Os extremos tocam-se? (I)*

Manuel Loff    30.Nov.19    Outros autores

Nas análises que alguns comentaristas fazem sobre os resultados das recentes eleições legislativas, e em especial sobre a votação no “Chega”, surge frequentemente a ideia de que esse partido de extrema-direita absorve votos anteriormente confiados à esquerda, nomeadamente ao PCP. Mas não é isso que os dados concretos mostram.

A eleição de um deputado do Chega, à qual se tem associado (precipitadamente) a mesma capacidade de expansão que o próprio Ventura julga ter, tem motivado uma discussão sobre a irrupção do “populismo” em Portugal. Começo por discordar do uso vulgar do conceito: o que há é um nacional-populismo com traços evidentes de neofascismo, uma cultura política ocidentalista contra as “ameaças” do Sul do mundo, vindas de minorias descritas como “antiocidentais”, presente na esfera política e cultural do Ocidente desde os anos 1990. Não nasceu com Trump e Bolsonaro; é apenas o mais recente surto de uma cultura política reacionária que, desde o início da era das massas, perpassa o conjunto das direitas e que, em momentos como o atual, ganha autonomia face aos seus partidos tradicionais, mas que nunca deixou de estar dentro deles. Não foram descritos como “populistas” nem de extrema-direita os 85 deputados do PSD e do CDS (80% do total deles) que, em julho, denunciaram o “uso doutrinário e ideológico” das “questões da identidade de género” feito, segundo eles, pelo Ministério da Educação. E, contudo, o texto que assinaram é em tudo semelhante aos discursos de Bolsonaro e Salvini. Esta vaga de extrema-direita, comodamente descrita como “populismo” para se poder dizer que o há de direita e de esquerda, ambos representando uma mesma ameaça para a democracia (descrita como se não fosse mais que uma fórmula UE+NATO+neoliberalismo), tem dado azo a um discurso elitista sobre a participação política das classes populares em que se integram expressões como os “deploráveis” que Hillary Clinton dizia apoiarem, na campanha de 2016, o candidato Donald Trump. (Discuti este tipo de discurso no capítulo “O antipopulismo reacionário em Portugal” do livro O Espectro dos Populismos, coordenado por Cecília Honório, 2018.) Vem isto a propósito do artigo de sábado passado de Pacheco Pereira sobre o Chega e a manifestação dos polícias. Segundo ele, “os polícias vêm dos mesmos meios que hoje abandonam o Labour ou os democratas americanos”, e sentem-se abandonados por uma esquerda que era “tradicionalmente mais atenta à classe do que ao género, escolha sexual ou raça”. Isto explicaria como o Chega teria ido “buscar votos fora de Lisboa, em áreas que votavam à esquerda”. Pacheco admite que tenha “tirado votos ao CDS e ao PSD [mas] o seu potencial de crescimento não está na competição com esses partidos, mas sim com o PCP, “o partido cujo eleitorado é mais sugado pelo Chega (…) porque ambos partilham de uma proximidade natural com aqueles que se sentem sem representação no sistema político”. Insiste-se aqui na tese, que também tenho contestado, da transferência direta de votos da esquerda (e dos comunistas em particular) para a extrema-direita em França e Itália, por exemplo. Parece-me haver aqui um erro de análise e um preconceito. O primeiro é sobre o Chega ter “sugado” votos ao PCP. Dele tratarei agora. O segundo é esta ideia subterrânea de que os politicamente “ressentidos” podem ter votado CDU no passado (a “esquerda demagógica”, como lhe chama a direita e alguns socialistas), mas hoje o fazem na extrema-direita — e disto falarei na minha próxima crónica. O mapa da concentração (ainda que raramente acima dos 5%) de votos da extrema-direita (Chega+PNR) é não o dos melhores resultados da CDU, mas o da concentração de afrodescendentes e imigrantes (freguesias de Loures, Santa Iria de Azóia, Rio de Mouro, por exemplo) e o da maior presença de comunidades ciganas no Alentejo (Elvas, Mourão), concelhos onde a CDU obtém resultados abaixo da média. Na Margem Sul, pelo contrário, o Chega só atinge os 2% no Montijo ou na Moita, mas não em Setúbal, Almada ou no Barreiro, onde a CDU tem os seus melhores resultados. Procurar ex-votantes comunistas no Chega é partir da ilusão de que não havia direita em todos estes territórios. O que o Chega atrai é voto de onde o próprio Ventura saiu (PSD, talvez mais até do que CDS) e de antigos abstencionistas, um eleitorado patriarcal zangado saído do armário do reacionarismo histórico dos últimos anos à volta de temas como os imigrantes inassimiláveis, a reivindicação da grandeza histórica e da tradição (caça, tourada…), a denúncia da ideologia de género. O mapa eleitoral do Chega é, portanto, o do racismo e da xenofobia. Comecemos por reconhecer a existência destes e partamos daqui para explicar a sua nova articulação política.

*Este artigo foi publicado no “Público”, 28.11.2019

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