Por trás do apelo de Xi Jinping a um regresso ao marxismo

Fred Goldstein*    30.Ago.13    Outros autores

«Quando Xi exorta os/as membros do Partido a serem leais ao comunismo e a estudar o «socialismo com características chinesas», o que não reconhece é a relação entre a política e a economia. É um princípio fundamental do marxismo que no final, a economia determina a política – e também a moral, a consciência social, a legalidade e a ideologia».

O presidente da República Popular da China, Xi Jinping, fez declarações que procuram travar a erosão dos valores socialistas que se generalizaram na China.

O Press Trust da Índia informou em 1 de Julho que «os funcionários do Partido Comunista da China devem afastar a obsessão dos números do PIB para obter promoções e regressar aos princípios do marxismo, que sofreu uma crise ideológica no decurso das reformas do paísi Jinping instou os/as 85 milhões de membros do Partido Comunista da China (PCC) a trabalhar duramente e a servir o povo com entusiasmo para “garantir que a cor vermelha da China não mude”».

Xi, que também é Secretário-geral do PCC, fez estas declarações na véspera do 92º aniversário da fundação do Partido. Em 11 de Julho visitou Xibaipo na província de Hebei, onde os líderes do Partido Comunista da China estiveram desde Maio de 1948 até princípios de 1949, enquanto se preparavam para tomar o poder e converter-se no partido governante da China.

De acordo com Xinhua, Xi disse que «as observações do defunto líder chinês Mao Zedong sobre o estilo de trabalho dos membros do Partido antes da fundação da nova China em 1949 ainda têm um enorme alcance a nível ideológico e histórico».

«Numa importante reunião do PCC em Março de 1040», continuou Xinhua, «Mao exortou todo o Partido a levar por diante decididamente o estilo de trabalho, de serem modestos e prudentes, ao mesmo tempo que se previne contra a vaidade e a impetuosidade e decididamente levar por diante o estilo de trabalho duro e levar uma vida simples».

«Qualificando a história da China revolucionária como o “melhor nutriente”, Xi disse que estudando e recordando essa história pode trazer “energia positiva” aos e às membros do partido».

Xinhua parafraseou Xi, dizendo que «o povo deve ser incentivado a cuidar do PCC e a ser guiado para exercitar o seu dever de supervisão».

O artigo de Press Trust citou Xi dizendo que «os quadros do partido devem ser firmes seguidores dos ideais comunistas, verdadeiros aderentes do marxismo e devotos lutadores pelo socialismo com características chinesas».

O PTI continuou a citar Xi: «a integridade de um funcionário do Partido não crescerá com os anos de serviço e a promoção, mas com os persistentes esforços para se disciplinar a si-mesmo e estudar os clássicos marxistas e as teorias do socialismo com características chinesas, disse Xi».

Estes não foram discursos pronunciados uma única vez. São parte de uma campanha para tentar restabelecer a reputação do Partido, estimular uma base ideológica pública. A campanha começou em Abril de 2013, como campanha contra a corrupção, pouco depois de Xi ter assumido a presidência. Naquele momento era conhecido principalmente por uma consigna contra os quatro partes fortes» para os funcionários, o quer dizer o fim dos sumptuosos banquetes e outras indulgências. Agora está a colocar-se no contexto da renovação ideológica marxista.

A campanha desenvolveu-se passo a passo até há pouco, com relatórios diários na imprensa do governo chinês sobre a realização da «linha de massas» e com consignas como «das massas para as massas».

Tdas as 31 regiões a nível provincial, os órgãos do governo central e as organizações populares estão preparadas para convocar conferências de trabalho, para levar a cabo uma campanha educativa, atacando os estilos de trabalho indesejáveis, tais como «o formalismo, a burocratização, o hedonismo e a extravagãncia». Isto é parte da campanha anti-corrupção lançada por Xi.

Xi promove a rectificação do estilo de trabalho apelando á auto-purificação, auto-perfeição, auto-renovação e auto-progresso».

Uma questão de «sobrevivência ou extinção» para o PCC

Nu ma contundente declaração numa reunião do Comité Central em 18 de Junho, fazendo um apelo para lançar a totalidade da campanha, Xi expõe muito claramente os riscos. Xinhua reportou: «”Ganhar ou perder o apoio do povo é um assunto que respeita muito claramente à sobrevivência ou extinção do PCC”, disse Xi, fazendo finca-pé em que a linha de massas, ou a promoção das relações com o povo é o sustento do partido».

A mesma mensagem falou de «unha com carne» com o povo e fez um apelo para integrar no partido mais trabalhadores/as com conhecimento das bases e das condições sociais.

Li Junnu, um ex vice-presidente da Escola do Comité central do Partido declarou à Xinhua: «Manter estreitos vínculos com as massas é a maior vantagem política do Partido, enquanto que o isolamento do povo é o maior perigo que enfrenta o PCC» (Xinhua, 18 de Junho).

Recorde-se que na primeira viagem de Xu após assumir a Presidência em Março de 2013, foi a província de Guangdong onde proferiu uma palestra perante um grupo do Partido e advertiu sobre os perigos na China de um desenvolvimento do tipo do de Gorbachev. Falou seriamente sobre como o Partido Comunista da União Soviética foi derrotado e o socialismo completamente destruído. O destino a longo prazo do Partido é indubitavelmente uma das preocupações de Xi e dos seus colaboradores.

Observando tudo isto tem de concluir-se que se trata de uma séria tentativa de reverter os efeitos de três décadas de erosão moral socialista sob o impacto dos avanços capitalistas e toda a decadência, corrupção e imoralidade do mercado que os exploradores, nacionais e internacionais, aportam juntamente com o apetite pelos lucros.

A corrupção massiva é a norma sob o capitalismo. E estas normas tornaram-se omnipresentes em toda a China socialista, socavando seriamente a consciência da sociedade e gerando o cinismo e a alienação entre os/as trabalhadores/as e os/as camponeses/as.

A reputação do Partido ficou seriamente abalada, especialmente a nível local e provincial. Houve dezenas de milhares de «incidentes de massas» anualmente, referidos pelo próprio governo. Incluem camponeses/as protestando por as suas terras estarem a ser vendidas aos promotores imobiliários; trabalhadores e trabalhadoras protestam contra os empregadores que violam os seus direitos; protestos contra a contaminação e contra outros agravos.

Nesta campanha liderada por Xi para combater a decadência política e social provocada pelas concessões ao capitalismo e ao imperialismo, a liderança está a evocar recordações e associações com o período heróico da Revolução Chinesa.

É notável que a a Xinhua, sem dúvida com o acordo e talvez com o conselho de Xi, se refira de forma muito favorável a Mao como a autoridade na prescrição do «trabalho duro» e da «vida simples» como a prática correcta dos quadros. A referência ao estudo da história revolucionária da China como «alimento» de fortalecimento do Partido é uma lufada de ar fresco. Falar da «linha de massas», «das massas para as massas» e de «servir o povo com alma e coração» - várias das receitas para a auto-correcção e reflexão – são referências claras às primeiras etapas da Revolução Chinesa.

O líder está a evocar a época anterior mais revolucionária, para advertir os elementos corruptos e para inspirar as massas.

Interesses burocráticos arreigados devem combater-se a partir de baixo

Esta campanha é indubitavelmente um passo louvável quanto às suas intenções, e esperemos que traga resultados positivos. Mas há profundas contradições e limitações na campanha que devem ser superadas para alcançar os seus objectivos.

Há interesses burocráticos no Partido que estão ligados a funcionários do governo e aos que apostam no capitalismo, os que não abandonarão as suas posições apenas com base em apelos morais ou em pressão social. Encontrarão mil maneiras de eludir ou obstruir a campanha, enquanto esta se basear no cumprimento voluntário.

Estes interesses arreigados devem ser combatidos. E a forma mais segura e mais confiável de lutar contra eles é aliar as massas a esta luta. Sem isso, a campanha será severamente limitada.
Os funcionários corruptos devem ser denunciados. E isto não pode fazer-se a partir de cima. Deve vir de baixo, das massas que estão sujeitas ao abuso oficial, que conhecem em primeira mão quem são os corruptos, quais os oportunistas, quais os que estão nisso sozinhos e quais os que estão a colaborar com os proprietários ou os promotores imobiliários e os empresários, quais os que violam as normas que protegem os interesses do povo, quais os que tratam o povo com desprezo, e assim sucessivamente.

É irónico que Bo Xilai, um popular ex-dirigente do Partido e membro do Bureau Político responsável pela província de Chongqing, apodreça agora na cadeia porque foi perseguido pela actual direcção. Entre outras coisas que o fizeram cair em desgraça perante esta direcção foi ter feito um apelo ás massas em Chongqing para que denunciassem os funcionários, empresários e funcionários corruptos do Partido. Bo travou uma dura campanha para julgar e encarcerar estes elementos, como parte da sua campanha contra o caminho para o capitalismo. E Bo tentou restaurar a cultura maoista.

Ler os clássicos marxistas e popularizar a ideia de permanecer leal ao comunismo é um programa sádio e de limpeza ideológica. Quanto mais largamente for implementado, maior será o benefício para as forças socialistas chinesas.

Mas é necessário muito mais que a leitura para superar os pragmáticos, os oportunistas e os capitalistas a que foi permitida a entrada no Partido por Zian Zemin em 1992. O marxismo afirma que o ser determina a consciência. Se alguns indivíduos podem reeducar-se a si-mesmos, as amplas camadas de funcionários privilegiados não o farão voluntariamente. Terá de haver uma luta. Talvez a direcção de Xi a tenha previsto e tenha um plano para romper a resistência dos elementos recalcitrantes. Isso iria no bom caminho.

A economia determina a política

Mas há um outro problema mais fundamental. A existência de um escandaloso privilégio dentro do Partido. No princípio da Revolução Bolchevique, Lenine e os seus colaboradores instituíram a «lei do máximo», seguindo o exemplo da Comuna de paris. Nenhum/a membro do partido podia ganhar mais que os trabalhadores/as melhor pagos.

Tratava-se de uma medida desenhada precisamente para evitar o privilégio e a sua acompanhante, a corrupção. Foi o abandono desta práctica e o crescimento das desigualdades que constituiu um dos factores decisivos que levaram á alienação dos trabalhadores/as soviéticos/as e ao declive da direcção do partido soviético, tornando a URSS vulnerável à contra-revolução capitalista, que vinha de todos os lados sob a pressão do imperialismo. O privilégio na China sob o regime do chamado «socialismo de mercado» está à vista. Aplaude-se como um sinal de realização não tanto no partido mas no conjunto da sociedad. A desviou-se para muito longe das normas socialistas e envolveu-se nas normas do capitalismo.

Quando Xi exorta os/as membros do Partido a serem leais ao comunismo e a estudar o «socialismo com características chinesas», o que não reconhece é a relação entre a política e a economia. É um princípio fundamental do marxismo que no final, a economia determina a política – e também a moral, a consciência social, a legalidade e a ideologia.

«O socialismo com características chinesas» é uma frase cujo conteúdo é, na realidade, uma China socialista a colaborar com os capitalistas nacionais e internacionais. Mas esta é uma aliança totalmente antagónica – uma aliança na qual o lado capitalista tenta destruir o lado socialista.

Além de ser afectado pela propagação de capitalistas privados – que são corruptos e corruptores – o sector socialista, as empresas estatais, o sistema bancário, e os planificadores adoptaram modelos de mercado capitalista. Isto é uma grande fonte de corrupção dentro do próprio Estado.

Todavia, Xi não declarou abertamente o seu programa económico nem tomou qualquer posição pública sobre a orientação económica do Primeiro-ministro Li Keqiang. Pede-lhe a redução do papel do governo central na economia, incluindo a redução do papel das empresas estatais, o fim do uso de estímulos económicos para ajudar a economia, o aumento do papel das pequenas e médias empresas privadas na economia chinesa, e ampla abertura do investimento estrangeiro nas finanças e outras áreas cruciais.

De facto, no ano passado, Li foi co-patrocinador, juntamente com o Banco Mundial de um longo e detalhado relatório intitulado «China 2030». Este era um plano para socavar profundamente as restantes estruturas fundamentais do socialismo chinês – a planificação governamental, as empresas estatais e o controlo financeiro e económico central pelo Partido Comunista.

O próprio Xi é um dedicado defensor do chamado «socialismo de mercado». Socialismo de mercado significa socialismo ao lado de, e contaminado por, o capitalismo. A procura gananciosa de lucros e de benefícios individuais que caracteriza o capitalismo permeou a China e degradou o espírito socialista.

Os direitos e os benefícios da classe operária e dos/as camponeses/as a postos de trabalho, terra, educação, saúde, habitação que eram o cimento da revolução de 1949, foram abandonados pela direcção de Deng e as direcções posteriores.

Isso esta a repercutir-se agora na forma de alienação das massas. Xi, para seu crédito, vê isto como uma ameaça ao Partido e à base que resta de socialismo na China.

Mas a direcção de Xi está a combater o sintoma sem atacar a doença: a penetração capitalista na economia e nos costumes sociais, a ideologia e o próprio centro do espírito socialista da Revolução Chinesa.

Talvez a tentativa de reverter esta onda reacionária de corrupção e burocracia conduza a maiores lutas nas quais as massas possam intervir e agir por conta própria e para seu benefício.

Uma coisa, no entanto é certa: a política de luta contra a corrupção, e as reformas anti-burocráticas por um lado e a economia capitalista de mercado por outro são completamente opostas.

* Membro do Secretariado do CC do Partido Worker’s World

Este texto foi publicado no Worker´s World

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