Produção de ópio no Afeganistão no máximo

Jerry Mazza*    30.Ene.07    Colaboradores

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O cultivo da papoila e a produção de ópio será uma actividade dos afegãos, mas é, fundamentalmente um negócio de transnacionais ligadas à administração norte-americana e de elementos ligados à CIA.

A questão é: Porquê? Sob o governo Taliban, iniciado em finais da década de 1990, o Afeganistão quase acabou com o crescente cultivo de ópio por volta do ano de 2001. Cinco anos depois os Talibans estão de volta, mas a produção aumenta rapidamente.

Segundo o Wasbhington Post: “A produção de ópio no Afeganistão, que assegura mais de 90 % da heroína no mundo, bateu todos os recordes em 2006, atingindo um máximo histórico, não obstante os esforços de erradicação sob a responsabilidade dos Estados Unidos, também referidos pela Administração Bush.

“Além de um aumento da produção de 26 % no último ano – para um total de 5644 toneladas métricas – a área de cultivo da papoila do ópio aumentou 61 %. Nas duas principais províncias produtoras, Helmand no Sudoeste e Oruzgan no Afeganistão central, o cultivo estava em alta, com 132 %.”

Com alguma subestimação, John Walters, chefe da política da droga na Casa Branca, considerou as notícias “desanimadoras”. Eu diria que eram chocantes. Mas, curiosamente, “as forças Talibans a ressurgirem” foram apontadas como o principal obstáculo aos esforços de estabilização e reconstrução no Afeganistão e o investimento militar dos Estados Unidos ultrapassou de longe os programas antinarcóticos e de desenvolvimento”,

Walters foi ao ponto de dizer que “como problema, o comércio da droga (…) rivaliza e de certo modo ultrapassa o dos Talibans, ameaçando fazer descarrilar outros aspectos da política dos E. U.” Mas eu julgava que, quando esses bandidos barbudos, os Talibans, estavam no poder, a produção de ópio era quase zero, com uma queda de 94 %.

Isto lembra-nos um artigo de Michael Ruppert, “O império da droga de Bush-Cheney”, publicado no Nexus Magazine. Escreveu ele: “Toda a gente sabe do envolvimento da família Bush na questão da droga, mas é menos conhecida a ligação directa de Dick Cheney com um canal global da droga através de uma empresa de construção.” Sem papas na língua, Mike avança…

De Medellin para Moscovo com a Brown & Root

Brown & Root da Halliburton Corporation é um das principais peças do Império da Droga Bush-Cheney. O êxito do companheiro de Bush, vice-presidente Richard Cheney, em levar a empresa Halliburton a ganhar uma parte de leão de 3,8 biliões (milhões de milhões) de contratos federais e empréstimos garantidos pelos contribuintes é apenas um indicador parcial do que pode acontecer, agora que Bush ganhou as eleições para Presidente dos Estados Unidos.”

Mas está a Brown & Root (BR), subsidiária da antiga companhia de Cheney, igualmente envolvida no Afeganistão? Bem, SThe Center for Public Integrity relata: “Em 2002 foi atribuído pelo Departamento de Estado à BR um contrato de de 100 milhões de USD para construir uma nova embaixada dos E. U. em Kabul, Afeganistão.” Ah, pois é. E…

“À BR também foram atribuídas 15 empreitadas do LOGCAP (Logistics Civil Augmentation Program) num valor superior a 216 milhões de USD no âmbito da Operation Enduring Freedom (Operação Liberdade Duradoura), o nome militar para as operações no Afeganistão. Estas incluem a instalação de campos militares em Kandahar e a Base Aérea de Bagram e treino de tropas estrangeiras provenientes da República da Geórgia.”

Mas não tem tradicionalmente a CIA estado metida no negócio da droga do Afeganistão, se recuarmos até aos anos 80, e também no caso Iran-Contra, proporcionando um fluxo contínuo de lucros da droga para o que tem sido chamado “o nosso governo sombra”, responsável por operações escuras à escala mundial? Mais uma vez, segundo Ruppert, o incremento do ópio no Afeganistão começou nessa altura com a CIA por perto.

A CIA plantou o ópio que agora cresce

Ruppert diz: “Antes de 1980 o Afeganistão produzia 0% do ópio mundial. Mas, então, a CIA entrou em cena e, por volta de 1986, estava a produzir 4% do abastecimento mundial de heroína. Por volta de 1999 estava a entregar 3.200 toneladas de heroína por ano, cerca de 80% do abastecimento total do mercado. Mas, então, aconteceu algo de inesperado. Os Talibans chegaram ao poder, e por volta de 2000, tinham destruído aproximadamente todos os campos de ópio. A produção caiu de mais de 3000 para apenas 185 toneladas. Uma redução de 94%! Esta enorme queda das receitas representou um grande golpe não só nos projectos o Orçamento Negro da CIA, mas também no fluxo de entrada e saída livre de dinheiro lavado nos bancos estratégicos.”

O Professor de História na Universidade de Wisconsin Alfred McCoy confirma no essencial no The World Traveler a opinião de Ruppert: (…) “Em poucos anos, as correntes da geopolítica global deslocaram-se de modo que projectaram a CIA para novas alianças com os traficantes de droga. Em 1979, os soviéticos invadiram o Afeganistão e a revolução Sandinista tomou o poder na Nicarágua, ocasionando duas operações secretas da CIA com algumas semelhanças reveladoras.

“Durante a década de 1980, quando a União Soviética ocupava o Afeganistão, a CIA, operando através da Inter-Service Intelligence do Paquistão, gastou uns 2 biliões de dólares para apoiar a resistência afgã. Quando a operação arrancou em 1979, esta região cultivava ópio somente para os mercados regionais e não produzia heroína.

“Porém, dentro de dois anos, o território fronteiriço Paquistão-Afganistão tornou-se o maior produtor mundial de heroína, abastecendo 60% da procura dos E.U. No Paquistão, a população dependente de heroína passou praticamente de zero em 1979 para 5000 em 1981 e para 1,2 milhões por volta de 1985, uma subida muito mais rápida do que em qualquer outro país.

“Mais uma vez, os fundos da CIA controlaram este comércio de heroína. Quando as guerrilhas Mujaheddin ocuparam território no Afeganistão, elas deram ordem aos camponeses para plantarem ópio com um imposto revolucionário. Através da fronteira, no Paquistão, chefes afgãos e quadrilhas locais tinham a funcionar centenas de laboratórios de heroína. Durante esta década de tráfico escancarado da droga, a DrugEnforcement Agency dos E.U. em Islamabad absteve-se de instigar capturas ou detenções de importância.

“Em Maio de 1990, quando a operação da CIA estava a desenrolar-se, The Washington Post publicou na primeira página um artigo que acusava Gulbudin Hekmatar, o chefe afgão favorito da CIA, como um dos principais fabricantes de heroína. O jornal referia, de modo semelhante ao relato posterior sobre os contras no San José Mercury News, que funcionários dos E.U. se tinham recusado a investigar acusações de tráfico de heroína pelos seus aliado afgãos ‘porque a política de narcóticos dos E.U. no Afeganistão foi subordinada à guerra ali contra a influência soviética.”

Linha de base

Assim, parece-me que “inspirámos” os afgãos a produzir heroína, exportámo-la para financiar operações secretas, incluindo uma guerra em grande. Portanto, o milagre das papoilas a rebentarem de novo este ano será o quê? Um acidente, um mau vento que sopra nada de bom, o Taliban obstinado ou esses senhores da guerra que já lutaram ao nosso lado ou, com toda a probabilidade, o contratador preferido dos E. U., Brown & Root, a tomar parte nalgum esforço mais amplo da CIA?

Voltando, para uma resposta, ao artigo do Washington Post. O seu autor, Karen DeYoung referiu que “o Gen. James L. Jones, comandante supremo da NATO, disse numa recente intervenção no Concelho das Relações Exteriores, que o Afeganistão é a maior operação da NATO, com mais de 30.000 homens. Cartéis da droga com os seus próprios exércitos entram regularmente em combate contra as forças da NATO existentes no Afeganistão. Declarou ele: “Seria errado dizer que são apenas os Talibans. Penso que temos de ter ideias claras.” Muito bem. Nós gostamos de falar claramente.

DeYoung também refere que o Director da CIA, Michael V. Hayden declarou no Congresso no mês passado: “É quase o próprio problema do diabo (…) Neste momento a questão é a estabilidade … Ir lá e atacar o negócio da droga fomenta na realidade a instabilidade que queremos vencer.” Vão-me desculpar, se vou pôr uma questão sobre esse “próprio problema do diabo”. E quem seria esse diabo?

O tenente-general Michael D. Maples director da Defense Intelligence Agency, está de acordo. Ele disse: “Atacar o problema directamente em termos do negócio da droga (…) seria minar a tentativa de ganhar o apoio popular na região. Penso que há um verdadeiro conflito.” Eu também penso isso. O conflito parece ser entre as pessoas que semearam e fizeram crescer o negócio do ópio e aqueles que estão agora perante a possibilidade de perder completamente os lucros que ele dá.

Temos ainda o Presidente afgão, Hamid Karzai, comentando “antes nós pensávamos que o terrorismo era o maior inimigo do Afeganistão (…)” Creio que isto foi dito por Bush-Cheney, não confundindo este “nós” como todos os cidadãos da América. Fazia parte desta suposição a necessidade de atacarmos o País porque “albergava” bin Laden e os seus bandidos. Hoje, bin Laden escapa aos seus perseguidores. O que o presidente afirma já não é importante; agora ele diz que “o ópio, o seu cultivo e as drogas são o maior inimigo do Afeganistão.” Ah!

Então vamos apanhar os abastecedores. Mas DeYoung diz-nos: “A erradicação e os programas alternativos de desenvolvimento fizeram pouco avanço detectável. O cultivo – medido anualmente por meio de imagens de satélite de alta definição, depois esquadrinhadas por analistas com programas especializados de computador – é quase o dobro do nível máximo pré-Karzai.”

Então o que é que nos dizem realmente esses dados dispendiosamente explorados? Que talvez, além dos amigos no antigo patrão, Unocal, a gente do x, o Presidente Karzai poderá ter mais amigos na aparentemente distraída CIA, para não mencionar a subsidiária de Halliburton, Brown & Root, a antiga firma do inefável Mr. Cheney.

Isto foi talvez dito mais delicadamente por Karen DeYoung: “Depois do derrube do governo Taliban pelas forças dos E.U. no Outono desse ano //2001//, a administração Bush afirmou que pôr um tampão na produção estava entre as mais altas prioridades. Mas a corrupção e as alianças formadas por Washington e pelo governo afegão com os chefes tribais anti-Taliban, alguns dos quais são considerados envolvidos a fundo no comércio, sabotam os esforços.” O itálico é meu.

Deles é o pecado.

* Editor associado do Online Journal e escritor freelancer que vive em New York.

Tradução de João Alves Falcato

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