: Não se pode negar que existem sobre-acumulações de tipo socialista de natureza diferente das de um regime capitalista. Isso pode levar, por exemplo, a uma sobrestimação da quantidade de aço necessária. Aumentar o mercado é uma maneira de combater a híper acumulação. Até os chineses tomaram consciência da necessidade de desenvolver o seu mercado interno. Uma das diferenças do mercado socialista é o funcionamento da força de trabalho. Após a crise de 2008, a China apercebeu-se da necessidade de aumentar os salários e acelerar a formação. Não sei se os dirigentes chineses estão convencidos do socialismo, creio que estão convencidos do interesse popular. Têm um sentido muito profundo da nação soberana. Transportam consigo uma história de humilhação que não está tão distante como isso. Hoje, a China está a demonstrar o seu poder e os Estados Unidos querem detê-la.

H: A China adoptou uma nova lei de investimento estrangeiro para dar resposta às preocupações expressas pelos países ocidentais. Qual é a sua substância?

Jean-Claude Delaunay: A entrada da China na OMC em 2001 acelerou o processo de abertura ao capital estrangeiro. Na época, as multinacionais ganharam confiança e pensaram que o país se teria convertido ao capitalismo. Por seu lado, os dirigentes chineses alimentaram ilusões sobre a disponibilidade dessas empresas em trazer progresso técnico e social. Instalaram-se e simplesmente sobre-exploraram a força de trabalho. O pico foi atingido entre 2009 e 2010, com a onda de suicídios na Foxconn. As autoridades tomaram conhecimento de uma série de problemas. Assim, foi realizada uma reflexão sobre a crise global e sobre a obrigação de definir uma estratégia para o progresso técnico e a elevação do nível de desenvolvimento. O princípio era simples: em troca da quota de mercado adquirida, as empresas eram obrigadas a aceitar a transferência de tecnologia. Os chineses compreenderam que precisavam de se desenvolver forçando as empresas estrangeiras a colocar os seus progressos à disposição.

H: No entanto, empresas estrangeiras correm o risco de ficar para trás em inovação, pela via de contratos de subcontratação …

Jean-Claude Delaunay: Terão que entender que só há uma maneira de cooperar com a China. As multinacionais ocidentais estão a destruir a sua capacidade técnica, enquanto as empresas chinesas a estão a reforçar. A externalização em cascata é um desastre tecnológico. A externalização de contratos leva certamente a um aumento nos lucros, mas do ponto de vista produtivo é um fracasso. Os chineses compreenderam-no muito bem.

Fonte: http://www.marx21.it/index.php/internazionale/cina/29955-gli-americani-non-vinceranno-il-confronto-con-la-cina

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos