Os sacrifícios

Correia da Fonseca    28.Dic.11    Colaboradores

Correia da FonsecaCom os apelos praticamente diários aos «sacrifícios» a que todos os portugueses estarão obrigados entrou-se claramente no território do insulto, pois que reclamar reiteradamente que os inocentes cumpram pena por delitos alheios já ultrapassa o âmbito da injustiça. Mas as coisas não ficam por aqui.

1. Durante algum tempo, já não sei avaliar quanto, a televisão prosseguiu como se nada de especial se estivesse a passar entra nós. A televisão, isto é, as notícias que diariamente ela nos ia dando do País. Depois, a partir de dada altura, as notícias começaram a chegar. Mas quase sempre de uma forma distanciada: íamos sabendo do encerramento de empresas, de trabalhadores que iam sendo atirados para o desemprego, mas muito frequente era que estes surgissem perante câmaras e microfones quase mais como deponentes que vinham contar o que se passava, como mera testemunhas, que como protagonistas de um drama que ali se iniciava e ameaçava durar longo tempo se não para sempre. Assim se mantiveram as coisas até dias relativamente recentes quando, quase sempre surgidas como complementos dos noticiários (onde é suposto que dia após dia surja o mais importante), chegaram algumas reportagens acerca do desemprego e das suas consequências. Salvo algum caso excepcional que eventualmente me tenha escapado, não são retratos dessa realidade em toda a sua crueldade, mas são sem dúvida sinais de que a televisão portuguesa não se quer ficar cega, surda e muda perante o desastre que desaba sobre muitos milhares de portugueses.

2. Entretanto, como se sabe, já antes na televisão começara a ladainha dos sacrifícios necessários a que estão obrigados todos os portugueses. O carácter generalizado e indistinto dessa obrigação tem vindo a ser sumariamente justificado, como também se sabe, por termos andado a gastar ao longo de anos e anos muito mais do que deveríamos, as famigeradas «nossas possibilidades». Todos nós, a implícito pretexto de que todos nós somos portugueses do mesmo Portugal, o patrão da cadeia de hipermercados e a rapariguinha da caixa, o presidente do banco e o empregado bancário que nos atende ao balcão. É certo que essa distribuição indiscriminada de responsabilidades, repetida até à exaustão, já por si só é um insulto que cumulativamente consubstancia a categoria de burla no plano cívico (enquanto não o é no financeiro), mas nem todos logo deram claramente por isso, ficando-se muitos por se sentirem injustamente tratados, o que aliás já não era pouco. A tal invocação dos sacrifícios necessários e urgentes a que todos estão obrigados sobreveio, pois, imediatamente a seguir.

3. Com os apelos praticamente diários aos «sacrifícios» a que todos os portugueses estarão obrigados entrou-se claramente no território do insulto, pois que reclamar reiteradamente que os inocentes cumpram pena por delitos alheios, assim se presumindo uma acusação de culpa de facto inexistente, já ultrapassa o âmbito da injustiça. Mas as coisas não ficam por aqui, que já não seria pouco: a agressão é reforçada pela humilhação concretizada pela proposta constantemente repetida de aplicar aos espoliados a esmola como suposto remedeio para o estado a que foram conduzidos. É claro que a esmola surge sob o seu habitual pseudónimo, o de solidariedade, como se ser efectivamente solidário não fosse uma outra coisa, mais complexa e mais bela, que tem tudo a ver com fraternidade e, sempre que necessário, com luta. Mas a televisão não nos fala destas coisas que porventura acha perigosas. Em compensação, digamos assim, aliás falsa e inexacta compensação, fala-nos muito dos tais sacrifícios mas, prudentemente, apenas por alto. Tentando concretizar um poucochinho, podemos e até devemos fazer perguntas. Quando aos filhos do desempregado faltam a carne o leite, trata-se de um sacrifício praticado pelos seus pais ou de um crime que alguém cometeu? Quando, pela quadra do Natal, os filhos do senhor director vão passar uma semana apenas à Serra Nevada e não aos Alpes Suíços, como era hábito, é também um crime ou é apenas um sacrifício? É claro que estas são apenas duas questões exemplificativas. Mas coloco-as mudamente ao meu televisor. E o televisor cala o escândalo, o televisor nada me diz.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos