Pós-Plebiscito: Violência, Governo paralelo, e depois?

Marco Teruggi*    26.Jul.17    Outros autores

Esta é uma semana de importantes confrontos na Venezuela. A direita golpista aponta alto, com o anúncio da formação de um governo paralelo e a convocação de uma greve-geral. Mas a demonstração de força que quiseram realizar com o plebiscito saiu-lhes mal. Apoio internacional não lhes falta, e não têm qualquer espécie de escrúpulos. Mas será o povo a ter a última palavra.

A direita mostrou que o plesbicito, mesmo com números inventados, não teve a esmagadora maioria que dizem. Pelo seu lado, o chavismo andou com inteligência.

Longas filas até ao começo da noite. Essas foram algumas das imagens que mais foram difundidas al longo do domingo. Vimo-las em Catia, em Valle, Petare, La Pastora, na Universidade Bolivariana da Venezuela, em Apure, Yaracuy, Barinas, em todos os pontos reportados que chegaram. O chavismo mostrou, uma vez mais, que tem consciência do momento histórico, do lugar que ocupa, da importância do exercício democrático como forma de resolução dos conflitos.

Foi preciso vê-lo. Por vezes, de tanto aguentar os ataques, de tanto medir as respostas pode desdenhar-se das próprias capacidades. Dito de outra maneira, o que grita mais pode parecer mais maior do que na verdade é. A realidade é outra, vimo-la, protagonizámo-la. O chavismo está de pé.

A direita nega e negará sempre que tenha sido assim. Segundo eles, o simulacro de votação foi uma derrota absoluta, e no plesbicito votaram, dizem, 7.676.894 pessoas. Não existe qualquer possibilidade de o confirmar: queimaram os cadernos eleitorais, e a capacidade das mesas instaladas não permitia tal número de votantes. Além disso, viu-se no terreno como a importante mobilização das primeiras horas da manhã já tinha desaparecido ao meio-dia. Não falo de zonas como El Hatillo, onde parecia um desfile de moda em atitude épica libertária – ao vê-los nunca se sabe se vão jogar golfe ou tentar derrubar o governo. Nas suas zonas foram a maioria que ali são. Nem podia ser de outra maneira. O problema é que as suas zonas, como a sua classe social, não são a maioria. Por isso insistiram nas suas redes em querer posicionar territórios populares como base própria. Sabem que aí está a sua dificuldade histórica. Mobilizaram pessoas dali, mas não a que dizem e necessitam.

Disseram, como estava previsto, que o plebiscito foi um triunfo indiscutível. O objectivo era o acto para, uma vez anunciado e reconhecido internacionalmente, apresenta-lo como um mandato popular para levarem ondas de violência em crescendo. Legitimar a violência, para dizê-lo de forma sintética. Por isso, os ex-presidentes – corruptos e repudiados nos seus países – o apelo à comunidade internacional, os cantos de pacifismo de todos os dirigentes. Tinham de se portar bem, e fizeram-no, como se vinham a fazer desde há poucos dias antes. Mantiveram o cenário numa tranquilidade táctica depois das acções da passada segunda-feira com uma bomba de comando à distância contra a Guarda Nacional Bolivariana: dois efectivos feridos e um candidato á Assembleia Nacional Constituinte (ANC) assassinado perante a sua comunidade.

Já têm o plebiscito que precisavam, a matriz instalada no exterior, os seus seguidores absolutamente convencidos de serem a maioria indiscutível e arrasadora. Segue-se a pergunta que a sua própria base social e a sua imprensa fazem: e agora o quê?

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A resposta foi dada esta segunda-feira e confirmou uma hipótese já exposta: irão pela tentativa dos dois governos com a nomeação de «um governo de unidade nacional» de novos magistrados para o Supremo Tribunal de Justiça. Para sustentar isto apresentam dois elementos. Em primeiro lugar a pressão internacional, o que lhes permitirá legitimarem-se e manobrarem diplomaticamente – ainda que nenhuma vitória lhes esteja assegurada. E em segundo lugar, a violência: aprofundarão as suas dimensões e agudizarão os seus métodos.

Têm possibilidades de o fazer? Se na frente internacional parecem relativamente sólidos, não acontece o mesmo no interior do país: sustentar um esquema dessa envergadura exige mais do que o que até agora fizeram nas ruas, mais do que dos jovens da classe média convencidos da sua epopeia e grupos encapuçados com armas na mão, droga e álcool no corpo. Também possuem forças paramilitares, que já actuaram em várias cidades. Suficientes para ocuparem territórios, instalar um novo governo com capacidade de dar ordens? O poder não se anuncia como uma possessão, o poder – entre outras coisas – exerce-se. Nomearão os magistrados, e depois o quê?

A força podia vir de fora. Um acompanhamento dos movimentos internacionais mostra operações militares planificadas pelos Estados Unidos na Colômbia, no sul da Amazónia, e o aprofundamento da pressão económica internacional para asfixiar. Que forma e quando dar-se um ataque directo? Veremos, na hipótese de se verificar. Ainda que pensar a intervenção como uma acção aberta e identificada possa ser um modelo antiquado. Pode intervir-se sem se mostrarem, coisa que, de facto, já sucede.

O que parece certo é que manobram vários tempos: o do conflito prolongado, e o do choque frontal antes de 30 de Julho. Este último foi anunciado pelo actor-lança-granadas que lê os discursos por teleponto, pelos diferentes dirigentes da direita, pelos analistas do conflito. Para prever o que poderá se poderá fazer nessa escalada, pode-se elaborar uma lista de todas as acções desenvolvidas em mais de cem dias, imaginar que todas se verificarão e acrescentar novas formas – nesse sentido, a explosão da bomba à distância foi um pré-aviso.

Será suficiente para sustentar a tentativa de novo governo impedir a Assembleia Nacional Constituinte e tirar o presidente Nicolás Maduro? Não parece: continuam sem a Força Armada Bolivariana nem classes populares mobilizadas. Ainda que tenham capacidade para continuarem o processo de desgaste, destruição, confronto, agravar mais os efeitos da guerra sobre a economia, o Estado, a sociedade, a cultura. Esse é, em si, um objectivo estratégico.

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Comecemos pelas filas e a participação do chavismo. É necessário sublinhar a própria força. Actua sobre as subjectividades, as condições da peleja. O problema será sobrestimá-la, cair no triunfalismo contraproducente. As necessidades que se colocaram quando o presidente fez o apelo à Assembleia Nacional Constituinte são as mesmas: acabar com os actos para aplaudir dirigentes e dar forma às verdadeiras assembleias populares nos diversos territórios, permitir que haja crítica, interpelação, recolher a propostas que saírem das bases, voltar a impulsionar um exercício de participação protagonista, muitas vezes apagado pelas lógicas verticais com manipulação de recursos.

O chavismo continua perante os mesmos desafios: acumular massividade suficiente para o dia 30 de Julho – que outorgue a maior legitimidade à Assembleia Nacional Constituinte – e recompor forças de forma a rearmar maioria e hegemonia. Para isso é necessária uma política chavista e não burocrática/clientelar, e respostas concretas para problemas materiais que não se podem travar e são um desgaste diário para milhões de pessoas. A economia não pode ficar atrás da política, particularmente num cenário de deterioração que levará vários anos. Preços, medicamentos, gás, são alguns dos problemas que apertam principalmente os mais empobrecidos, isto é a própria base social do chavismo. O tempo das respostas encurta, o desgaste cresce.

Uma última reflexão é a que a confrontação colocada de modo insurreccional pela direita pode acabar por favorecer o chavismo. A evidência do inimigo, da sua proximidade, dos seus planos, da sua violência, desgasta-o nacionalmente, põe em cima da mesa as dimensões da batalha em que estamos mergulhados. Não está em jogo uma mudança de governo, mas a possibilidade de o poder político ser assumido por uma direita subordinada aos Estados Unidos que ajoelhe o governo, a economia e descarregue uma vingança sobre o chavismo e tudo o que foi feito desde 1999. Por isso, na simulação votou-se por uma Assembleia Nacional Constituinte, mas também contra uma direita que tem como plano fazer o país em cinzas.

Estas são semanas chave. A direita mostrou que mesmo com números inventados não evidencia a esmagadora maioria que apregoa. Por seu lado, o chavismo lutou com inteligência. Isto é uma guerra, no domingo foi uma batalha, seguem-se outras, continua o violento embate.

*Jornalista nascido em França de origem argentina

Este texto foi publicado em: http://www.lahaine.org/post-plebiscito-violencia-gobierno-paralelo

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