Os indignados

Anabela Fino*    22.Jul.16    Outros autores

Anabela FinoNestes tempos de derrocada, provocada pela crise estrutural do sistema do capital, começa a viver-se o tempo do salve-se quem puder.
Neste texto, Anabela Fino, num ápice, desmonta a fingida indignação que alguns políticos europeus papagueiam sobre a contratação de Durão Barroso pelo Goldman Sachs.
Em «Os Indignados» também se comprova que entre o banco [Goldman Sachs] e a União Europeia há muito está presente uma velha «transumância» em constante renovação.

O incómodo que a contratação de Durão Barroso pelo Goldman Sachs está a suscitar nas instâncias da União Europeia, traduzido em protestos veementes e apelos lancinantes a que desista do cargo, fazem lembrar aquelas situações em que os larápios, apanhados em falso, tentam salvar a pele armando-se em vítimas e gritando alto e bom som «agarra que é ladrão».

Desde o presidente francês François Hollande ao comissário europeu dos assuntos económicos e monetários Pierre Moscovici, anda tudo num desatino a tentar fazer crer que a UE nada tem a ver com o produto tóxico chamado Goldman Sachs, cuja reputação ficou nas ruas da amargura desde que se tornou público e notório, entre outras coisas, o papel que desempenhou durante a crise financeira de 2008.

Percebe-se: como o próprio Moscovici afirmou em recente entrevista, «neste período de crise, quando o populismo quer dinamitar o ideal europeu e a instituição que o encarna, o recrutamento de Barroso pelo Goldman Sachs é chocante e alimenta os ataques contra a Comissão».

Para salvar a pele, a Comissão vem a terreiro qual virgem ofendida, tentando ocultar sob o manto da retórica a crua realidade da promiscuidade que desde há muito grassa entre as instituições europeias e este banco de investimentos norte-americano. Basta no entanto uma breve revisitação aos arquivos para perceber que estamos mais uma vez perante um gato escondido com o rabo de fora. A transumância entre o banco e a UE e vice-versa não é nova: Romano Prodi, antigo presidente da Comissão Europeia e ex-primeiro-ministro italiano, esteve no Goldman nos anos 90; Mario Draghi, presidente do BCE, foi director-geral do Goldman Sachs International entre 2002 e 2005; Carlos Moedas saiu do Goldman em 2004 para o governo PSD/CDS, onde foi responsável pelo acompanhamento do programa da troika, e daqui saltou direitinho para Comissão Europeia. Isto para já não falar do falecido António Borges ou de José António Arnaut, com currículo no Goldman, que muito «aconselharam» as políticas da troika.

Qual cereja em cima do bolo, o Goldman está presente na «nova regulação para os mercados financeiros» tão cara à UE. Com «indignados» destes, Durão Barroso pode dormir descansado.

* Jornalista

Este texto foi publicado no Avante nº 2.225 de 21 de julho de 2016.

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