Os mandatos de Obama

Higinio Polo*    18.Feb.16    Outros autores

Há oito anos, quando Obama venceu Hillary Clinton nas primárias do Partido Democrata e McCain nas eleições presidências, foram muitos milhões de mulheres e homens em todo o mundo os que «exultaram até às lágrimas» com a vitória de Obama nas eleições.
E nem quiserem acreditar que o jovem senador de 45 anos, culto, bem-falante, e ainda por cima negro, nem se aperceberam que todo o capital de simpatia e emoção que Obama gerou mais não era do que o recorte perfeito da «peça de puzzle [que faltava] no imaginário do orgulho norte-americano, e no objectivo de reverter a vaga de descrédito dos EUA que alastrou a todos os continentes» nos mandatos de George W. Bush.
Hoje, chegada a hora do balanço, «pode dizer-se que o seu tempo não foi pior que o Bush, mas também não melhorou»…

A poucos meses de se encerrar a presidência de oito anos de Obama, pode
Dizer-se que o seu tempo não foi pior do que o de Bush, mas também não melhorou. Ele veio com a esperança de que um presidente negro iria acabar com as velhas feridas de segregação e discriminação racial: não aconteceu, e muitas organizações civis norte-americanas até acreditam que os problemas se agravaram. A população negra é marginalizada no país: é uma das maldições do capitalismo americano. Os negros são menos de 15 por cento da população, mas são responsáveis por 35 por cento dos reclusos: quase um milhão de afro-americanos estão em prisões, muitos mais que os estudantes negros em universidades. Há mais negros presos em cárceres norte-americanos do que no resto do mundo.

Os EUA são mais injustos, mais desiguais, que quando Obama chegou. O seu compromisso com os direitos humanos revelou-se em grande parte inútil, e os direitos civis têm visto a gadanha da polícia e a espionagem, que marcam os casos de Snowden, a NSA, as agências de segurança, o controle de privacidade do cidadão; e seu governo tem-no feito não só nos Estados Unidos: adoptou um programa monstruoso de controlo policial, com a cumplicidade de grandes empresas de tecnologia, que ameaça a população do planeta e a liberdade.

Obama aprovou uma reforma dos cuidados de saúde para proteger dezenas de milhões de pessoas que não têm cuidados médicos, embora os problemas não tenham acabado, longe disso.

Sob o seu governo criaram-se postos de trabalho, mas cada vez piores, em horários, condições e direitos; e com baixos salários, a ponto de que milhões de trabalhadores americanos não podem até mesmo alugar um apartamento, embora eles trabalhem; devem compartilhar a habitação com outros, alugar quartos em casas estranhas; o inferno para as expectativas do velho sonho americano.

Obama tem contido o déficit, mas os Estados Unidos continuam sendo o país mais endividado do mundo, ainda que isso não possa ser atribuído somente à ação do seu governo: quando chegou a presidente, a dívida dos EUA totalizava 11,5 biliões; agora é de 19 biliões. E a desigualdade está crescendo em todos os lados.

Quando chegou, as guerras do Afeganistão e do Iraque, iniciadas por Bush, não tinham acabado. Obama pretende agora que as terminou, mas isso não é verdade: em ambos os países ainda permanecem soldados norte-americanos, embora menos, além de mercenários, de empresas militares que trabalham com o Pentágono, e, acima de tudo, tanto o Afeganistão como o Iraque ainda estão em guerra, agravada agora pelo aparecimento do tenebroso Daesh, Estado islâmico em cujo nascimento os Estados Unidos têm uma grande responsabilidade.

É verdade que Obama restabeleceu as relações com Cuba e deu andamento às negociações e ao mecanismo para controlar o programa nuclear iraniano, mas a sua política externa ainda continua satisfazendo os velhos tiques do imperialismo: os seus ataques e bombardeamentos continuam a causar vítimas entre a população civil no Oriente Médio, como aconteceu com o massacre no hospital de MSF em Kunduz, no Afeganistão, encerrado com um relatório feito pelos mesmos militares dos Estados Unidos, que recusaram um inquérito independente. As guerras continuam, e os traficantes de armas, as máfias paramilitares, as empresas de mercenários, os abutres que negoceiam a segurança, têm prosperado com Obama.

O seu governo tem apoiado golpes de Estado na Ucrânia, Tailândia, Egipto. Para intervir na Ucrânia, os seus serviços secretos treinaram grupos fascistas ucranianos na Polónia, e Obama não pareceu comovido com a horrível carnificina operada por grupos fascistas no edifício dos sindicatos em Odessa, onde queimaram vivos uma centena de opositores do golpe de Estado: nem sequer a condenou.

Também não houve progressos no drama palestiniano, e, para além de algum gesto de desagrado para com Netanyahu, tem sido tão cuidadoso com o seu governo que Israel contínua impunemente a expansão dos assentamentos israelitas em territórios ocupados, continua a atirar a matar contra os palestinianos, continua a recusar-se a negociar com a autoridade Palestiniana. Além disso, a Síria, Líbia e Iémen, juntaram-se à lista de países destruídos pela delirante política externa americana. Tem pendente o encerramento de Guantánamo, a reforma da justiça, a ratificação do Tratado da Ásia-Pacífico, o embargo a Cuba.

E o reinado do medo (ao terrorismo, aos refugiados, à imigração, ao desafio chinês e russo) tem sido acompanhado por uma política de assédio à Rússia, aumentando as sanções económicas, alimentando conflitos dentro do país e as suas fronteiras, como na Ucrânia; enquanto o desarmamento nuclear continua à espera, impôs a implantação do escudo antimísseis nas fronteiras da Rússia… para se defender do Irão e continuou a expandir a NATO (sob a sua presidência, juntaram-se a Croácia e Albânia) estabelecendo novos quartéis generais na Europa oriental. Apontou também os holofotes sobre a China, o principal rival estratégico, jogando com as disputas na Ásia e Mar da China Meridional, aceitando a nova doutrina militar japonesa, como uma forma de “conter a China”.

Ao mesmo tempo, Obama tem tentado combater a noção, cada vez mais generalizada, de que o declínio da América é inevitável, mostrando a força indubitável do país, o seu poder militar, a sua economia. Prometeu abandonar a política unilateral de Bush e que contaria com os seus aliados europeus, mas isso não aconteceu: impôs as suas decisões á União Europeia: na Ucrânia, na Síria, na Líbia e contra a Rússia. A doutrina fascista de Bush de guerra preventiva deu lugar á organização de golpes de estado e ao financiamento de grupos terroristas, à benevolência com perigosos aliados como a Arábia ou Turquia.

Maus tempos. A emoção e as lágrimas com que tantos americanos, especialmente os negros, receberam o novo presidente, a esperança com que foi acolhido por tantos europeus que se aglomeravam nas praças em 2008 para vê-lo, tornaram-se, oito anos depois, na decepção Obama, na constatação (embora à nova e velha esquerda moderada lhe custe pronunciar essa palavra) de que o imperialismo continua a descarregar o seu veneno de sofrimento e morte, continua a desterrar o futuro, leiloando a vida.

* Professor universitário

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