Que Política Externa para a França?

Rémy Herrera*    18.Mar.12    Colaboradores

Remy HerreraUm país cujo povo é herdeiro duma história que é também a da Revolução Francesa, da Comuna, da Resistência e da Libertação, das lutas sociais. Mas ao mesmo tempo, este é também um dos países cujas classes dominantes cometeram, em seu nome, crimes coloniais e esclavagistas, e que se comporta ainda no presente, fora das suas fronteiras e em muitas partes do mundo, como uma potência imperialista, das mais activamente em guerra contra o Sul, sob o comando militar da hegemonia mundial.

Em matéria de política externa, numerosos problemas se colocam hoje à esquerda; ou, digamos melhor, para estarmos certos de nos referirmos a forças progressistas, à esquerda da esquerda. Que problemas são estes, falando apenas daqueles que se impõem de modo mais urgente e delicado?

Quais são os problemas?

O primeiro relaciona-se com o facto de que aqueles de nós que vivem, trabalham e lutam em França, sejam franceses ou estrangeiros, o fazem num país que todos nós amamos profundamente, pelo que ele representa aos nossos olhos, um país cujo povo é herdeiro duma história que é também a da Revolução Francesa, da Comuna, da Resistência e da Libertação, das lutas sociais. Mas ao mesmo tempo, este é também um dos países cujas classes dominantes cometeram, em seu nome, crimes coloniais e esclavagistas, e que se comporta ainda no presente, fora das suas fronteiras e em muitas partes do mundo, como uma potência imperialista, das mais activamente em guerra contra o Sul, sob o comando militar da hegemonia mundial. Isto introduz uma contradição forte, nas nossas próprias estratégias alternativas e na nossa própria concepção de democracia.

Um segundo problema, grave, resulta de uma das consequências mais dramáticas da crise sistémica que enfrentamos hoje: a acentuação do confronto (apesar das decisões do G20) entre os hemisférios norte e sul, entre países do centro imperialista e países periféricos. E isto num mundo onde as contradições se tornam mais complexas, não só entre as classes dominantes e as classes dominadas em cada país, mas também no seio das classes dominantes, como também entre os países do sul entre si (por vezes com fenómenos que podem ser descritos como “sub-imperialismos” regionais). Mas a tendência subjacente, forte, é o agravamento deste confronto Norte-Sul, tendo por efeitos semelhantes, um pouco por toda a parte, a ascensão da extrema-direita, nas suas diversas variantes políticas, religiosas, comunitaristas ou “étnicas”; na sua maioria, no entanto, pró-sistémicas, pró-capitalistas.

O terceiro, sobre o qual nos deveremos debruçar, é provavelmente o mais “problemático”, pelo menos para a esquerda da esquerda. Este problema tabu, que se tenta tantas vezes evitar, é o seguinte: boa parte dos lucros globais obtidos pelos bancos e transnacionais do centro do sistema mundial (mais de metade nos EUA, por exemplo) provém de transferências de excedentes do hemisfério sul para o hemisfério norte. Estas transferências, que passam por diferentes canais (dívida externa, o investimento directo estrangeiro ou em títulos, comércio desigual, a fuga de capitais, corrupção, etc.), constituem uma “renda imperialista”. Renda que requer a adesão ou submissão de determinadas direcções partidárias e sindicais de forças de “esquerda” do Norte, incluindo a França, ao projecto imperialista, mau grado os desígnios daquelas.

Questões e problemas adicionais

Daí as três seguintes perguntas: poderemos nós aceitar: 1) que a França ainda se comporte como uma potência imperialista, mesmo neo-colonialista? 2) esta confrontação com o Sul e a ascensão da extrema-direita que o acompanha? 3) que a esquerda se redefina em parte graças a esta renda imperialista? As respostas devem ser, na minha opinião: não, não e não. Um triplo não é melhor para a França do que um crédito AAA!

Este conjunto de dificuldades que enfrentam as forças progressistas francesas, europeias e do hemisfério norte, é certamente agravado por outros problemas, também eles numerosos, por seu turno, no hemisfério sul. Entre as mais graves encontra-se a escolha da via capitalista como “estratégia de desenvolvimento” adoptada pela maior parte das classes dominantes dos países ditos “emergentes”, como o Brasil, a Índia, em certa medida a China, e até mesmo, a Leste, a Rússia. Ora, é uma ilusão acreditar que o capitalismo é a solução para os países do hemisfério sul ou do Leste. Entrámos de facto, com a actual crise sistémica, num período de colapso, longo, lento e gradual, do capitalismo como sistema mundial. O capitalismo só cairá sob a pressão das lutas. Mas a esta escolha de estratégias pró-capitalistas, feitas por muitas das classes dirigentes do hemisfério sul, constitui uma ameaça para as forças progressistas em luta; e isto onde foram realizadas verdadeiras avanços revolucionários, como na América Latina. Uma ameaça relacionada nomeadamente com a tentação dos poderes nesses países de confiscar e refrear os processos de transformação sociais em curso.

Quais são as alternativas?

Então, se os problemas, obstáculos e bloqueios são tão diversos, numerosos e poderosos, o que fazer? Seria errado pensar que há receitas milagrosas, mas também igualmente errado acreditar que não há alternativas. Existem alternativas a explorar, a discutir, democraticamente. E, para construir essas alternativas, é preciso reabrir o debate sobre as opções possíveis, libertando-nos da propaganda mediática dominante, cujo centro de gravidade se situa actualmente entre a direita e a extrema-direita.

Primeiro, a prioridade e a urgência é travar a regulação do sistema capitalista mundial pela guerra, sob a hegemonia dos EUA (por quanto tempo?). A França não deverá associar-se à estratégia de controlo militar do mundo pelos EUA. Temos de parar a engrenagem de agressão aos países do hemisfério sul por parte dos países imperialistas do hemisfério norte. Mas, para isso, é importante sair da componente militar da NATO.

Em seguida, o princípio da existência de bases militares num país fora do seu território deve ser rejeitada. É preciso, portanto, que a França retire as suas bases no estrangeiro (estão espalhadas por todo o mundo), para oferecer aos seus parceiros do hemisfério sul (começando pela Françafrique! [1]) outra coisa que não seja a presença de soldados, a venda de armas e uma retórica sobre direitos humanos que na prática são negados. Isto deverá ser associado a uma reorientação completa, num sentido progressista, das nossas políticas de imigração, de cooperação e desenvolvimento.

Porque, e isto é fundamental, o que é necessário é compreender as ligações entre guerra e finanças. Guerras imperialistas são uma forma moderna de desvalorização do capital, forma extrema, é certo, mas tornada tão “necessária” como outras formas de desvalorização (tais como o encerramento de fábricas ou o desemprego em massa) nas estratégias anti-crise implementadas pelas classes dominantes; assim é a alta finança. Estas soluções devem ser excluídas.

Para travar esta máquina de guerra infernal, impulsionada pela alta finança, temos de impor aos oligopólios financeiros nacionais a obrigatoriedade dum controlo público e democrático. É preciso nacionalizá-los e, com eles, os sectores estratégicos da economia, para os colocar ao serviço das pessoas e reabrir a margem de manobra para as políticas de verdadeiro progresso social.

Será necessário romper com alguns dos compromissos internacionais da França (como o Tratado de Lisboa), agora registados no seu bloco de constitucionalidade? Certamente, pois trata-se de verdadeiras algemas anti-democráticas. O povo francês que, num dia de 1793, se levantou para dizer ao mundo que era “o amigo e aliado natural das nações livres” e deu “asilo aos estrangeiros banidos do seu país pela causa da liberdade”, merece melhor sorte do que a que lhe foi imposta. É por isso que a perspectiva de transição para o socialismo e solidariedade internacionalista permanece actual.

Notas da tradução:
[1] O termo tem uma clara acepção neo-colonialista; originalmente designaria não apenas as colónias africanas da França, onde hoje perdura a utilização do Francês, mas toda uma rede de relações políticas, sociais e culturais. Mas, nota o jornalista François-Xavier Verschave, essa seria “a ponta do iceberg”; o que não se vê é “uma nebulosa de actores económicos, políticos e militares, em França e em África, organizada em redes e lobbies, dominando dois mercados: matérias-primas e ajuda ao desenvolvimento. A lógica desse esforço é proibir a iniciativa fora deste círculo. O sistema degrada-se e recicla-se na criminalidade. É naturalmente hostil à democracia.” in La Françafrique, le Plus Long Scandale de la Republique, 2003.

*Pesquisador do CNRS

Tradução de André Rodrigues P. Silva

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