Entrevista a Nils Castro

¿Que pode esperar-se destas eleições no Panamá?

Gilberto Lopes    12.May.14    Outros autores

Esta entrevista é anterior às eleições de 4 de Maio, nas quais Juan Carlos Varela foi eleito presidente. Cujo partido, na opinião de Nils Castro, é um partido ‘paleolítico’ que há três anos era cúmplice de Martinelli, o corrupto presidente que a própria burguesia queria derrotar. Apesar de as eleições se terem já realizado, o essencial da entrevista permanece actual.

Nils Castro foi assessor do primeiro-ministro Samuel Lewis Navarro e do presidente Martín Torrijos (2004-2009). Autor de “As esquerdas latino-americanas em tempo de criar”, está terminando “América Latina e o Caribe: integração emancipadora ou neocolonial”.

Faltam seis dias para as eleições e Nils Castro é um homem do Partido Revolucionário Democrático (PRD). Recebe a “Universidad” nos escritórios que Torrijos mantém num edifício do centro financeiro de Panamá.
“A característica peculiar desta eleição é que não se dirimem posições político-ideológicas. Todos os principais candidatos são de centro-direita, com muito boas relações com Washington”, afirma. Refere-se aos três candidatos com possibilidade de triunfo nas eleições do próximo domingo: o oficialista José Domingo Arias (Mimito), de “Cambio Democrático”; e os opositores Juan Carlos Navarro, do Partido Revolucionário Democrático (PRD) e o “panameñista” Juan Carlos Varela, da aliança “El Pueblo Primero”.

Fala das mudanças económicas e revela-nos o segredo das altas taxas de crescimento da economia panamiana na última década.

Crescimento perverso

“É evidente que há um crescimento espectacular da economia e da desigualdade”, afirma Castro, analisando a situação do país. Mas “é um crescimento perverso, muito concentrado numa elite muito estreita”.
“Houve uma transformação enorme na economia da nação por efeito dos tratados do Canal. Os panamianos viam passar os barcos, mas o canal aportava relativamente pouco à economia nacional; não tínhamos participação na economia do canal”.

Os tratados Torrijos-Carter mudaram essa situação. Não só o canal passou a ser panamiano, como desapareceram a Zona do Canal e as bases militares norte-americanas, diz Castro.

“Criara-se o mito de que se as bases encerrassem se ia perder emprego. Mas bases eram improdutivas, estéreis e perigosas, e ocupavam a zona ribeirinha do canal. A sua desaparição permitiu a aparição de vários portos modernos, que são panamianos. É certo que estão concessionados, mas as companhias que operam em ambas as margens não só oferecem muitos empregos bem pagos, como pagam vultuosos impostos. E o Panamá, que antes apenas via passar os navios, agora tem boa participação no negócio marítimo global. Os rendimentos da nação multiplicaram-se muitas vezes por efeito dos tratados do canal”.

Para Castro, o crescimento da economia panamenha tem a sua origem recente nessa mudança e embora tenha sido “bastante mal administrada na época da presidente Mireya Moscoso (1999-2004), a partir da racionalização da gestão, no governo de Martín Torrijos, começou a crescer 7, 8 e 9% ao ano. Em 2006 os rendimentos nacionais eram já enormes e continuaram crescendo. O actual governo herdou uma máquina que produzia riqueza, embarcou num comboio que já vinha em marcha”.

Oligarquia dilacerada

Isto produz um impacto muito especial entre os diferentes sectores da população, explica Castro. “Isso não se metaboliza facilmente em nenhum sector, mas dilacerou a antiga oligarquia, que vendia produtos e serviços à Zona do Canal. Há um conflito muito sério no país nessa elite, em particular,”.

“76% do PIB vem dos serviços internacionais, mas estes tão pouco são os mesmos de há 20 anos. Em pouco tempo surgiu uma indústria marítima, portuária, de telecomunicações, de aeronáutica, um negócio bancário e financeiro que rapidamente se multiplicou. Este país não tinha um único porto, agora tem seis dos mais eficientes da América Latina.

“A parte menor é cobrar a portagem do canal. O negócio principal é o intercâmbio de contentores entre navios que operam diferentes rotas marítimas; os serviços de reparação e manutenção de barcos, troca de tripulações, abastecimento; vendem-se e hipotecam-se cargas, navios, barcos são abandeirados. Há um conjunto de negócios vinculados ao tema marítimo mercantil muito próspero”, assegura Castro.
“Isso constitui uma enorme máquina de produzir divisas que é assimilada por pouca gente. Há um sector tradicional da burguesia, vinculado aos velhos negócios, que está desaparecendo. Os que produziam cimento, cerveja, bolachas, venderam as suas empresas aos colombianos, ou aos mexicanos. Esse sector passou a viver dos rendimentos”.

Mas há outro sector da burguesia que se modernizou muito, associado a novos sócios transnacionais, acrescenta. É o segmento que já não trabalha para o capital internacional daquela época, mas nos negócios de tecnologia avançada, no naval, no logístico e no financeiro. “Essa burguesia está a enriquecer com muita rapidez. Isso implica novos sócios, novos mecanismos de inserção internacional. Mas grande parte da burguesia panamiana não pôde assimilar essa nova cultura”.

A estes dois sectores, Castro junta um terceiro: o sector no poder, “os flibusteiros, que conseguiram assaltar a caverna de Ali Babá”.

O actual presidente, Ricardo Martinelli, “nunca produziu nada – assegura – mas tem uma larga historia de saquear o que já exista. Há cinco anos havia a preocupação de que esse milionário, dono da maior cadeia de supermercados do país, podia vir a governar no interesse da burguesia. Mas ¡não! Ele quer o Estado para extorquir e expropriar o resto da sua própria classe, não para governar para ela”.

Isso gerou um movimento no sentido de “expulsar Ali Babá da caverna”. Oligarcas e intelectuais que são inimigos tradicionais do PRD estão apelando a votar nesse partido, o que é assombroso”, diz Castro.

Só direita

No que diz respeito à eleições deste domingo, assegura que a “sua característica é que não se dirimem posições político-ideológicas. Todos os candidatos importantes são de centro-direita, com muito boas relações com Washington”.

“A tónica aqui é dada pelo facto de que um sector importante da burguesia, sobretudo o sector mais esclarecido, está disposto a apoiar qualquer alternativa para que Martinelli não continue no poder”.
Pelo lado da oposição “isso não pôde traduzir-se num candidato unitário. As simpatias por Varela e pelo candidato do PRD, Navarro, somam mais de 60% da população. Mas eles estão divididos. Aqui entram factores subjectivos que explicam a situação. Navarro aspirou à candidatura pelo seu partido nas eleições passadas e perdeu. E a Varela aconteceu o mesmo, teve que ir de vice-presidente de Martinelli (embora de imediato se tenha separado do presidente). Os dos candidatos veêm de uma candidatura anterior frustrada e nenhum aceitou voltar a “rebaixar-se” nestas eleições. De modo que vamos chegar a 4 de Maio com a oposição dividida”. Em todo o caso, “não se trata, nestas eleições, de uma decisão programática. Espera-se ver quem melhor pode atingir Martinelli”.

“Embora tenha uma estrutura mais sólida, o PRD já não é o que foi nos tempos do nacionalismo revolucionário. Agora é um partido do establishment, que passou, como todo o país, por essa sequela originada pelo facto de que, cada vez que se aproxima uma eleição, o eleitor tem que escolher o mal menor, não o candidato e o programa da sua preferência. No final, a repetição deste processo em três ou quatro eleições não acrescenta nada de bom. É sempre um balanço negativo”.

Para a saúde da República, insiste Castro, “tornou-se muito importante que seja Navarro a ganhar. O partido de Varela é um partido ‘paleolítico’, forte nos anos 30, 40, ou a princípios dos 50. Mas, de então para cá, é um animal moribundo, que há três anos era cúmplice de Martinelli. O partido de Martinelli é muito grande, mas programaticamente não existe. Está formado por uma grande colecção de trânsfugas de todos os matizes. Tinha uma pequena fracção de deputados, mas Martinelli cooptou muitos deles e hoje tem a maioria absoluta no Congresso. Os seus instrumentos foram a intimidação e o suborno. É o partido da imoralidade, dos trânsfugas. Uma vez que ele perca poder, tudo isso voa como um castelo de cartas”.
A força de Navarro está na sua promessa de levar Martinelli e seus cúmplices ante os tribunais.

A esquerda

A esquerda, na sua opinião, “está passando por um trauma muito grande. O desgosto entre a população é enorme, por muitas razões. A maioria dos protestos sociais não estão ideologizados, não estão vinculados a um programa político. Há protestos todos os dias, mas muito atomizados, por motivos muito locais”.
Para isso contribui, acrescenta, “que a esquerda do PRD perdeu o controlo do partido. Hoje, meteu-se em casa, está dispersa. Já não tem posições relevantes dentro do partido, cujo programa, ainda muito progressista, actualmente é pura retórica. Ainda assim, no último mês e meio começou a mobilizar-se em apoio a Navarro, em função do imperativo de derrotar Martinelli. Mas os “torrijistas” estão numa conjuntura que se dirimirá mais adiante, no futuro, a medio prazo”.

O outro grupo que conseguiu inscrever um partido nominalmente de esquerda, o Frente Amplio por la Democracia (FAD), “tem uma atitude extremadamente sectária. Dá por adquirido que todo aquele que tenha estado no PRD é um inimigo. É muito antitorrijista, o que exclui de antemão o sector mais numeroso da esquerda do país”.

Quanto a Juan Jované, candidato independente de esquerda, considera que “é o mais cinzento do mundo. Inclusivamente, algumas pessoas que apoiaram a sua candidatura afastaram-se. Foi director do Seguro Social, no governo de Mireya Moscoso, de forma a juntar-se a um governo anti PRD. Juntou-se à direita, até que a própria Moscoso o mandou embora”.

De acordo com as sondagens, estes dois candidatos somarão provavelmente menos de 5% dos votos.

O certo, conclui Castro, “é que a via está fechada à esquerda; em 4 de Maio as águas apenas vão correr pela direita. Há gente que vota pelas obras de Martinelli – as suas espectaculares obras de betão - mas, para outros, a componente moral é importante na decisão do voto. Em todo o caso, por agora este comboio não tem carruagens à esquerda”.

*Entrevista pelo semanário Universidad, de Costa Rica, publicada em 28 de Abril de 2014. gclopes@racsa.co.cr

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