Quando a terra treme

Correia da Fonseca*    31.May.11    Colaboradores

Correia da FonsecaHá abalos sísmicos, e há abalos sociais igualmente violentos. Uma reportagem mostrou-nos alguns casos de quem perdeu a casa onde habitava, ou está condenado a perdê-la, exactamente por efeito do sismo que já está a percorrer o País de lés-a-lés e que ameaça agravar-se a partir do próximo mês de Junho se nada for feito para travá-lo.

1. Aqui ao lado, em Espanha, não a muitos quilómetros da fronteira portuguesa, na zona de Múrcia, ocorreu um dia destes um tremor de terra. Houve relativamente poucas vítimas mortais, observação esta com algum sabor desagradável mas que tem em conta o currículo trágico da actividade sísmica através dos tempos e dos lugares; mas alguns edifícios ruíram, outros ficaram inabitáveis por razões de segurança, muitas famílias perderam assim os lugares onde viviam, onde iam construindo o seu futuro, onde se sentiriam abrigados dos vários ventos agrestes que sempre levantam. A televisão portuguesa deu acerca destes casos algumas notas de reportagem, vimos e ouvimos as palavras do desespero, os rostos da desolação, e se bem me lembro também ouvimos as palavras de Zapatero a prometer aos atingidos os apoios que em princípio permitirão reencaminhar-lhes as vidas ao ritmo da normalidade possível. É claro que, mesmo sendo Múrcia praticamente aqui ao lado, nunca saberemos até que ponto a promessa será eficazmente cumprida, são lá coisas dos espanhóis e as estações portuguesas não vão interessar-se pelos desenlaces dessas tristes estórias. Podemos, isso sim, imaginar que o derrubado sino da torre de uma velha igreja, que um grande plano nos mostrou caído no chão entre pedras soltas e outros destroços miúdos, será rapidamente reposto em lugar alto sobretudo se o PP de Aznar vencer as próximas legislativas. Pois, como se sabe, entre aquele PP, o do país vizinho, e os sinos de igrejas, capelas e catedrais, há uma espécie de pacto de amizade e ajuda mútua que é a expressão actual de uma das mais perenes tradições de Espanha.

2. Em Portugal não aconteceu ultimamente nenhum abalo sísmico minimamente significativo, isto é, com intensidade bastante para provocar estragos vultosos e infelicidades deles decorrentes. Contudo, num certo sentido tem sido como se a terra portuguesa tivesse entrado em estremecimento: muita coisa já desabou nos últimos anos, muita mais entrou em instabilidade e ameaça desabar, enquanto se multiplicam vozes que recomendam demolições implacáveis. Ainda não será um terramoto a percorrer o País de Norte a Sul, como aliás ameaça ser, mas já não está longe disso. E, porque não o está, já a televisão nos vai mostrando algumas vítimas do cataclismo que, repare-se, por vezes parece ter sido enviado pelo Céu para castigo de pecados de gula, soberba e inveja (todos pecados catalogados como mortais pela Santa Madre, note-se) praticados pela arraia-miúda, isto é, por todos nós, que andámos a gastar acima das nossas possibilidades, segundo nos foi explicado recentemente. Parece que nos comportámos todos como se fôssemos ricos sem nos apercebermos dos pobretanas que éramos, que desatámos todos a comprar carros topo de gama importados das Alemanhas ou das Suécias, a passar férias em ilhas distantes e exóticas, coisas assim. Ah!, e a receber chorudos subsídios de doença, de desemprego, de reinserção. É claro que o País não aguentou, que a terra tremeu, que sobrevieram as desgraças. Só estando ao abrigo delas, tanto quanto se sabe, os altos gestores não apenas públicos mas também e sobretudo privados (o que muitas vezes se esquece), esgotados de tanto e tão bem gerirem os negócios seus ou alheios.

3. Uma reportagem da TVI mostrou-nos alguns casos de quem perdeu a casa onde habitava, ou está condenado a perdê-la, exactamente por efeito do sismo que já está a percorrer o País de lés-a-lés e que ameaça agravar-se a partir do próximo mês de Junho se nada for feito para travá-lo. É gente que sonhou um dia que podia ter um lar que fosse mesmo seu, que foi convencida por ondas sucessivas de promoção publicitária de crédito fácil, que foi empurrada para a compra de casa própria pela efectiva inexistência de um mercado de arrendamento com custos acessíveis. É sobretudo gente que acreditou que tinha um emprego e não um fogo-fátuo. Que se enganou, que foi enganada. Vimos as lágrimas, a angústia, o desespero, de gente sob cujos pés a terra supostamente firme tremeu, abriu brechas, engoliu anos de sacrifícios tornados ruínas. Era como se aquelas paredes ainda erguidas já estivessem por terra, eram gente já praticamente desalojada. Vimos e ouvimos a indignação.
Mas não a sua consequência. Que talvez, quem sabe?, possamos ver e ouvir numa outra reportagem que qualquer estação transmitirá quando for caso disso.


*Amigo e colaborador de odiario.info

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