Os golpes na Macedónia e a Grande Albânia

José Goulão    25.Mar.19    Outros autores

O objectivo final da sucessão de golpes em curso nos Balcãs é a criação de uma Grande Albânia que seja o paraíso da máfia transnacional albanesa e a verdadeira filial do poder de Washington no Sudoeste Balcânico.

O presidente da Antiga República Jugoslava da Macedónia (FYROM), Gjorge Ivanov, não promulgou a primeira lei do Parlamento de Skopje que lhe foi apresentada com o timbre de «República da Macedónia do Norte». Apesar disso, a lei foi publicada no Boletim Oficial, com a assinatura do Presidente da Câmara dos Deputados, o que viola a Constituição. Consumou-se assim, de modo «plenamente democrático», mais uma etapa do golpe patrocinado pela NATO e a União Europeia neste território balcânico.

A «exportação da democracia» para os Balcãs continua passo-a-passo, agora sob a direcção de políticos e diplomatas dos Estados Unidos, da NATO e da União Europeia. As etapas sucedem-se em forma de golpes político-eleitorais – um pouco à imagem do processo na América Latina – depois de a guerra que destruiu a Jugoslávia ter deixado um «caos criador», como no Iraque ou na Líbia. A selvajaria colonial redundou em soluções «negociadas» que só podem funcionar sob tutela dos ocupantes militares da aliança expansionista e das entidades «soft power» norte-americanas, que manipulam os processos político-eleitorais conforme as conveniências de Washington. A Bósnia-Herzegovina e o Kosovo são os casos mais conhecidos e mediatizados – segundo as normas da censura atlantista – mas não passam de partes de um todo que é o controlo do conjunto da região balcânica pela NATO e a União Europeia; um processo que pretende extirpar quaisquer suspeitas de «influência russa», ainda que sejam de índoles culturais, linguísticas e religiosas e estejam enraizadas há séculos em vastas comunidades da região. É uma forma de limpeza étnica, menos dolorosa fisicamente mas que não deixa de ser criminosa.

A Macedónia é a mais exemplar transformação em curso, sobretudo porque os episódios revelam como esta forma de «democracia» não olha a meios para atingir os fins.

Do Tratado de Prespa ao golpe parlamentar

A recusa do presidente macedónio em promulgar as leis da «República da Macedónia do Norte» não é um capricho ou uma teimosia. É um legítimo acto constitucional para recordar que há muitos meses o funcionamento do Estado se tornou incompatível não apenas com a Lei Fundamental em vigor, mas também com os mais elementares princípios da decência e da transparência.

A fase em curso começou com o Tratado de Prespa, em 12 de Junho de 2018, arquitectado pelo diplomata norte-americano Geoffrey R. Pyatt, considerado um dos principais operacionais do golpe na Praça Maidan1, em Kiev, que colocou a Ucrânia sob o domínio de um aparelho político-militar nazi. Pyatt contou com a conivência submissa do primeiro-ministro grego, Alexis Tsipras, e do chefe do governo macedónio, o «socialista» neoliberal Zoran Zaev.

Zaev protagonizara o golpe fracassado de 2015 em Skopje, organizado pela CIA segundo o modelo dos acontecimentos de dois anos antes em Kiev.2, Acabou por ascender ao cargo de chefe do governo através de eleições muito bem financiadas.

O Tratado de Prespa, patrocinado pela NATO e pela União Europeia, formalmente sob a égide da ONU, é suposto encerrar o contencioso entre a Grécia a Macedónia ex-jugoslava, passando este território a designar-se «República da Macedónia do Norte», permanecendo a província grega adjacente com a mesma designação – Macedónia.

A sua ratificação pela parte da FYROM exigia a aprovação em referendo, que decorreu em 30 de Setembro do ano passado, na presença sombria do então secretário de Estado norte-americano, James Mattis.
A oposição, onde o ramo mais poderoso é o movimento nacionalista VMRO, do presidente Gjorge Ivanov, apelou ao boicote da consulta e, de facto, dois terços dos eleitores alhearam-se do acto, invalidando-o. A afluência às urnas foi de 37%, portanto muito aquém dos exigidos 50%.

Um Parlamento kafkiano

A NATO e a União Europeia não aceitaram a derrota e, sob o comando directo do embaixador norte-americano em Skopje, Jess Baily3, a decisão de ratificação transitou para o Parlamento, onde a oposição tem uma maioria de nove deputados, o que permitiria bloquear o tratado.
Iniciou-se então uma operação de compra de deputados, com intervenção directa de colaboradores próximos do embaixador norte-americano. Movimentaram-se verbas da ordem dos 250 mil dólares por cada parlamentar do VMRO que desobedecesse à disciplina partidária, acrescidos da possibilidade de emigrarem para os Estados Unidos se precisassem de cuidar da própria segurança.

As votações decisivas fizeram-se na presença do primeiro-ministro Zaev e do próprio embaixador norte-americano, instalados no gabinete do presidente do Parlamento, Talat Xhaferi, o mesmo que agora decidiu «promulgar» leis vetadas pelo chefe de Estado.

Fez-se a ratificação por maioria simples de um voto – e não por dois terços, como determina a Constituição – e assim ficou o golpe quase completo.

A posição do presidente Gjorge Ivanov, cujo mandato está prestes a expirar, era o derradeiro obstáculo, se bem que o seu VMRO pouco tenha feito por bloquear efectivamente a decisão, por exemplo substituindo previamente os deputados que tinham recebido os incentivos «democráticos» da Embaixada dos Estados Unidos.

A assinatura, embora inconstitucional, do presidente do Parlamento, pode ter contornado a resistência presidencial, já se si pouco perturbadora do processo, de facto meramente simbólica.

Finalmente os juízes da verdadeira democracia instalados em Bruxelas e Washington podem dar a missão como cumprida: nasceu a «Macedónia do Norte».

Uma vida efémera

Uma entidade que, porém, pode não representar o fim da linha para os colonizadores dos Balcãs uma vez que, segundo movimentações que vêm ganhando expressão na região, possivelmente a «Macedónia do Norte» terá vida efémera.

Para nos inteirarmos disso basta enunciar acontecimentos que decorrem simultaneamente ao processo golpista macedónio e nos quais este se integra, no âmbito da recomposição de toda a região à medida dos interesses coloniais atlantistas.

Contra o direito internacional, mas sempre com o aval dos fiscais da democracia, os terroristas islâmicos que formam o governo do Kosovo dotaram-se de um exército regular e aboliram as fronteiras com a Albânia.

O Kosovo, recorda-se, é uma província da Sérvia que está, de facto, sob tutela internacional exercida pela NATO e a União Europeia. Na prática, transformou-se numa imensa base militar atlantista. As movimentações em curso podem representar, na realidade, uma secessão do Kosovo em relação à Sérvia e a integração do território na Albânia, passo determinante para a consumação da Grande Albânia, um velho sonho de Tirana e, ao que parece, uma recomposição regional que corresponde às efectivas pretensões de Washington. É um facto que o islamismo político, mais ou menos radical, tem funcionado como um instrumento preferencial do expansionismo norte-americano e o caso dos Balcãs não é excepção, como se observa na Bósnia e no Kosovo.

Poder-se-á pensar, aqui chegados, que tudo isto parece bem encaminhado nas perspectivas de Washington e Bruxelas; mas a Sérvia é uma potência regional com uma palavra a dizer, tanto em relação ao Kosovo com ao expansionismo albanês. É conhecido – como ficou demonstrado na guerra de destruição da Jugoslávia – o antagonismo entre os pólos muçulmano, a Albânia, e cristão ortodoxo, a Sérvia. Com a agravante regional de esta polarização trazer no bojo o sempre terrível problema da «ameaça russa», olhada, em mais este caso, como um estorvo para o total domínio norte-americano.

A «pró-democracia» na Sérvia

A esta luz não é difícil perceber o verdadeiro significado dos protestos «pró-democracia» que continuam a decorrer na Sérvia contra os poderes instalados, que não escondem a sua simpatia pela União Europeia mas parecem ser também – pelo menos é o que reza a propaganda da oposição – uns temíveis pró-russos.
Nada disso, na verdade. O que está em causa é fazer na Sérvia as mudanças para que o país se alinhe placidamente pelo eixo Washington-Bruxelas. Assim sendo, deixará de haver um poder real contra a transferência de soberania do Kosovo de Belgrado para Tirana e a construção da Grande Albânia.

O expansionismo albanês é, por seu turno, a maior ameaça contra a «República da Macedónia do Norte».
Os albaneses da Macedónia estão incluídos no cardápio das comunidades vocacionadas para integrar a Grande Albânia. Para Washington, as excepções regionais serão os albaneses do Montenegro – não vale a pena desfazer um país que já funciona como mais uma base da NATO – e, obviamente, a comunidade albanesa da província grega da Macedónia.

Amputada da significativa minoria albanesa, poucas hipóteses terá a «Macedónia do Norte» de sobreviver como Estado. Isolados, os cristãos ortodoxos macedónios ficarão a depender do lado mais forte em toda a região balcânica, a bem dizer o lado senhor e único. E para que não haja quaisquer laivos de resistência, decorrem também em Skopje manobras para que a Igreja Ortodoxa da Macedónia se separe do Patriarcado de Moscovo para se alinhar por Constantinopla. A exemplo do que já aconteceu na Ucrânia, por obra e graça do presidente Porochenko e da sua guarda pretoriana nazi.
Uma Grande Albânia membro da NATO e da União Europeia que seja o paraíso da máfia transnacional albanesa e a verdadeira filial do poder de Washington no Sudoeste Balcânico, convivendo com uma Sérvia depurada de quaisquer «correias de transmissão» a Moscovo é, como se percebe, o objectivo final da sucessão de golpes em desenvolvimento para estender a verdadeira e única «democracia» a toda a região.

Para atingir esse objectivo, o expansionismo colonial atlantista não olha a meios. Aliás, seria estranho que o fizesse depois de deixar marcas tão indeléveis como «democráticas» nos seus rastos no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia, no Iémen - ou como está a deixar na América Latina.

1.O leitor poderá conhecer ou recordar, no artigo de John Laughland «US diplomats act like imperial governors riding roughshod over sovereignty of national governments», RT News, 19 de Julho de 2018, o comportamento do representante diplomático norte-americano na Ucrânia.

2.Um relato descritivo e conciso da tentativa de golpe, que causou 22 mortos e numerosos feridos, e das implicações norte-americanas, europeias, de Georges Soros e de Zaev, pode ser encontrado no sítio grego Katehon.

3.A intromissão do embaixador americano é referida no sítio alternativo Mina Report, em 8 de Novembro de 2018. Interessante, no mesmo artigo, constatar que, cumprida a missão, Jess Baily foi substituído por Kate Marie Byrnes, uma diplomata proveniente de Atenas, onde trabalhava sob a batuta de Geoffrey R. Pyatt, o embaixador norte-americano reconhecido como «operacional de Maidan».

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/os-golpes-na-macedonia-e-grande-albania

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