Pastoral caritativa e capitalismo da Igreja

Jorge Messias*    30.Dic.06    Colaboradores

“A situação política, económica, cultural e religiosa que vivemos, nada mais é que uma farsa grotesca. Teremos de olhar um pouco mais de perto em que consistem e que objectivos ocultam a sociedade civil, o combate à pobreza e o voluntariado.”

Nas áreas sociais, a desordem aparente imposta pelas políticas do Governo de Sócrates visa, na realidade, abrir na organização do Estado grandes espaços vazios que serão depois vendidos a quem mais der. É variável o tipo de moeda aceite em pagamento. O Estado recebe em contado, em trocas de posições dominantes, em contrapartidas, etc. E a igreja católica tem revelado ser, nestas transacções sociais, o principal parceiro das estratégias socialistas. Isto salta à vista nos casos mais evidentes da saúde, da segurança social, das migrações, das escolas privadas, das misericórdias, dos jardins de infância, etc. Por parte do Estado, o plano envolve fortes cedências políticas e institucionais, uma orientação governamental que tem merecido a compreensão e o aplauso de outros órgãos do poder. Assim tem vindo a acontecer com a Presidência da República, com Cavaco Silva a calar-se no que se refere à Segurança Social do Estado e a promover activamente, nas suas visitas oficiais valores, potencialidades e reivindicações da doutrina social da igreja. O mesmo acontece com os seus círculos mais próximos. Ainda há poucos dias, a sua mulher declarou em público, com excessos de autoridade: «Quero ver a engrenagem da integração social a funcionar…». Ora, como se sabe a engrenagem que a senhora mencionou é a da Pastoral Social da Igreja e envolve em rede as instituições que os VIPS portugueses bem conhecem : as Misericórdias, a Cruz Vermelha, as Cáritas, as Mutualidades, as escolas e lares do ensino privado, os Bombeiros, os centros paroquiais e bem mais uma dezena de outros núcleos sociais importantes.

Se as escutarmos, todas as figuras públicas envolvidas – de ministros a empresários, de bispos a membros do Opus Dei –declaram-se inimigos da exploração do homem pelo homem, da injustiça social, da pobreza e da exclusão, da fuga ao fisco, da economia subterrânea, do tráfico de influências, do fosso entre ricos e pobres e… por aí fora. Aconselham também a prática da caridade e do voluntariado não remunerado. São cristãos! Também os banqueiros exultam com o Combate à pobreza. As suas relações com a hierarquia eclesiástica mostram-se extremamente activas. A igreja fornece-lhes os valores fundamentais com que tentam compor uma imagem impoluta. Assim, dispõem já de uma Ética empresarial e de um importante naipe de argumentos canónicos que podem invocar no momento oportuno: a reconciliação de classes, o espírito fraterno, os impulsos do coração (metanóia), a caridade, a espiritualidade, o perdão. Por outro lado, o alto clero acelera o processo de reconversão das estruturas da igreja no mundo moderno à imagem do neocapitalismo. A igreja católica actual organiza-se em holdings, grupos de empresas e quadros técnicos. Investe na Bolsa, promove a paz entre os cartéis, assume-se como alma de um certo capitalismo que reconcilia economia e religião.

A luta política contra a pobreza

Na medida do possível, importa desmontar esta tramóia cujo eixo central gira em torno da sociedade civil e do combate à pobreza. Tem de reconhecer-se que numa sociedade pouco evoluída, como a portuguesa, estas imagens servem muito bem os interesses da actual elite dirigente, composta pela ordem eclesiástica, pela classe política capitalista e por elementos destacados do laicado católico e dos tecnocratas.

O panorama social que temos a curto prazo é alarmante e explica, por si só, a catástrofe nacional que rapidamente se aproxima: aumenta o desemprego real, fecham as empresas, descontrolam-se os preços e o poder destrói tudo aquilo que a Revolução de Abril permitiu construir. Aumenta a pobreza, a exclusão e o fosso entre pobres e ricos. O sistema capitalista investe na saúde lucrativa, nas escolas elitistas, na eliminação das pequenas e médias empresas e na entrega da área produtiva aos interesses estrangeiros.

A única saída para este estado de coisas é política e não caritativa. Dar a cada homem um peixe não representa para ele matar a fome nem talhar os caminhos da liberdade e do desenvolvimento que se equilibra numa maior justiça social. Só a passagem ao Socialismo poderá abrir as portas à eliminação definitiva da pobreza, a uma correcta distribuição da riqueza e à renovação da mentalidade do homem português que aspira como qualquer outro a ser solidário e útil. A situação política, económica, cultural e religiosa que vivemos, nada mais é que uma farsa grotesca. Teremos de olhar um pouco mais de perto em que consistem e que objectivos ocultam a sociedade civil, o combate à pobreza e o voluntariado. O tempo aperta e espreitam-nos dias de dura luta social. Não deixemos que os senhores do poder ocupem novas posições.


Este artigo foi publicado no Avante nº 1724 de 14.Dezembro de 2006

* Jorge Messias é colaborador regular do Avante

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos