Por trás dos votos em Obama e Rodham Clinton

Workers World*    28.Ene.08    Outros autores

“As eleições presidenciais permanecem firmemente nas mãos da classe dirigente e dos seus políticos dos dois grandes partidos do capitalismo, os Republicanos e os Democratas. O desfecho das eleições depende estreitamente do montante de dinheiro conseguido pelos candidatos e deixa o vencedor ou a vencedora em dívida para com os doadores da classe dirigente”

A surpreendentemente folgada vitória de Barack Obama em Iowa e o seu segundo lugar logo atrás de Hillary Rodham Clinton nas primárias de New Hampshire puseram a campanha do senador Afro-Americano de Illinois no centro da cena política dos EUA e puseram-no lado a lado com Clinton. Os seus resultados são ainda mais impressionantes porque ocorrem em estados fracamente povoados de esmagadora maioria branca a qual não representa a grande cidade nem os centros populacionais suburbanos do país. Com estes embates eleitorais mostrando que um largo número de jovens brancos são entusiásticos apoiantes de Obama, dezenas de milhões de pessoas que não acreditavam que fosse possível que um homem negro pudesse ser eleito presidente nos EUA racistas podem agora pensar que Obama pode ser o primeiro.

Nada disto contraria as verdades básicas acerca das eleições americanas. As eleições presidenciais permanecem firmemente nas mãos da classe dirigente e dos seus políticos dos dois grandes partidos do capitalismo, os Republicanos e os Democratas. O desfecho das eleições depende estreitamente do montante de dinheiro conseguido pelos candidatos e deixa o vencedor ou a vencedora em dívida para com os doadores da classe dirigente. Clinton e Obama foram os que conseguiram maiores somas de dinheiro, ultrapassando mesmo os candidatos Republicanos. Todos os mais proeminentes candidatos dos dois partidos têm sido firmes defensores dos interesses imperialistas dos EUA e do grande capital ao longo das suas carreiras, continuam a sê-lo, e pode prever-se que continuarão a sê-lo no futuro.

As grandes audiências de Obama mostram já algumas lições acerca do estado de espírito da população. Como a percentagem de população branca de Iowa é de pelo menos 92 por cento e a de New Hampshire é de 94 por cento, estes estados dizem pouco a respeito dos votantes não brancos, que só se farão ouvir em larga escala em 19 e 26 de Janeiro na Carolina do Sul, em 29 de Janeiro na Florida e depois em 5 de Fevereiro, na chamada Super Terça Feira em que se realizarão primárias em mais de 20 estados.

A primeira lição vem da larga audiência dos Democratas em Iowa, dupla da dos Republicanos e quase dupla da dos Democratas em 2004. Uma larga proporção dos participantes eram jovens votantes. A elevada participação nos “caucuses” dos Democratas de pessoas intitulando-se “independentes”, ou seja, não filiados em nenhum dos partidos, reflecte a sua profunda repulsa pelo bando de Bush.

Muitos analistas “pós-caucus” – incluindo Obama e o candidato John Eduards, que ficou em segundo lugar em Iowa e num distante terceiro lugar em New Hampshire – disseram que Iowa mostrou que as pessoas anseiam por mudança e que eles eram os candidatos que mais representam a mudança. A desilusão com o bando de Bush e a percepção das dificuldades económicas que se avizinham causaram alguma deslocação do eleitorado para a esquerda.

Os que votaram Obama parecem estar a querer ver para além do seu programa. John Eduards tem um programa que é mais a favor dos trabalhadores, dos cuidados de saúde e anti-guerra que o programa de Obama. O programa doméstico de Hillary Clinton é também mais progressista que o de Obama, embora muitos activistas anti-guerra a identifiquem com o seu anterior apoio à guerra no Iraque e achem que ela dificilmente vai cortar com tal apoio. A percepção que os votantes têm dos candidatos não está necessariamente ligada às promessas escritas ou faladas dos candidatos.

A antiga membro da Câmara dos Representantes, Cynthia McKinney, que promove uma campanha progressista independente no Partido da Reconstrução, foi entrevistada a seguir aos “caucuses” de Iowa. Ela é muito crítica em relação à equipa e ao programa de Obama, que ela considera que poderá vir a ter um impacto negativo na luta pelos direitos dos Negros. Ela sublinha que o principal conselheiro de Obama para a política externa é Zbignew Brzezinski, o expoente máximo da guerra fria no Partido Democrata.

É certo que os assessores para a política externa de Hillary Clinton, como Madeleine Albright e Richard Holbrooke, são as pessoas que planearam e executaram a guerra contra a Jugoslávia, e em relação a isso McKinney não poupa nem Hillary nem Eduards. Mas em relação a Obama, McKinney nota também que ele não faz nada para ajudar, por exemplo, as pessoas deslocadas de Nova Orleães pelo furacão Katrina.

Não há dúvida de que uma campanha de Obama com aparente sucesso não deixará de acender o ódio dos racistas mais virulentos dos EUA. Tal sucederá mesmo se a maioria da classe dominante estiver satisfeita de o ter a concorrer e até mesmo a ganhar. Hillary, que esteve exposta aos olhos do público durante 15 anos, acendeu já o ódio dos piores sexistas e chauvinistas. Seria inocência pensar que o reaccionário Partido Republicano irá fazer a campanha sem tentar manipular sentimentos retrógrados de racismo e/ou sexismo.

Com uma candidatura de Obama, a classe trabalhadora e as organizações revolucionárias terão de estar atentas ao impacto do racismo na campanha eleitoral, mesmo se a esquerda não se identifica nem com Obama nem com os Republicanos. A esquerda terá também de ajustar a sua abordagem para promover uma activa intervenção da população no processo eleitoral, especialmente se ocorrer uma crise económica ou de guerra durante a eleição.


* Editorial de Workers World, jornal operário norte-americano, publicado em 9 de Janeiro de 2008

Tradução de Francisco Lopes Pereira

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