Pela calada

Jorge Cadima    19.Jul.21    Outros autores

A “saída” dos EUA do Afeganistão teve um momento simbólico no abandono da Base de Bagram. Foi pela calada da noite, sem dar cavaco, deixando para trás equipamentos no valor de milhões. Em 20 anos ocupação EUA/NATO uma coisa floresceu: o cultivo do ópio. Os taliban, instrumento da conspiração imperialista contra qualquer progresso do país, que os EUA iriam “combater”, dominam hoje a maioria do território. A saída formal das tropas terrestres EUA simboliza o fracasso da estratégia de envolvimento militar directo, com custos económicos e políticos incomportáveis. Mas não representará certamente o fim da subversão imperialista no Afeganistão e na região.

A agência Associated Press relata (6.7.21) o abandono pelas tropas dos EUA da «maior base aérea» do Afeganistão e «epicentro da guerra da América para desalojar os Talibãs e dar caça à Al-Qaida»: «Os EUA abandonaram a Base Aérea de Bagram após quase 20 anos, desligando a electricidade e saindo pela calada da noite sem notificar o novo comandante afegão da base, que apenas se apercebeu da saída dos americanos mais de duas horas após a sua partida». Para trás ficaram «3,5 milhões de itens», incluindo «milhares de veículos civis, muitos sem as chaves de ignição». A Base Aérea de Bagram «chegou a albergar 100 000 soldados dos EUA» e era «do tamanho duma pequena cidade, exclusivamente usada pelos EUA e NATO», incluindo «um hospital com 50 camas» e «uma prisão com cerca de 5000 presos». A notícia acrescenta que «a maioria dos soldados [de outros países] NATO já tinha partido discretamente».

Décadas de ingerência dos EUA, incluindo 20 anos de ocupação militar, destruíram o Afeganistão. O Instituto Watson da Brown University estima em quase 250 mil o número de mortos causados pela guerra desde a invasão de 2001, com um custo de 2,26 biliões de dólares para os EUA (watson.brown.edu/costsofwar). A UNHCR estima 5,5 milhões de refugiados ou pessoas deslocadas dentro do país. A ingerência dos EUA foi indissociável da promoção do terrorismo fundamentalista (recorde-se os mujahedines recebidos por Reagan na Casa Branca nos anos 80 e o seu financiamento multi-milionário pelos EUA). Mas também do tráfico de drogas, com efeitos dramáticos para os povos, mas magníficos para o sistema financeiro do capitalismo. A ingerência dos EUA nos anos 80 coincide com o início da produção em larga escala de ópio no Afeganistão (Figura 5, p.38, Relatório Mundial sobre Droga 2010, da UNODC, agência ONU para as drogas), país que «em 2020 é responsável por 85% da produção total mundial de ópio» (www.unodc.org, World Drug Report 2020). Houve um ano neste período em que o cultivo da papoila foi praticamente erradicado (pelos Talibãs): o ano 2001. Curiosamente, terminou com a invasão pelos EUA e subsequentes níveis recorde na produção de opiáceos. Explosão prevista antes da invasão por um ex-agente anti-drogas da polícia de Los Angeles, virado dissidente ao constatar o profundo envolvimento dos serviços secretos dos EUA no tráfico de drogas mundial (fromthewilderness.net, The Lies about Taliban Heroin, 10.10.01). Envolvimento documentado em livros de autores norte-americanos como o professor universitário Alfred W. McCoy (The politics of Heroin: CIA Complicity in the Global Drug Trade); o ex-diplomata canadiano Peter Dale Scott (Drugs, Oil and War); Gary Webb (Dark Alliance) ou Douglas Valentine (The CIA as Organized Crime).

A saída formal das tropas terrestres EUA simboliza o fracasso da estratégia de envolvimento militar directo, com custos económicos e políticos incomportáveis. Mas seria ilusório pensar que represente o fim da subversão imperialista no Afeganistão e na região. Tentarão reagrupar forças para enfrentar os novos «inimigos principais» dos EUA/NATO. São de esperar operações aéreas, de tropas especiais e de bandos ao estilo ISIS, na esperança que o caos e a desintegração do país atinjam os vizinhos: Irão, China, Rússia. Está nas mãos dos povos da região pôr definitivamente fim à ingerência imperialista.

Fonte: https://www.avante.pt/pt/2485/opiniao/164737/Pela-calada.htm

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