Quem domina a América ?

James Petras    27.Ene.07    Colaboradores

“O “capital financeiro” tem várias facetas e não poderá ser compreendido sem que seja feita uma referência a determinados sectores. Bancos de investimento, fundos de pensões, bancos de poupança, fundos de investimento, são apenas alguns exemplos dos managers operativos da economia multi-trilionária”.

INTRODUÇÃO

Para que possamos compreender, o mais aprofundadamente possível, como é que funciona o sistema político estadunidense, como é que as decisões de guerra ou de paz são tomadas, quem tem o quê, como e porquê, teremos que fazer a pergunta « Quem é que domina a América ? ». A questão « quem governa ? » necessita que vários esclarecimentos sejam feitos, especialmente no que diz respeito à confusão feita entre aqueles que fazem as regras governamentais e os parâmetros institucionais socio-económicos que definem que interesses servir. « Dominar » é o termo exacto, definindo quais as « regras » que devem ser seguidas pelos fazedores-de-opinião políticos e pelos administrativos aquando da formulação de orçamentos, de taxas, de legislação laboral e social, de políticas de troca e de questões militares e estratégicas, seja em tempo de guerra ou de paz. As « regras » são estabelecidas, modificadas e ajustadas de acordo com a composição dos sectores governantes da classe dominante [RC, em inglês: « Ruling Class »]. As « regras » mudam em função daqueles que, num determinado momento, dominam o poder. As mudanças no poder podem reflectir as dinâmicas internas de uma economia ou uma mudança de posição dos sectores económicos na economia mundial, em particular o crescimento ou a queda de competidores económicos.

As “regras” impostas por um sector económico da classe dominante (RC), num momento favorável da economia mundial, pode ser compreendido como a emergência de novos sectores económicos dominantes e a existência de condições externas desfavoráveis para os antigos sectores económicos dominantes. Descreveremos o declínio relativo e absoluto da manufactura estadunidense como estando directamente ligado com o aumento de um “sector financeiro” multidimensional e com a maior competitividade de outros países. O resultado é um processo de liberalização da economia acelerado, favorecido pela escalada de sectores financeiros. A liberalização de fluxos de investimentos que não estão regulados, de compras, de aquisições e de comércio aumenta os lucros, as comissões, as entradas de dinheiro e os bónus dos sectores financeiros. A liberalização facilita a aquisição de fundos por parte dos sectores financeiros. O declínio da competitividade do sector da velha classe fabril dominante, dependente do proteccionismo estatístico e de subsídios, leva a que políticas de « retaguarda » sejam aplicadas, ou seja, que políticas liberalizantes sejam aplicadas no estrangeiro e que o proteccionismo seja aplicado em casa.

A resposta à questão « quem governa ? » tem de ser feita em relação ao momento histórico e ao lugar da economia mundial. A resposta complica-se pelo facto de alguns grupos que alternam dentro dos « sectores » da classe dominante dizerem respeito a um « período de transição » prolongado. Durante este período, sectores ascendentes e em declínio podem confundir-se e, assim, os membros de classe de sectores em declínio podem « converter-se » ao sector crescente. A partir deste momento, enquanto que o poder entre os vários sectores económicos pode mudar, os grupos da classe dominante podem não perder nem sequer decair. Aqueles apenas mudam o lugar dos seus investimentos, adaptando-se às novas e lucrativas oportunidades criadas pelo sector em ascensão.

Por exemplo, quando o sector da manufactura estadunidense decaiu relativamente ao « capital financeiro », a maioria das grandes instituições de investimentos mudaram para os novos « sectores em crescimento » financeiros. Ao mesmo tempo, os sectores então convertidos da classe dominante mudaram as suas políticas, com vista a uma maior liberalização e desregulamentação, mesmo se enfraquecendo os pedidos de « retaguarda » do sector da manufactura não competitiva. Ao declínio de sectores económicos da RC podem, ainda, seguir-se mudanças estruturais drásticas, de forma a reganhar lucros e a manter influência e poder. A maioria destas mudanças consiste na recolocação de produtos além-fronteiras, onde os salários e os impostos sejam mais baixos e o poder sindical reduzido, aí se introduzindo, ainda, alta tecnologia, de forma a reduzir os custos do trabalho e a aumentar a produtividade, diversificando a actividade económica, para, desta forma, se poderem incorporar « serviços » financeiros lucrativos.

Por exemplo, a « General Electric » trocou a manufactura por serviços financeiros, por uma actividade intensiva de trabalho deslocado off-shore e por operações computorizadas. Tendo em conta estes movimentos, a distinção entre “manufactura” e capital financeiro torna-se obsoleta na descrição da “ classe dominante “.

Para que possam manter o mesmo peso político e económico na RC, os antigos capitalistas da manufactura fizeram subcontratações na Ásia e no México (General Motors/Ford), investindo além-fronteiras, de forma a capturar mercados estrangeiros, ou dedicando-se a operações comerciais ou de importação (sapatos, têxtil, brinquedos, electrónica e chips para computadores).

Os fabricantes locais que permanecem na RC encontram-se entre os fornecedores militares, vivendo das largas despesas do Estado e dependendo do suporte político dos Congressos e dos responsáveis sindicais, de forma a assegurar o emprego a uma força de trabalho de uma manufactura em decadência.

Durante este período de transacção de rápidas mudanças na classe dominante, abrem-se enormes oportunidades financeiras, em todo o mundo. Como resultado de tensões políticas entre a « classe governante », os fazedores de política chave são enviados directamente para as instituições mais representativas de Wall Street. As políticas económicas chave, especialmente aquelas que são mais relevantes para a RC, tendem a ser manipuladas pelas mãos experimentadas dos líderes de topo de Wall Street.

Apesar da (ou por causa da) ascensão de vários sectores do capital financeiro, na RC, e devido aos acordos feitos na óptica « liberalizante » de políticas económicas, aqueles sectores não são homogéneos na apresentação das suas políticas, na sua filiação partidária ou na apresentação das suas políticas externas. A maioria destas diferenças políticas são questões de pequena importância, excepto no que diz respeito à saída para o Médio Oriente. Um sector da RC, fortemente ligado com o Estado de Israel, apoia uma política belicosa em relação aos adversários do Estado Judeu (Irão, Síria, Hezbollah e Palestina); um outro sector da RC prefere uma abordagem diplomática, defendendo o aperto de laços com as elites árabes e persas. Dada a grande volta na política americana, no sentido de uma política estrangeira extremamente militarizada (devido à ascensão de ideólogos neo-conservadores, à forte influência do Lobby Sionista e à instabilidade e falhanço das suas políticas para o Médio Oriente e para a China), a RC fez pressão para que pudesse ter um controlo directo na política económica estrangeira.

As tensões e os conflitos entre a RC, especialmente entre os sionistas e os « defensores do mercado livre », têm tido mais importância do que os enormes benefícios económicos em todos os sectores. Todos os sectores financeiros da RC se enriqueceram com as políticas da Casa Branca e do Congresso. Todos beneficiaram com a ascensão de « regimes liberalizantes », por todo o mundo. Todos ficaram com os ganhos da fase expansionista da economia internacional. Se o Estado real e alguns sectores comerciais foram os principais beneficiários, foram os grupos financeiros, especialmente os bancos de investimento, que asseguraram a liderança política.

A ascensão do Capital Financeiro

O “capital financeiro” tem várias facetas e não poderá ser compreendido sem que seja feita uma referência a determinados sectores. Bancos de investimento, fundos de pensões, bancos de poupança, fundos de investimento, são apenas alguns exemplos dos managers operativos da economia multi-trilionária. Cada um destes sectores desenvolveu departamentos especializados, com o objectivo de trabalhar sobre tipos particulares de actividades especulativo-financeiras, de que são exemplos a mercadoria e a circulação, a troca, as aquisições de consultadoria e de managing e as fusões de companhias. Exceptuando poucos casos, ocasionais, o sector financeiro escreve as suas regras, controla os seus reguladores a assegura licenças para que possa especular sobre tudo, em qualquer ponto do mundo. Criaram o esqueleto, ou o universo, no qual todas as restantes actividades económicas (manufactura, venda a retalho e Estado real) têm o seu lugar.

O “capital financeiro” não representa um sector isolado e não pode ser contraposto à “economia produtiva”, excepto na “actividade local”, verdadeiramente marginal. Em grande parte, o capital financeiro interage com a “economia produtiva”, sendo a força vital que conduz a especulação do Estado real e as actividades de manufactura, de agro-negócios e de produção de mercadorias. Num campo mais vasto, os “preços de mercado” são tão influenciados pela intervenção especulativa como o são pela « oferta e pela procura ». Igualmente importante é o facto de que toda a arquitectura do “império do papel” (o conjunto dos investimentos financeiros que se inter-relacionam) tem estado, nos últimos tempos, dependente da produção de bens e de serviços. A estrutura do poder e da riqueza toma a forma de um triângulo invertido, no qual um vasto exército de trabalhadores, de campesinos e de empregados assalariados produz um valor que se torna a base, próxima ou longínqua, simples ou exótica, de instrumentos especulativos e lucrativos. A transferência do valor das actividades produtivas do trabalho para as ramificações crescentes de instrumentos financeiros é feita através de variadas formas: financiamento directo do proprietário de empresas, crédito, débito, poder de dívida, compras e fusões. A tendência dos “capitalistas produtivos” é a de montar uma empresa, de inovar, de explorar o trabalho, de capturar novos mercados para, depois, a « vender » ou a tornar « pública » (oferta/promoção de stocks). O sector financeiro age como um intermediário combinado, como um manager, como um comparador-procurador e como consultor, ganhando honorários substanciais, expandindo os seus impérios económicos e “preparando o caminho para altos níveis de aquisição e de fusão »; o « capital financeiro » é a parteira da concentração e da centralização da riqueza e do capital, assim como é o proprietário directo dos meios de produção e de distribuição. Exigindo cada vez mais maiores «tributos» ou «rendas» (comissões ou honorários) em cada transacção de capital, a larga escala, o « capital financeiro » passou a penetrar e a controlar uma grande quantidade de actividades económicas, transferindo capital através de fronteiras nacionais e sectoriais, extraindo lucro e provocando a queda de acções de acordo com o ciclo do negócio, do produto e do lucro.

Juntamente com a classe dominante, a elite financeira é uma outra componente parasita, excedendo o corporativismo patronal (CEO’s) e os maiores empresários, no que diz respeito aos pagamentos anuais e à riqueza (vejam-se as receitas e os activos anuais dos empresários super-milionários como William Gates ou Michael Dell).

A classe dominante financeira está estratificada internamente em três subgrupos : no topo, encontramos os grandes banqueiros privados (private equity bankers) e os managers de fundos (hedge-funds); seguem-se os chefes executivos de Wall Street e, depois, os associados seniores ou os vice-presidentes de grandes fundos privados (private equity funds); abaixo destes, estão os seus colegas de fundos públicos (public equity funds) de Wall Street. Aqueles que estão no topo, os managers e executivos de fundos, têm mais de mil milhões de dólares (1 bilião de dólares) de lucro, por ano, lucro superior àquele que é feito pelos CEO’s nas casas de investimento públicas (publicly traded investment houses). Por exemplo, em 2006, Lloyd Blankfein, CEO da « Goldman Sachs », ganhou 53,4 milhões de dólares, enquanto que Dan Ochs, executivo dos fundos « Och-Ziff Capital », se pagou a si próprio 220 milhões de dólares. Nesse mesmo ano, O CEO Morgan Stanley recebeu 40 milhões de dólares, enquanto que o chefe executivo dos fundos (hedge fund) « Citadel » recebeu mais de 300 milhões de dólares.

Enquanto que os especuladores de « fundos » (hedge funds) recebem os maiores salários anuais, os executivos privados (private equity executives) podem equalizar essas centenas de milhões de pagamentos, realizando acordos de honorários e pagamentos especiais de dividendos com certas companhias portfolio. Isto verificou-se, especialmente, em 2006, quando as compras atingiram um record de 710 biliões de dólares. Os « grandes » dólares para os patrões privados (private equity bosses) vieram dos prémios acumulados que os executivos têm em certas companhias de portfolio. Esses patrões ficam, normalmente, com 20% dos lucros que se realizam quando um grupo vende ou regista uma companhia portfolio. A partir deste momento, os pagamentos diários passam automaticamente para números que ascendem as centenas de milhões de dólares.

O substrato da classe dominante financeira é os “banqueiros júniores” das firmas privadas (private equity firms) que ganham, aproximadamente, 500, 000 dólares por ano. No rang inferior encontramos os “banqueiros juniores” das casas de investimento públicas (publicly traded investment houses) (“Wall Street”) que têm um salário de 350,000 dólares, por ano. A classe dominante financeira é constituída por estas elites multi-bilionárias de fundos (hedge funds), privados e públicos, de banqueiros (equity bankers) e de seus associados em grandes firmas corporativas legais e prestigiadas. Todos se encontram ligados com as autoridades judiciais e reguladoras, através de encontros políticos e de contribuições e, ainda, pela posição central que assumem na economia nacional.

Os líderes políticos, por sua vez, não vêm, normalmente, dos mais ricos especuladores de fundos (hedge funds), e, ainda menos, de entre os « banqueiros juniores ». Os líderes políticos vêm dos bancos (equity banks), públicos e privados, como de Wall Street – especialmente Goldman Sachs, Blackstone, Grupo Carlyle e outros. Organizam (e criaram) os dois maiores partidos e as suas campanhas eleitorais. Pressionam, negociam e desenham uma legislação que seja o mais compreensível e favorável possível às estratégias globais (liberalização e desregulamentação) e políticas sectoriais (redução de taxas, pressão governamental sobre países como a China, de forma a que estes « abram » os seus serviços financeiros à penetração estrangeira, e por aí fora…). Pressionam o governo para que « financie » firmas especulativas que abrem falência e para que baixe as despesas sociais, em vez de aumentar as taxas sobre os lucros especulativos.

A Dança dos Mil Milhões de Dólares (dos Biliões): O Capital Financeiro Recolhe os Lucros do seu Poder

Os especuladores de todo o mundo tiveram, no ano 2006, um grande ano, tendo duplicado os seus ganhos nos mercados dos EUA, da Europa e da Ásia. A China, o Brasil, a Rússia e a Índia foram centros de lucros especulativos : o índex chinês FTSE aumentou 94% e o mercado russo de « stock » aumentou 60% ; o Bovespe do Brasil alcançou os 32% e os Senses indiano atingiu os 46,7%. Em larga medida, os mercados de « stock » («stock markets») aumentaram devido ao crédito barato (precisamente, para que se possa especular), a uma liquidação forte (grandes financiamentos, petróleo, lucros de mercadorias e rendas) e às tão referidas « reformas » que deram aos investidores estrangeiros um maior acesso a mercados na China, na Índia e no Brasil. Os maiores lucros na especulação dos mercados de « stock » (« stock markets ») ocorreram sob regimes de « centro-esquerda » (Brasil e Índia) e na China Comunista, que se realinharam com os sectores « liderantes » mais retrógrados, da sua própria classe dominante.

O boom russo do mercado de « stock » (« stock market ») reflecte um processo diferente, uma vez que envolve a re-nacionalização dos sectores do gás e do petróleo, à custa dos oligarcas-gangsters da era de Yeltsin e da « substituição » (« give away ») dos contratos com companhias de petróleo e de gás europeias (Shell, Texaco). Como consequência desta política, enormes lucros foram reciclados internamente, entre os novos milionários da era Putin, os quais se encontram implicados em consumos conspícuos, em especulações e em investimentos e aventuras com companhias de manufactura estrangeiras, ligadas ao transporte e à energia.

O capital especulativo (controlado pelo estrangeiro) emergente na China, na Índia e no Brasil, contrário que é aos investimentos « nacionais e estatais » russos, tem como resultado a hostilidade irracional e vitriólica da imprensa financeira ocidental, relativamente ao Presidente Putin.

Uma das maiores fontes de criação de lucro encontra-se na área das « fusões e das aquisições » (« mergers ans acquisitions » - M&A), da compra e da venda de conglomerados multinacionais, que, em 2006, alcançaram o valor de negócios de $3,900 mil milhões (biliões). Os bancos de investimento tiveram honorários na ordem dos $18,8 mil milhões (biliões) de dólares, conduzindo a bónus de multi-milhões de dólares para os banqueiros « M&A ». Os M&A, hostis ou benignos, representam uma larga actividade especulativa, alimentada por dívidas baratas, que contribui para uma maior concentração da propriedade e dos lucros. Hoje em dia, diz-se que 2% das grandes casas possuem 80% dos activos. No interior desta pequena elite, uma fracção penetra na propriedade do capital financeiro e controla o volume dos activos mundiais e organiza e facilita futuras concentrações de conglomerados. O valor dos M&A especulativos, à escala mundial, é 16% superior ao valor mais elevado atingido pelo boom especulativo « DOTCOM », no ano 2000. Só nos EUA, mais de $400 mil milhões (biliões) de dólares dizem respeito ao valor dos negócios privados (“private equity deals”), durante o ano de 2005, número três vezes superior ao do ano anterior.

Para que possamos compreender quem são os principais membros da classe dominante financeira, basta olharmos para os dez bancos privados mais importantes (« private equity banks ») e para o valor e número dos negócios M&A nos quais aqueles estão envolvidos.

Tradução de Ana Saldanha

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