Provocadores perigosos

Jorge Cadima*    08.Mar.07    Outros autores

Os decisores da política externa dos EUA são peritos na preparação de sabotagens que levam a novas e constantes agressões imperialistas. “Brzezinski sabe bem como se desencadeiam guerras, embora a «versão oficial» para consumo de massas seja outra”.

Passaram quase despercebidas na comunicação social do regime, as extraordinárias declarações do ex-Conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Zbigniew Brzezinski, perante a Comissão para os Negócios Estrangeiros do Senado dos EUA. Numa declaração formal, no passado dia 1 de Fevereiro, Brzezinski alertou contra uma futura guerra dos EUA «com o Irão e com uma boa parte do mundo do Islão» e previu: «um cenário plausível para um confronto militar com o Irão envolve o fracasso iraquiano em alcançar as metas [estabelecidas pelo Presidente Bush para o actual «governo» no Iraque ocupado]; a que se seguirão acusações de responsabilidades iranianas por esse fracasso; e depois alguma provocação no Iraque ou um acto terrorista nos EUA, que será atribuído ao Irão; culminando-se com uma acção militar “defensiva” contra o Irão que lance uma América solitária num pântano cada vez mais largo e profundo que acabará por se estender do Iraque ao Irão, Afeganistão e Paquistão». Brzezinski não falava de improviso, nem de forma informal. Falava num depoimento oficial previamente preparado. Disse o que queria dizer. Não disse, mas não custa muito a perceber, que a autoria dessa «provocação» ou desse «acto terrorista nos EUA que será atribuído ao Irão» seria de gente interessada numa «acção militar “defensiva” [as aspas estão na versão oficial do discurso disponível no site Internet do Senado] dos EUA contra o Irão». Tal e qual como nos planos dos Chefes de Estado-Maior das Forças Armadas dos EUA, preparados no início dos anos 60 para «justificar» um ataque a Cuba (a «Operação Northwoods»).

Brzezinski não é uma dessas pessoas que ande para aí a inventar teorias de conspiração. É uma dessas pessoas cuja carreira foi feita lá onde se organizam e mandam executar as conspirações. Como ele próprio fez questão de salientar na também memorável entrevista que deu à revista francesa Nouvel Observateur (nº 1732, 15.1.98, disponível na Internet). Aí, confirmou a revelação feita nas Memórias do ex-director da CIA (e hoje Ministro da Defesa dos EUA) Robert Gates e «mantida secreta até agora», de que a CIA começou a ajudar os mujahedines afegãos seis meses antes da entrada das tropas soviéticas naquele país. E isto, apesar de, nas sempre interessantes palavras de Brzezinski, «a versão oficial da História» afirmar que a ajuda da CIA aos mujahedines fosse posterior a essa intervenção. «Foi na realidade no dia 3 de Julho de 1979 que o Presidente Carter assinou a primeira directiva sobre o apoio clandestino aos opositores do regime pró-soviético de Cabul. E nesse dia, eu escrevi uma nota ao Presidente em que explicava que, em minha opinião, esse apoio iria conduzir a uma intervenção militar dos Soviéticos». Como se vê, Brzezinski sabe bem como se desencadeiam guerras, embora a «versão oficial» para consumo de massas seja outra.

O que leva agora Brzezinski a esta espécie de «desmentido preventivo» duma «versão oficial da História», ainda antes dela ser posta a circular, parece ser o receio de que as aventuras militares dos EUA estejam a encaminhar-se para uma monumental derrocada: «A guerra no Iraque é uma calamidade histórica, estratégica e moral», afirmou no Senado. Parece recear que, tal como o Terceiro Reich, que era para durar mil anos e acabou desfeito em apenas doze - após inflingir à Humanidade a sua maior tragédia de sempre - também o «novo Século Americano» acabe por definhar de forma análoga (nos dois sentidos). É a resistência - iraquiana, libanesa, somali, afegã, latino-americana e de todos os povos - que faz abrir fendas nos centros dirigentes do imperialismo mundial.

Enquanto aguardamos as revelações de Brzezinski sobre o que realmente se passou no dia 11 de Setembro de 2001 (para além das «versões oficiais da História») ficamos já prevenidos: não deveremos acreditar nas «versões oficiais» se amanhã houver algum «acto terrorista nos EUA» ou noutra parte. Palavra de ex-Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA.

Este artigo foi publicado no Avante! 1.735 de 1 de Março de 2007

* Jorge Cadima, professor universitário

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