Porque está a falhar a guerra económica dos EUA contra a China

A guerra económica dos EUA contra a China está a falhar porque os EUA se enganaram
redondamente na avaliação dos seus efeitos. Esperavam com ela deter o seu próprio declínio
económico. O resultado combinado desse erro de avaliação e da forma como EUA e China
enfrentaram a crise da Covid-19 está traduzido em previsões do próprio FMI para 2021: a
China será responsável por 51% do crescimento mundial, os EUA por apenas 3%.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump - apoiado pela maior parte do establishment norte-americano - aprofundou o ataque do governo dos Estados Unidos contra a economia chinesa. A “guerra comercial” parecia articular-se bem com a base política de Trump, que de alguma forma esperava que um ataque económico contra a China iria milagrosamente criar-lhes prosperidade económica. Em 2018, Trump impôs tarifas sobre vários produtos chineses no valor de mais de 200 milhares de milhões de dólares. Depois, a administração Trump lançou-se ao ataque de empresas chinesas de alta tecnologia, tais como Huawei, ZTE, ByteDance (os proprietários da TikTok) e WeChat.
Nada disso funcionou muito bem. Trump enfrenta decisões jurídicas negativas sobre a sua “guerra comercial” e a economia dos Estados Unidos cai para território negativo. Não é apenas Trump. Tanto o Partido Republicano como o Partido Democrata estão comprometidos com uma política que não provocará a rendição da China às ambições dos EUA. Falta saber se os EUA podem ou não voltar atrás nesta orientação política e iniciar um diálogo com a China; fazê-lo seria, evidentemente, desejável.

Contrariedades jurídicas

Processos legais na Organização Mundial do Comércio (OMC) e no Tribunal Distrital dos EUA para o Distrito Norte da Califórnia concluíram contra a administração Trump. É um revés para a orientação política do governo dos EUA.
Desde que Trump anunciou as tarifas contra uma ampla gama de importações chinesas, o governo chinês assumiu formalmente o assunto por intermédio do mecanismo de disputa da OMC. Após considerável estudo, a OMC apresentou um veredicto. Em 15 de Setembro de 2020, um painel de três individualidades da OMC concluiu que os EUA haviam violado as disposições do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio de 1994 (GATT), o tratado que estabeleceu a OMC. Esta foi uma séria derrota para os Estados Unidos; a administração Trump tem 60 dias para apresentar um recurso.
O governo dos Estados Unidos não gosta de perder. O representante de Comércio dos EUA, Robert Lighthizer, divulgou uma declaração condenando a decisão. “Este relatório do painel”, disse Lighthizer, “confirma aquilo que a administração Trump vem dizendo há quatro anos: a OMC é completamente inadequada para impedir as prejudiciais práticas tecnológicas da China”. Os EUA paralisaram a capacidade de a OMC emitir um veredicto vinculante final, uma vez que o tribunal de apelação da OMC não está a funcionar devido à recusa de Washington de aceitar novos membros para o integrarem.
Em 1994 os EUA pressionaram a criação da OMC, redigiram muitas das suas regras e trouxeram a China para a OMC em 2001. Como os EUA se sentiam no comando do mundo, a OMC trabalhou para promover seus interesses; agora que a economia da China cresceu em força, os EUA consideram um fardo as regras da OMC. O livre comércio só é útil para governos como o dos EUA quando é benéfico para as suas empresas; de outro modo, o princípio do livre comércio facilmente é rejeitado.
Mesmo dentro dos EUA, há dúvidas sobre as políticas de Trump. Um juiz assinou uma providência cautelar para deter a tentativa de Trump de impedir residentes dos EUA de usarem o WeChat como meio de comunicação com pessoas na China. A pressão sobre o TikTok pode também dissipar-se após as eleições nos EUA.

Divergência Económica

Um analista sênior do Federal Reserve Bank de St. Louis diz que o impacto económico nos EUA do “caótico” bloqueio criará grandes transtornos durante pelo menos uma geração. É improvável, diz ele, que os EUA sejam capazes de “recuperar facilmente”. Quando questionado sobre a recuperação da China, disse que até agora as coisas parecem muito melhores. Mas qualquer dependência chinesa persistente em relação ao mercado dos EUA terá um impacto negativo no crescimento da China.
A China quebrou no fundamental a cadeia da infecção COVID-19, embora as autoridades permaneçam vigilantes a novos surtos; nos EUA, é difícil falar numa segunda onda uma vez que a primeira onda ainda não atingiu o pico.
O que isto significa é que tão cedo como o segundo trimestre de 2020, o produto interno bruto (PIB) da China aumentou para 3,2 por cento relativamente ao nível do ano anterior; entretanto, o PIB dos EUA caiu 9% relativamente ao nível do ano passado. A China está já em vias de recuperar, enquanto os EUA nem mesmo sabem se a infecção atingiu ou não o pico.
Os EUA e a China publicam medidas algo diferentes da produção industrial, mas o contraste é tão marcante que não deixa dúvidas quanto às tendências relativas. A China publica dados para o valor agregado total por empresas industriais, que em Agosto de 2020 foi 5,6 por cento superior ao ano anterior, enquanto, em contraste, a produção industrial dos EUA em Agosto de 2020 foi 7,7 por cento inferior ao ano anterior. O nível de produção industrial da China era mais elevado do que no ano anterior, enquanto o dos EUA estava muito abaixo.
Como resultado da recuperação económica muito mais dinâmica da China, o seu comércio está a recuperar muito mais rapidamente do que o dos Estados Unidos. Isso é claro para as importações - que para outros países são exportações suas. Em Julho, o último mês para o qual há dados tanto dos EUA como da China, as importações da China quase recuperaram os níveis pré-pandémicos - sendo apenas cerca de 1 por cento mais baixas do que no ano anterior. Em contraste, as importações dos EUA ainda estavam cerca de 11 por cento abaixo do ano anterior.
O resultado dessas tendências é que a China será o centro da recuperação económica mundial da recessão COVID-19 - enquanto os EUA não contribuirão com quase nada para isso.
As últimas projecções globais do FMI indicam que em 2020-2021 a China será responsável pela maioria absoluta - 51 por cento - do crescimento mundial, e os EUA por apenas 3 por cento - e as mais recentes previsões do FMI para os EUA indicam que isso pode estar a exagerar o seu crescimento. A maioria dos outros contribuintes para o crescimento mundial, de acordo com a análise do FMI, serão as economias asiáticas que têm fortes relações comerciais com a China - Coreia do Sul, Indonésia, Filipinas, Vietname e Malásia.
Para analisar a situação global, a repercussão da crise da COVID-19 tem um impacto muito dramático sobre o padrão de desenvolvimento da economia mundial dividida entre economias em desenvolvimento e avançadas. Os dados das projecções do FMI mostram que em 2021 o PIB nas economias avançadas ainda estará 3,6 por cento abaixo do seu nível de 2019, enquanto nas economias em desenvolvimento será 2,7 por cento acima de 2019. Isto representa uma muito importante distribuição do crescimento económico mundial em favor de economias em desenvolvimento e em desfavor das avançadas.
As estimativas de Abril do FMI indicam que em 2020-2021 mais de 95 por cento do crescimento económico mundial ocorrerá nas economias em desenvolvimento - os dados do banco de dados World Economic Outlook de Abril do FMI significam que projecta que 51 por cento do crescimento mundial ocorrerá na China e 44% em outras economias em desenvolvimento. Menos de 5% do crescimento económico mundial ocorrerá em economias avançadas.
Ao tentar reorientar o comércio mundial da China e dos Estados Unidos, os EUA estão, portanto, a tentar enclausurar outros países na subordinação ao seu muito baixo crescimento próprio, em vez de se associarem à economia de crescimento muito mais rápido da China. Isto é fortemente prejudicial para as economias de outros países, evidentemente.

Este artigo foi produzido por Globetrotter.

Fonte: https://mronline.org/2020/10/07/why-americas-economic-war-on-china-is-failing/

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