Documento

Portugal falhou em Angola

Publicamos este Editorial do Jornal de Angola pelo interesse que efectivamente tem. Tal não significa que odiario.info se identifique inteiramente com a análise exposta e com a caracterização feita do papel histórico de um dos nomes citados. E sobretudo não se identifica com a injusta omissão neste texto das forças políticas que, antes e depois do 25 de Abril, estiveram ao lado do povo angolano na luta pela independência do seu país.

O Movimento das Forças Armadas ao desencadear em 25 de Abril de 1974 a Revolução dos Cravos, abriu as portas da liberdade aos portugueses mas também dos povos das antigas colónias de Portugal.

Em Angola podemos afirmar que os militares revolucionários constituíram uma força decisiva na conquista da Independência Nacional. Pezarat Correia e José Emílio da Silva, os rostos mais visíveis dos “capitães”, fizeram tudo para que os ventos de liberdade também soprassem em Angola, apesar de existir um plano político e militar que consistia em fazer do nosso país uma segunda Rodésia de Ian Smith, para que o bloco do apartheid se estendesse desde o Cabo até Cabinda.

A aventura terminou no dia em que o almirante Rosa Coutinho, membro da Junta de Salvação Nacional, que governava em Lisboa, desembarcou em Luanda, com o mandato dos “Capitães de Abril” para dirigir a descolonização e pôr fim às conspirações de todos os aventureiros, que tinham nos aliados internos a cobertura ideal para fazer da Independência Nacional uma paródia. Hoje, passados 40 anos do dia em que a liberdade saiu às ruas de Portugal e das antigas colónias, é da mais elementar justiça render homenagem ao MFA, porque foi verdadeiramente um movimento de libertação em Angola. Mas também é o momento de analisar o que aconteceu nestas quatro décadas e sobretudo o que falhou.

As forças da PIDE-DGS logo no dia 26 de Abril começaram a trabalhar na solução da chamada “independência branca”, a fim de reforçar os regimes de Salisbúria (Harare) e Pretória. Os seus agentes e inspectores foram para a Rodésia (Zimbabwe) e África do Sul conspirar contra as forças revolucionárias angolanas.

As invasões a Sul e Norte, antes do dia 11 de Novembro de 1975, foram levadas a cabo por tropas especiais portuguesas e oficiais superiores das forças armadas de Portugal, hostis ao MFA. A coluna sul-africana tinha a cobertura de Savimbi.

Os invasores do Norte eram forças regulares do exército de Mobutu, mercenários de várias nacionalidades e tropas especiais portuguesas, comandadas pelo coronel “comando” Santos e Castro. O 25 de Abril estava a ser bombardeado em todas as frentes de Angola.

A Batalha de Kifangondo travou os invasores. No dia 10 de Novembro de 1975 os Capitães de Abril reuniram o Conselho da Revolução para reconhecerem Angola como país independente. Mário Soares interrompeu os trabalhos e informou que Holden Roberto tinha tomado Luanda e, por isso, era melhor adiar o reconhecimento. As forças políticas portuguesas no poder, herdeiras da Revolução dos Cravos, eram contra a independência de Angola, se ela fosse proclamada pelo MPLA. Os EUA apostavam em Holden Roberto. Os sul-africanos, com os EUA escondidos atrás da retórica política anti-apartheid, apoiavam Savimbi.

O poder político em Portugal falhou rotundamente em Angola. Deixou os angolanos sufocados por invasores estrangeiros, quando tinha assumido o compromisso, no Alvor, de defender as fronteiras. Os partidos do “arco do poder” deram expressão a Savimbi, mesmo sabendo que era um servidor do regime sul-africano. Ao mesmo tempo que condenavam o regime racista, davam visibilidade e apoiavam sem reservas o cabo-de -guerra que serviu o exército colonial português e depois Pretória. Os falhanços dos Governos de Portugal na época têm a dimensão de uma imperdoável traição aos angolanos, aos africanos e à Humanidade.

Portugal falhou quando não foi capaz de impor sanções a quem não respeitou o Acordo de Bicesse. A guerra que rebentou após as eleições de 1992 veio provar que não se tratou de um falhanço, mas sim de uma opção política. Savimbi foi recebido no Palácio de Belém, pelo Presidente da República Portuguesa, não como o violador de um acordo patrocinado por Portugal, Rússia e EUA, mas como um “herói da democracia”.

Dirigentes políticos e deputados dos partidos do “arco do poder” em Lisboa faziam constantes viagens à Jamba, dando apoio ao violador dos acordos. O poder político em Portugal escolheu, conscientemente, “falhar”. Um deputado socialista, João Soares, teve um acidente grave na Jamba e foi tratado em Pretória. O hospital tinha uma área secreta que apenas recebia militares e dirigentes da UNITA. O político português foi mais uma baixa de Savimbi e tratado como tal.

A Revolução de Abril nesta altura já estava afogada na corrupção, no clientelismo, no oportunismo. E foi afinado o coro da comunicação social num só tom: todos contra Angola e em força! Para o Povo Português, foi uma tragédia que hoje se mede na mais aviltante pobreza. Para os angolanos, uma preocupação que exige solidariedade. Não podemos esquecer Rosa Coutinho, Otelo e neles, todos os Capitães de Abril que há 40 anos ajudaram a abrir as portas para a nossa liberdade. Fica uma certeza: os erros corrigem-se, as deslealdades perdoam-se, a amizade cultiva-se. Os angolanos estão sempre de braços abertos aos amigos.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos