Portugal 2013

Está em curso uma das mais ambiciosas operações de propaganda que o actual governo já levou a cabo. Quanto mais desastrosa é a situação do país, mais esta gente vem acenar com uma recuperação que ninguém vê. António Borges tem a desfaçatez de falar em “fim da austeridade”. Essa “austeridade”, que é o nome propagandístico da implacável política de saque que o governo leva a cabo, só terá fim quando esta política e as troikas que a apoiam forem efectivamente derrotadas.

Portugal oferece nestas semanas a estrangeiros recém - desembarcados a imagem de um país onde o absurdo e o irracional marcam o quotidiano, empurrando o povo para uma catástrofe social sem precedentes.
Os jornais e a televisão tornam públicas diariamente notícias que comprovam o agravamento de uma crise medonha. O desemprego aumenta a cada dia, atingindo já mais de um milhão de trabalhadores; as falências de empresas sucedem-se em cadeia; escolas, centros de saúde, serviços hospitalares, farmácias, restaurantes fecham as portas; centenas de famílias são desalojadas das casas onde residiam por não pagarem à banca as prestações do contrato; o custo das propinas força milhares de estudantes a abandonarem as universidades; a produção industrial e a agrícola diminuem; a fome alastra nas cidades e aldeias do País; mais de 40 000 portugueses emigraram no ano passado.
O Banco de Portugal informa que a quebra do PIB no ano corrente será quase o dobro da prevista no Orçamento do Estado; as receitas fiscais diminuem apesar do aumento dos impostos; as exportações também caem.
O panorama é assustador. Mas o chefe do Governo, o seu ministro das Finanças e demais membros do gabinete, proclamam monotonamente que a estratégia da coligação bicéfala é um êxito absoluto. E anunciam, eufóricos, que 2014 será um ano magnífico.
A agressão semântica complementa a social e económica. A política de saque imposta em nome da troika é qualificada de «austeridade». A desvergonha é tamanha que os governantes, ignorando gigantescos protestos populares e greves em série, elogiam os trabalhadores pelo estoicismo com que suportam os «sacrifícios», isto é o roubo.
Enquanto se espera que o Tribunal Constitucional se pronuncie sobre a inconstitucionalidade de medidas constantes do Orçamento de Estado, o país tomou conhecimento de um relatório do FMI – encomendado pelo governo - que considera insuficiente a «austeridade» em curso e sugere como indispensável um pacote que destruiria o que resta do Serviço Nacional de Saúde e da Segurança Social e golpearia mortalmente a Educação. Propõe nomeadamente o despedimento de 150 000 trabalhadores da Função Publica e de uns 50 000 professores.
Reagindo ao coro de indignação nacional, o Primeiro-ministro derramou elogios sobre esse documento, anunciador de uma intensificação da ofensiva contra o povo.
O PSD promoveu uma conferência «aberta à sociedade civil» para debater a “Reforma do Estado”. Mas, a comunicação social não foi autorizada a acompanhar os debates.
Passos, Portas e ministros dirigem-se ao mundo e aos portugueses como personagens de Jarry e Ionesco em palco de teatro de absurdo.
O governo tudo leva à prática à revelia dos cidadãos e desconhecendo a existência de uma oposição. Mas o vice presidente do PSD, Sr. Jorge Moreira da Silva, compareceu na SIC Noticias para afirmar que, devoto da democracia, o Executivo tem elevado o nível da participação popular e nada decide sem consulta ao povo.
A Comunicação Social, controlada hegemonicamente pelo grande capital, demonstra incapacidade para cumprir a sua função. Nos serviços noticiosos, políticos do sistema, membros do governo e medidas por ele impostas são alvo de críticas, por vezes severas. Mas as direções dos media permanecem vigilantes. Uma contradição antagónica favorece o objetivo prioritário: anestesiar a consciência social, impedir a ruptura dos mecanismos da alienação.
Os formadores de opinião, em programas de grande audiência, atacam o acessório, insurgem-se contra medidas, sugerem mudanças, defendem uma remodelação do governo, criticam, ocasionalmente com dureza, Passos, Portas e outros. Mas convergem em coro afinado na conclusão de que a «austeridade» é necessária, que o memorando com a troika, assinado por Sócrates e aprovado com entusiasmo por Passos & Portas, deve ser respeitado. Coincidem na opinião de que, afinal, a origem do mal está no estado Moloch, o monstro que deve ser desmontado, reconstruido. A linguagem não é a Passos e do seu guru Gaspar. Mas eles reconhecem, dolorosamente, que cortar milhares de milhões de euros nos gastos sociais é uma exigência indeclinável da História, uma necessidade imposta pela logica da sobrevivência. Pouco falta para aderirem à tese de Passos sobre a «Refundação do Estado».
Entre outros formadores de opinião que criticam o acessório mas são solidários com o governo no fundamental, cito Marcelo Rebelo de Sousa, Miguel Sousa Tavares, José Manuel Fernandes, José Gomes Ferreira. Pacheco Pereira, o mais inteligente, é talvez o único comentador que, na hoste dos politólogos da burguesia, demonstra lucidez na crítica à escória humana que desgoverna Portugal.
Neste contexto com matizes de surrealismo, o discurso do Primeiro-ministro e o do seu guru Gaspar vão merecer, no futuro, assim o espero, estudo acurado de psicólogos e psiquiatras.
Ambos, muito diferentes, merecem o qualificativo de avis rara.
Passos é uma inflorescência. Pouco dotado intelectualmente, ignorante, mas desconhecedor da sua incompatibilidade com a cultura, tenaz, mesmo firme na defesa do absurdo - acredita, admito, nos benefícios do seu projeto de destruição do país. As suas falas, arrogantes, sincopadas, são cada vez mais um amontoado de palavras sem nexo. Com frequência dá o dito por não dito. Recentemente aconselhou os jovens a emigrarem. Na semana passada, em Paris, desmentiu-se, afirmando que nunca sugeriu tal coisa.
O melífluo Gaspar, aritmeticamente sabedor, mas irracional na aplicação das leis da economia, é um discípulo atento do austríaco Friedrich Hayek do americano Milton Friedman. Politicamente pouco inteligente, as suas arengas em defesa de decisões catastróficas, a sua teimosa insistência em mascarar de rotundos êxitos fracassos transparentes, a sua habilidade em exercer o comando do governo nos bastidores trazem-me à memória personagens desamadas do teatro de Molière e Shakespeare e do nosso Gil Vicente.
É compreensível que poucos estrangeiros consigam entender o Portugal do ano 2013.
Um dia, sem data previsível no calendário, a farsa dramática em palco findará, antes que, espero, desemboque em tragedia.
Será o povo nas ruas, na fidelidade a grandes rupturas da nossa história, serão as massas trabalhadoras a alavanca do fim do pesadelo.

Vila Nova de Gaia, 24 de Janeiro de 2013

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