Quem cozinhou a sopa em Hong Kong?

M K Bhadrakumar*    02.Nov.14    Outros autores

A operação “occupy central” em Hong Kong, todo o folclore que a envolveu, todo o noticiário dos media internacionais que tentaram alimentá-la não passou de um guião já visto. Quando esta historia se repete muitas vezes, já não se repete apenas como farsa (embora tenha conduzido a várias tragédias). Repete-se como sinal do próprio esgotamento do arsenal conspirativo imperialista.

A sensacional reportagem da BBC revelando que os protestos em Hong Kong conhecidos como Occupy Central não foram na realidade nem espontâneos nem internos, mas sim coreografados cuidadosamente dois anos atrás e executados por forças estrangeiras, e que cerca de 1000 activistas chineses poderiam ser “manifestantes treinados”, corrobora as reportagens vindas de Moscovo há poucas semanas – as reportagens russas apontam sem hesitações o dedo aos EUA como mentor de tal empreendimento.

Em retrospectiva, Pequim parece ter lido as folhas de chá correctamente, tendo retirado grande quantidade de conclusões acerca da alquimia do misterioso fenómeno conhecido como as “revoluções coloridas” patrocinadas pelos EUA na última década. A ucraniana, naturalmente, é apenas a mais recente numa cadeia que começou na Geórgia em 2003, e é um facto mais ou menos estabelecido que estes chamados movimentos são realmente geopolíticos no seu carácter e inextricavelmente ligados às estratégias globais e políticas regionais dos EUA.

A Rússia tem sido o alvo principal e é interessante que também agora na China tenha sido feito um teste no terreno. É concebível que as “revoluções coloridas” constituam um tópico na cooperação de segurança Rússia-China, especialmente na região da Ásia Central.

O cronograma do empreendimento em Hong Kong pode ter tido algo a ver com a cimeira APEC (Asia-Pacific Economic Cooperation) em Pequim, programada para 10 de Novembro. As intenções podiam ter sido embaraçar o governo chinês ou mesmo testar os seus nervos e impeli-lo a utilizar força para suprimir os protestos.

Por outro lado, pode ter havido expectativas no ocidente de que os protestos pudessem atear fogo ao tecido socioeconómico na “China continental”. Alguns sabichões indianos na televisão estatal chegaram a visualizar um tal cenário apocalíptico.

Se assim é, o empreendimento fracassou quanto ao efeito desejado. A reportagem da BBC empana o Ocuppy Central quase irremediavelmente e qualquer agência de inteligência estrangeira saberia que os protestos se tornaram um “caso acabado” a partir de agora.

Na verdade, o mais impressionante é que a BBC tenha feito uma tal reportagem – agrupando os manifestantes de Hong Kong com sujeitos tão desacreditados como o grupo punk Pussy Riot da Rússia e um desertor da Coreia do Norte. É lógico que a Grã-Bretanha chegou à conclusão de que o Occupy Central fracassou para além de qualquer recuperação possível e a coisa certa a fazer sem mais tardar será distanciar-se do protesto.

A Grã-Bretanha saberia que, pouco importando quaisquer aberrações na ordem política em Hong Kong, a verdade histórica é que a democracia sob qualquer forma aparece pela primeira vez na história de Hong Kong apenas depois de a cidade mudar de mãos e ficar sob o controlo da China.

Na verdade, Pequim actuou com a cabeça fria. Ali não houve nada da brutalidade com que nós dispersámos Baba Ramdev da área de Ramlila dois anos atrás. Contudo, a abordagem de Pequim é na realidade dura como um prego. Muitos factores actuaram a favor de Pequim.

Na verdade Pequim deixou o caos seguir seu curso e estimou correctamente que em algum ponto, mais cedo ou mais tarde, a opinião pública em Hong Kong actuaria crescentemente contra a confusão e desordem resultantes. Aquela abordagem mostrou-se válida.

Pequim podia permitir-se uma abordagem tão calibrada por duas razões. Uma, porque Hong Kong já não é a locomotiva de crescimento para a economia da China. A cidade não é sequer um dos vagões principais do comboio. Shanghai e várias outras regiões no Leste ultrapassaram Hong Kong em dinamismo e prosperidade. Basta dizer que a importância de Hong Kong para a economia chinesa (e sua política externa) diminuiu consideravelmente e esta tendência só pode acentuar-se ao longo do tempo.

A segunda e mais importante razão é que a “opinião pública do continente” encarou os protestos em Hong Kong como um acto de petulância da “crianças mimadas” da cidade (as quais já desfrutam de um excesso de democracia) ao invés de arautos da democratização da sociedade chinesa. Há igualmente uma forte probabilidade de que a opinião pública do continente acredite no papel da “mão estrangeira”.

Pequim adoptou na verdade uma posição dura ao recusar negociar a sua prerrogativa em determinar o ritmo e a direcção da democratização da China. Manifestou também um alto nível de autoconfiança ao dispersar uma operação da inteligência estado-unidense sem explodir de raiva. (É igualmente de registar a calma compostura com que Pequim observou a estadia do Dalai Lama na América do Norte na véspera da cimeira APEC, também notável.)

A partir de agora, a utilização de métodos coercivos em Hong Kong compara-se favoravelmente com as medidas de força maciças nos protestos Occupy Wall Street, nos EUA, dois anos atrás. Parece que os diabos estrangeiros na Estrada da Seda calcularam mal.
27/Outubro/2014
*Antigo embaixador da Índia.

O original encontra-se em blogs.rediff.com/mkbhadrakumar/2014/10/27/who-cooked-the-hong-kong-broth/

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .

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