Porque está de novo na ordem do dia a ascensão do fascismo

John Pilger    07.Dic.18    Outros autores

Este importante texto foi publicado em 2015, mas não só não perdeu actualidade como está, se possível, mais actual ainda. A ameaça fascista surge em todos os continentes. E o elo que a une é a acção do imperialismo, apoiando e incentivando tudo o que existe de mais reaccionário, obscurantista e explorador à face da Terra.

O recente 70º aniversário da libertação de Auschwitz [ver data do artigo – N.T.] foi um lembrete do grande crime do fascismo, cuja iconografia nazi se encontra gravada na nossa consciência.

O fascismo está preservado como história, com filmagens tremeluzentes das camisas negras em passo de ganso e a sua terrível e clara criminalidade. No entanto, nas mesmas sociedades liberais cujas elites belicistas nos incitam a não esquecer, o crescente perigo de uma nova espécie de fascismo é ocultado, visto que se trata do seu fascismo.

Diziam os juízes do Tribunal de Nuremberga em 1946 que “Iniciar uma guerra de agressão… é não apenas um crime internacional, como o supremo crime internacional, distinguindo-se de outros crimes de guerra apenas por conter em si o mal acumulado da totalidade desses crimes.”

Se os nazis não tivessem invadido a Europa, Auschwitz e o Holocausto não teriam acontecido. Se os Estados Unidos e satélites não tivessem iniciado a guerra de agressão no Iraque em 2003, estariam ainda vivas hoje quase 1 milhão de pessoas e o Estado Islâmico, ou ISIS, não nos teria escravos da sua selvajaria. São eles a progénie do moderno fascismo, alimentado pelas bombas, banhos de sangue e mentiras que constituem o teatro surrealista conhecido como “notícias”.

Tal como no fascismo dos anos 30 e 40, são propaladas grandes mentiras com a precisão de um metrónomo graças a meios omnipresentes e repetitivos e à sua virulenta censura por omissão. Olhe-se para a catástrofe na Líbia.

Em 2011, a NATO lançou 9.700 “operações punitivas” contra a Líbia, das quais mais de um terço eram destinadas a alvos civis. Foram utilizadas ogivas de urânio: as cidades de Misurata e Sirte sofreram bombardeamentos em tapete. A Cruz Vermelha identificou valas comuns e a UNICEF relatou que “a maior parte [das crianças mortas] tinha menos de dez anos de idade”.

A sodomização pública do presidente líbio Muhammar Khadafi com uma baioneta “rebelde” foi festejada pela então Secretária de Estado dos EUA Hillary Clinton com as palavras “Chegámos, vimos e ele morreu.” O seu assassínio, como a destruição do seu país, foi justificada por uma grande mentira habitual: estaria a planear um “genocídio” contra o seu próprio povo. “Sabíamos… que se esperássemos mais um dia,” disse o presidente Obama, “Bengasi, uma cidade do tamanho de Charlotte, podia sofrer um massacre que teria reverberado na região e manchado a consciência do mundo.”

Tratou-se de uma invenção das milícias islamistas prestes a serem derrotadas pelas forças do governo líbio. Disseram à Reuters que haveria um “verdadeiro banho de sangue, um massacre como se viu no Ruanda”. Relatada a 14 de Março de 2011, a mentira proporcionou a primeira centelha para o inferno da NATO, descrito por David Cameron como “intervenção humanitária”.

Secretamente abastecidos e treinados pela SAS britânica, muitos dos “rebeldes” formariam o ISIS, cuja última oferta de vídeo mostra a decapitação de 21 trabalhadores cristãos coptas apanhados em Sirte, a cidade destruída em seu nome pelos bombardeiros da NATO.

Para Obama, Cameron e Hollande, o verdadeiro crime de Khadafi foi a independência económica da Líbia e a sua intenção declarada de deixar de vender as maiores reservas de petróleo de África em dólares americanos. O petrodólar é um pilar do poder imperial americano. Khadafi planeou com audácia subscrever uma moeda africana comum com base no ouro, estabelecer um banco pan-africano e promover a união económica dos países pobres com recursos valorizados. Quer se concretizasse ou não, o próprio conceito era intolerável para os EUA na altura em que se preparavam para “entrar” em África e subornar os governos africanos com “parcerias” militares.

A seguir ao ataque da NATO a coberto de uma resolução do Conselho de Segurança e segundo escreveu Garikai Chengu, Obama “confiscou 30 mil milhões de dólares do Banco Central da Líbia que Khadafi tinha reservado para o estabelecimento de um Banco Central Africano e uma moeda africana com base no ouro”.

A “guerra humanitária” contra a Líbia traçou um modelo dirigido aos corações liberais ocidentais, especialmente nos media. Em 1999, Bill Clinton e Tony Blair mandaram a NATO bombardear a Sérvia porque, conforme mentiram, os sérvios estavam a cometer um “genocídio” contra a etnia albanesa na província secessionista do Kosovo. David Scheffer, embaixador plenipotenciário americano para os crimes de guerra [sic], alegou que cerca de “225.000 homens de etnia albanesa de idades entre 14 e 59 anos” podem ter sido assassinados.” Tanto Clinton como Blair evocaram o Holocausto e o “espírito da Segunda Guerra Mundial”. Os heroicos aliados ocidentais eram o Exército de Libertação do Kosovo (KLA), cujo palmarés de crimes foi posto de lado. O Secretário dos Estrangeiros britânico, Robin Cook, indicou que o contactassem a qualquer hora pelo telemóvel.

Quando o bombardeamento da NATO terminou e muitas das infraestruturas sérvias estavam em ruínas, junto com escolas, hospitais, mosteiros e a estação nacional de TV, várias equipas forenses internacionais desceram ao Kosovo para exumarem as provas do “holocausto”. O FBI não conseguiu encontrar nenhuma vala comum e regressou a casa. A equipa forense espanhola fez o mesmo, com o seu chefe furiosamente a denunciar “a pirueta semântica das máquinas de propaganda bélica”. Um ano depois, o tribunal das Nações Unidas para a Jugoslávia anunciou a contagem final dos mortos no Kosovo: 2.788. Estavam incluídos combatentes de ambos os lados e sérvios e ciganos assassinados pelo KLA. Não houve qualquer genocídio. O “holocausto” era uma mentira. O ataque da NATO tinha sido baseado numa fraude.

Por detrás da mentira, havia um objetivo sério. A Jugoslávia era uma federação multiétnica única e independente que se tinha mantido como uma ponte política e económica durante a Guerra Fria. A maior parte das suas maiores instalações industriais eram propriedade pública. Isso não era aceitável para a Comunidade Europeia em expansão, especialmente a recentemente unificada Alemanha, que tinha iniciado um movimento para leste para apanhar o seu “mercado natural” nas províncias jugoslavas da Croácia e Eslovénia. Na altura em que os europeus se encontraram em Maastricht em 1991 para traçar os seus desastrosos planos da Eurozona, foi lançado um acordo secreto: a Alemanha reconhecia a Croácia. A Jugoslávia ficou condenada.

Em Washington, os EUA viram serem negados empréstimos pelo Banco Mundial â economia jugoslava em apuros. A NATO, então uma quase defunta relíquia da Guerra Fria, foi reinventada como executora imperial. Na “conferência de paz” do Kosovo em 1999 em Rambouillet na França, os sérvios foram sujeitos à táctica dúplice do executor. O acordo de Rambouillet incluía um Anexo B secreto que a delegação americana introduziu no último dia. Nele se exigia a ocupação militar da Jugoslávia, um país com amarga memória da ocupação nazi, a instalação de uma “economia de livre mercado” e a privatização de todos os bens estatais. Nenhum país soberano poderia assinar isso. Rapidamente se seguiu o castigo: as bombas da NATO caíram sobre um país indefeso. Era o precursor das catástrofes no Afeganistão, no Iraque, na Síria, na Líbia e na Ucrânia.

Desde 1945, mais de um terço dos membros das Nações Unidas (69 países) sofreram parte ou a totalidade do seguinte às mãos do moderno fascismo americano: ou foram invadidos, ou os seus governos derrubados, ou os seus movimentos populares suprimidos, ou as suas eleições suprimidas, ou o seu povo bombardeado e a sua economia despida de qualquer proteção, ou as suas sociedades sujeitas a um rígido cerco conhecido por “sanções”. O historiador britânico Mark Curtis calcula em milhões o número de mortos. Em todos os casos, esteve uma grande mentira por detrás.

“Hoje, pela primeira vez desde o 11 de Setembro, a nossa missão de combate no Afeganistão terminou. “Foram as palavras de abertura de Obama no discurso do Estado da União em 2015. De facto, 10.000 soldados e 20.000 contratados militares (mercenários) continuam no Afeganistão em missão indefinida. “A mais longa guerra da história americana está a chegar a uma conclusão responsável,” disse Obama. De facto, foram mortos mais civis no Afeganistão em 2014 do que em qualquer ano desde que a ONU fez registos. A maioria – civis e militares - foi aniquilada durante o tempo de Obama como presidente.

A tragédia do Afeganistão rivaliza com o crime épico cometido na Indochina. No seu muito citado e elogiado livro “O Grande Tabuleiro de Xadrez: A Primazia Americana e os seus Imperativos Geostratégicos”, Zbigniew Brzezinski, o padrinho das políticas americanas desde o Afeganistão até ao presente, escreve que, se a América quer controlar a Eurásia e dominar o mundo, não pode apoiar uma democracia popular, porque “a prossecução do poder não é um objetivo que comande a paixão popular… A democracia é inimiga da mobilização imperial.” Conforme a Wikileaks e Edward Snowden revelaram, a democracia está a ser usurpada por um estado de vigilância e policial. Em 1976, o então conselheiro de Segurança Nacional do Presidente Carter, Brzezinski, demonstrou este ponto negociando um golpe de morte na primeira e única democracia do Afeganistão. Quem conhece esta história vital?

Em 1960, houve uma revolução popular que varreu o país mais pobre do planeta, derrubando mais tarde os vestígios do regime aristocrático em 1978. O Partido Democrático do Povo do Afeganistão (PDPA) formou governo e declarou um programa de reformas que incluía a abolição do feudalismo, liberdade para todas as religiões, direitos iguais para as mulheres e justiça social para as minorias étnicas. Foram libertados mais de 13.000 presos políticos e os arquivos policiais publicamente queimados.

O novo governo introduziu cuidados médicos gratuitos para os mais pobres, aboliu a servidão e lançou um programa de alfabetização de massas. Para as mulheres, os ganhos foram inauditos. No final dos anos 80, metade dos estudantes universitários eram mulheres e as mulheres perfaziam quase metade dos médicos do Afeganistão, um terço dos funcionários públicos e a maioria dos professores. “Todas as raparigas podiam ir para o secundário e para a universidade”, lembrou a cirurgiã Saira Noorani, “podíamos ir para onde quiséssemos e vestir aquilo de que gostávamos. Costumávamos ir a cafés e ao cinema à sexta-feira ver o último filme indiano e ouvir as músicas novas. Tudo começou a correr mal quando os mujahidin começaram a ganhar. Matavam professores e queimavam escolas. Andávamos aterrorizadas. Era engraçado e triste pensar que eram esses os que o Ocidente apoiava.”

O governo do PDPA era apoiado pela União Soviética, ainda que, conforme o antigo secretário de Estado, Cyrus Vance, mais tarde tenha admitido, “não houvesse qualquer prova de cumplicidade soviética [na revolução]”. Alarmado com a crescente confiança nos movimentos de libertação por todo o mundo, Brzezinski decidiu que, se o Afeganistão tivesse êxito com o PDPA, a sua independência e progresso iriam constituir a “ameaça de um exemplo prometedor”.

A 3 de Julho de 1979, a Casa Branca autorizou secretamente apoio aos grupos tribais “fundamentalistas” conhecidos por mujahidin, programa que aumentou até mais de 500 milhões de dólares anuais em armas e assistência americana. O objectivo era derrubar o primeiro governo reformista secular do Afeganistão. Em Agosto de 1979, a embaixada americana em Cabul anunciou que “os superiores interesses dos Estados Unidos… serão servidos pelo seu fim [do governo PDPA], apesar de não interessar que contratempos tal signifique para as futuras reformas sociais e económicas no Afeganistão.”

Os mujahidin foram os antecessores da al-Qaeda e do Estado Islâmico. Incluíam Gulbuddin Hekmatyar, que recebeu da CIA dezenas de milhões de dólares em dinheiro. A especialidade de Hekmatyar era o tráfico de ópio e o lançamento de ácido na cara de mulheres que recusavam o uso do véu. Convidado para ir a Londres, foi elogiado pela primeira-ministra Thatcher como um “combatente da liberdade”.

Esses fanáticos poderiam ter ficado no seu mundo tribal não tivesse Brzezinski lançado um movimento internacional para promover o fundamentalismo islâmico na Ásia Central e assim minar a libertação política secular e “desestabilizar” a União Soviética, criando, tal como escreveu na sua autobiografia, “uns quantos muçulmanos agitados”. O seu grande plano coincidia com as ambições do ditador paquistanês general Zia ul-Haq para dominar a região. Em 1986, a CIA e a agência de espionagem do Paquistão ISI começaram a recrutar gente de todo o mundo para se juntarem à jihad afegã. O multimilionário saudita Osama bin Laden foi um deles. Operacionais que mais tarde haveriam de se juntar aos talibã e à al-Qaeda foram recrutados numa escola islâmica de Brooklyn, em Nova Iorque, e treinados militarmente no campo da CIA na Virgínia. Foi a chamada “Operação Ciclone”. O seu êxito foi celebrado em 1996, quando o último presidente PDPA do Afeganistão, Mohammed Najibullah, que antes tinha ido à Assembleia Geral da ONU pedir ajuda, foi enforcado num candeeiro de iluminação pelos talibã.

O “ricochete” da Operação Ciclone e dos “quantos muçulmanos agitados” foi o 11 de Setembro de 2001. A Operação Ciclone tornou-se a “guerra ao terrorismo”, na qual incontáveis homens, mulheres e crianças perderam a vida no mundo muçulmano, do Afeganistão ao Iraque, Iémen, Somália e Síria. A mensagem do promotor era e continua a ser: “Ou és por nós ou contra nós.”

O traço comum entre o fascismo passado e o presente é o assassínio em massa. A invasão americana do Vietnam tinha as suas “zonas de fogo livre”, as “contagens de corpos” e os “danos colaterais”. Na província de Quang Ngai, onde fiz reportagens, foram assassinados pelos EUA muitos milhares de civis (“chinocas”). Contudo, apenas é lembrado um massacre, em My Lai. No Laos e no Camboja, o maior bombardeamento aéreo da História deu origem a uma época de terror marcado hoje pelo espetáculo de crateras de bombas lado a lado que, do ar, parecem monstruosos colares. Este bombardeamento deu ao Camboja o seu próprio ISIS, liderado por Pol Pot.

Hoje, a maior campanha mundial de terror de sempre implica a execução de famílias inteiras, convidados em casamentos e pessoas fazendo luto em funerais. São vítimas de Obama. De acordo com o New York Times, Obama faz a sua seleção a partir de uma “lista de alvos” da CIA que lhe é apresentada todas as quintas-feiras na Situation Room da Casa Branca. Decide nessa altura, sem uma sombra de justificação legal, quem vai viver ou morrer. A sua arma de execução é o míssil Hellfire conduzido por uma aeronave sem piloto conhecida por drone. As vítimas são grelhadas e os seus restos espalham-se pela área como enfeites. Cada acerto é registado num ecrã de consola distante como um “crash”.

Escreveu o historiador Norman Pollock que “em vez de tropas em passo de ganso, faz-se a aparentemente mais inócua militarização da cultura total. E em vez do chefe histérico, temos o reformador apagado, feliz no seu trabalho de planeador e executor de assassínios, sempre sorridente.”

Unindo o velho e o novo fascismo está o culto da superioridade. “Acredito no excepcionalismo americano com todas as fibras do meu ser” disse Obama fazendo evocar as declarações de fetichismo nacionalista dos anos 30. Conforme o historiador Alfred W. McCoy notou, foi o admirador de Hitler Carl Schmitt que disse “soberano é aquele que decide a excepção.” Isto resume o americanismo, a ideologia que domina o mundo atual. Que se mantenha não reconhecida como ideologia predadora, resulta de uma lavagem ao cérebro igualmente não reconhecida. Insidiosa, não declarada, finamente apresentada como iluminismo natural, a sua ideia insinua-se em toda a cultura ocidental. Cresci num ambiente cinematográfico de glória americana, quase todo ele distorção da realidade. Não tinha qualquer ideia de ter sido o Exército Vermelho que destruíra a maior parte da máquina de guerra nazi com o custo de nada menos que 13 milhões de soldados. Por contraste, as baixas americanas, incluindo as do Pacífico, foram 400.000. Hollywood inverteu esta realidade.

A diferença é que agora as audiências no cinema são levadas a torcer-se com a “tragédia” dos psicopatas americanos matando pessoas em lugares distantes, quando o próprio presidente as mata pessoalmente. Símbolo da violência hollywoodesca, o actor e realizador Clint Eastwood foi nomeado este ano para um Óscar [ver data do artigo – N.T.] pelo seu filme “American Sniper”, que trata de um assassino legal louco. O New York Times descreve-o como “um filme de família patriótico que bateu todos os recordes de afluência nos primeiros dias”.

Não há filmes heroicos sobre a tendência da América para o fascismo. Durante a Segunda Guerra Mundial, a América (e a Grã-Bretanha) fizeram guerra aos gregos, que tinham combatido heroicamente contra o nazismo e resistiam à ascensão do fascismo grego. Em 1967, a CIA ajudou a chegar ao poder em Atenas uma junta militar fascista, tal como no Brasil e na maior parte da América Latina. Aos alemães e europeus de Leste que se conluiaram com a agressão e os crimes nazis contra a humanidade foi dada proteção segura nos Estados Unidos, muitos sendo apaparicados e os seus talentos recompensados. Werner von Braun foi o “pai” tanto da bomba de terror nazi V-2, como do programa espacial dos EUA.

Nos anos 90, enquanto as antigas repúblicas soviéticas, a Europa de Leste e os Balcãs se tornavam postos avançados da NATO, foi dada a sua oportunidade aos herdeiros de um movimento nazi da Ucrânia. Responsável pela morte de milhares de judeus, polacos e russos durante a invasão nazi da União Soviética, o fascismo nazi ucraniano foi reabilitado e a sua “nova vaga” saudada pelo apoiante como “nacionalistas”.

Este apoio atingiu o apogeu em 2014 quando o governo Obama esbanjou 5 mil milhões de dólares num golpe contra o governo eleito. As tropas de choque eram neonazis conhecidas por Sector Direita e Svoboda. Os chefes incluem Oleh Tyahnybok, que apelou à purga da “mafia judaico-moscovita e restante escumalha”, incluindo gays, feministas e os da esquerda política.

Estes fascistas fazem agora parte do governo do golpe de Kiev. O porta-voz do parlamento ucraniano, Andriy Parubiy, líder do partido do governo, é cofundador do Svoboda. Em 14 de Fevereiro, Parubiy anunciou que voava para Washington para obter “dos EUA armamento moderno e de alta precisão”. Conseguindo-o, isso passaria a ser visto pela Rússia como um ato de guerra.

«Marcha da Verdade» em Kiev. (RIA Novosti/Alexandr Maksimenko) © RIA Novosti

Nenhum dirigente ocidental se pronunciou sobre o renascimento do fascismo no coração da Europa, com exceção de Vladimir Putin, cujo povo perdeu 22 milhões com uma invasão nazi que chegou através das fronteiras da Ucrânia. Na recente Conferência de Segurança de Munique, a sub-Secretária de Estado de Obama para os Assuntos Europeus e Euro-asiáticos, Victoria Nuland, criticou os dirigentes europeus que se opunham ao armamento do regime de Kiev pelos Estados Unidos. Referiu-se ao ministro da Defesa alemão como “ministro do derrotismo”. Foi Nuland que supervisionou o golpe em Kiev. É mulher de Robert D. Kagan, uma luminária dirigente dos neoconservadores e cofundador do Projecto para o Novo Século Americano da ala de extrema-direita, e é antiga consultora de política externa de Dick Cheney.

O golpe de Nuland não correu conforme planeado. A NATO não conseguiu tomar a histórica e legítima base naval de águas quentes na Crimeia. A população predominantemente russa da Crimeia, ilegalmente anexada à Ucrânia em 1954 por Nikita Kruschev, votou esmagadoramente pelo retorno à Rússia, como tinha feito em 1990. O referendo foi voluntário, popular e com observadores internacionais. Não houve qualquer invasão.

Ao mesmo tempo, o regime de Kiev virou-se contra a população russa do Leste com a ferocidade de uma limpeza étnica. Instalando milícias neonazis à maneira das Waffen-SS, bombardearam e cercaram cidades e vilas. Usaram a fome como arma, cortando a eletricidade, congelando contas bancárias e interrompendo segurança social e pensões. Mais de um milhão de refugiados fugiram pela fronteira para a Rússia. Nos media ocidentais, foram apresentados como gente escapando da “violência” causada pela “invasão russa”. O comandante da NATO general Breedlove – cujo nome e comportamento devem ter sido inspirados pelo Dr. Strangelove de Stanley Kubrick – anunciou que havia 40.000 soldados russos “concentrados”. Numa época de fácil comprovação forense através de satélite, não mostrou qualquer prova.

Estas pessoas da Ucrânia de fala russa e bilingue, um terço da população, procuram desde há muito tempo uma federação que reflita a diversidade étnica do país e é autónoma e independente de Moscovo. A maior parte não é separatista, mas cidadãos que querem viver em segurança na sua terra, e opõe-se à tomada de poder em Kiev. A sua revolta e o estabelecimento de “estados” autónomos são uma reação aos ataques que lhes faz Kiev. Pouco disto tem sido explicado às audiências ocidentais.

Em 2 de Maio de 2014, 41 pessoas de etnia russa foram queimadas vivas nas instalações de um sindicato, com a polícia a assistir. O chefe do Sector Direita, Dmytro Yarosh saudou o massacre como “outro brilhante dia na nossa história nacional”. Nos media americanos e britânicos, isto foi anunciado como uma “tragédia sombria” resultante de “choques” entre “nacionalistas” (os neonazis) e “separatistas” (pessoas que reuniam assinaturas para um referendo sobre uma Ucrânia federal).

O New York Times enterrou a história tratando como propaganda russa os avisos sobre a política fascista e antissemita dos novos clientes de Washington. O Wall Street Journal acusou as vítimas – “Fogo mortal na Ucrânia provavelmente ateado pelos rebeldes, segundo o governo”. Obama felicitou a junta pela sua “contenção”.

Se Putin tem caído na provocação vindo em sua ajuda, o seu estatuto de “pária” no Ocidente justificaria a mentira de que a Rússia estava a invadir a Ucrânia. A 29 de Janeiro, o comandante-chefe militar da Ucrânia, general Viktor Muzhemko, quase que inadvertidamente rejeitou a justificação para as sanções americanas e europeias à Rússia quando enfaticamente afirmou numa conferência de imprensa: “O exército ucraniano não está a combater contra unidades regulares do exército russo”. Houve “cidadãos individuais” que eram membros de “grupos armados ilegais”, mas não houve qualquer invasão russa. Nada disto veio nas notícias. Em contrapartida, Vadim Prystaiko, ministro dos Estrangeiros de Kiev, apelou para a “guerra em toda a escala” contra uma Rússia detentora de armamento nuclear.

A 21 de Fevereiro, o senador James Inhofe, um republicano de Oklahoma, introduziu um projecto de lei autorizando o envio de armas americanas para o regime de Kiev. Na apresentação ao Senado, Inhofe utilizou fotografias que afirmou serem de tropas russas infiltrando-se na Ucrânia, mas que há muito foram denunciadas como falsas. Faz lembrar as fotografias falsas de Ronald Reagan da instalação soviética na Nicarágua e a prova falsa apresentada por Colin Powell na ONU sobre as armas de destruição massiva no Iraque.

A intensidade da campanha de calúnias contra a Rússia e o retrato do seu presidente como um vilão de pantomima não se parece com nada que eu tenha visto até agora como repórter. Robert Parry, um dos mais distintos jornalistas de investigação, que revelou o escândalo Irão-Contra, escreveu recentemente: “Nenhum governo europeu desde a Alemanha de Adolf Hitler tinha ousado enviar tropas de choque nazis contra a população do próprio país, mas o regime de Kiev fê-lo e fê-lo à descarada. Contudo, em todo o espetro mediático e político do Ocidente houve um cuidadoso esforço por esconder esta realidade, chegando ao ponto de ignorar factos bem estabelecidos. … Se nos perguntarmos como é que o mundo se pode precipitar numa 3ª guerra mundial, tal como aconteceu com a 1ª há um século, basta olhar para a loucura no que se refere à Ucrânia que se mostra impermeável aos factos ou à razão.”

Em 1946, o procurador do Tribunal de Nuremberga disse para os media alemães: “O uso que os conspiradores nazis fizeram da guerra psicológica é bem conhecido. Antes de cada grande agressão, com as poucas exceções que dependiam sobretudo da rapidez, iniciavam uma campanha de imprensa planeada para enfraquecer as suas vítimas e preparar psicologicamente o povo alemão para o ataque. … No sistema de propaganda do estado hitleriano, as armas mais importantes eram a imprensa diária e a rádio.”

No Guardian de 2 de Fevereiro, Timothy Garton-Ash apelou de facto para uma guerra mundial. “Putin tem que ser parado”, dizia o título. “E por vezes, só os canhões conseguem calar os canhões.” Admitiu que a ameaça de guerra podia “alimentar uma paranoia de acossado russa”, mas isso não teria importância. Fez a lista do equipamento militar necessário para o trabalho e preveniu os seus leitores que “a América tem o melhor kit.”

Em 2003, o professor de Oxford Garton-Ash repetiu a propaganda que conduziu à matança no Iraque. Escreveu ele que Saddam Hussein “tem armazenadas, conforme [Colin] Powell documentou, grandes quantidades de horríveis armas químicas e biológicas e esconde o que resta delas. Tenta ainda obter armas nucleares.” Elogiou Blair como um “gladstoniano, um intervencionista liberal cristão”. Escreveu em 2006 “Deparamo-nos agora com o próximo grande teste do Ocidente depois do Iraque: o Irão.”

Estas proclamações – ou, como Garton-Ash prefere, a sua “torturada ambivalência liberal” – não são atípicas naqueles da elite liberal transatlântica que fizeram um contrato de tipo faustiano. O criminoso de guerra Blair é o seu líder perdido. O Guardian, no qual a peça de Garton-Ash apareceu, publicou um anúncio de página inteira para um bombardeiro americano invisível. Numa imagem ameaçadora do monstro da Lockheed Martin estavam as palavras: “The F-35. GREAT for Britain” (“O F-35. ÓTIMO para a Grã-Bretanha”). Este “brinquedo” americano vai custar aos contribuintes britânicos 1,3 mil milhões de libras, tendo como antecedentes os anteriores modelos F e os massacres por eles perpetrados através do mundo. Em sintonia com esta publicidade, o editorial do Guardian pedia um aumento das despesas militares.

Uma vez mais, existe um propósito. Os mandantes do mundo não pretendem apenas a Ucrânia como uma base de mísseis, querem a sua economia. O novo ministro das Finanças de Kiev, Nataliwe Jaresko, é um antigo funcionário sénior do Departamento de Estado dos EUA encarregado do “investimento” no estrangeiro. Foi-lhe concedida à pressa a cidadania ucraniana.

Querem a Ucrânia pelo seu abundante gás: o filho do vice-presidente Joe Biden [governo de G.W. Bush – N.T.] está na administração da maior empresa ucraniana de petróleo, gás e fracking. Os fabricantes de sementes geneticamente modificadas, empresas como a infame Monsanto, querem o rico solo de cultura da Ucrânia.

Acima de tudo, querem o poderoso vizinho da Ucrânia, a Rússia. Querem balcanizar ou desmembrar a Rússia e explorar a maior fonte de gás natural da Terra. Á medida que o Ártico derrete, querem controlar o Oceano Ártico e as suas riquezas energéticas e a longa margem do Ártico. O seu homem em Moscovo costumava ser Boris Yeltsin, um bêbedo, que entregou a economia do país ao Ocidente. O seu sucessor Putin restabeleceu a Rússia como nação soberana e é esse o seu crime.

A responsabilidade do resto de nós é evidente. É identificar e expor as mentiras permanentes dos belicistas e jamais colaborar com eles. É fazer renascer os grandes movimentos populares que conduziu uma civilização frágil até aos modernos estados imperiais. Acima de tudo, é evitar a conquista de nós próprios: das nossas mentes, da nossa humanidade, do respeito por nós próprios. Se nos calarmos, a vitória sobre nós está garantida, anunciando-se um holocausto.

Fevereiro, 2015

John Pilger, jornalista com base em Londres, realizador e autor.

Tradução do original em Russia Today: Jorge Vasconcelos

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