Quem precisa disto?

Gideon Levy*    10.Ago.09    Outros autores

Gideon Levy“Como um boicote internacional ou um terrível derramamento de sangue não se vêem no horizonte próximo, então, com o que nos deveríamos preocupar? É certo que o mundo começou a olhar de esguelha para Israel, mas o que é que isso importa? Os israelenses estão convencidos que, de qualquer maneira, o mundo os odeia. Enquanto puderem continuar a gozar os prazeres da vida não há razão para preocupações. Tentem perguntar aos israelenses por que se fecham e ouvirão desdém, nunca uma autocrítica. Os israelenses não somente desfrutam como estão muito contentes consigo mesmo, do seu alto nível de moralidade, do seu exército e do seu país”.

Na verdade, quem precisa de tudo isto? O presidente dos Estados Unidos investe uma parte do seu precioso tempo e da sua boa vontade a tentar convencer da necessidade de pôr fim ao conflito, os europeus estão dispostos a entrar em acção, meio mundo aguarda, mas, sejamos sinceros: por que carregamos com toda esta história? os colonos poderiam fazer ouvir a sua terrível voz e fechar os postos de controlo, o exército podia descer da sua glória, as notícias voltariam a ser aborrecidas, as vinhas dos montes Gola poderia fechar e prejudicar a loja de vinho de Ofrah. A vida em Israel é genial, quem é que tem agora tempo para pensar em paz, em negociações, retiradas, o «preço» que devemos pagar e toda esta desnecessária desordem? Os cafés estão cheios de bulício e os restaurantes repletos, os locais de férias cheios, os mercados transbordam, a televisão estupidifica, há engarrafamentos nas estradas, os festivais estão em pleno, a “Scala” actuou no parque e a Madonna continuará, as praias cheios de pessoas daqui e de veraneantes, o Verão de 2009 é maravilhoso, então por que devíamos mudar?

Os israelenses não pagam qualquer preço pela ocupação. A vida em Israel é incomensuravelmente melhor que noutros países. A crise financeira mundial repercutiu-se menos em Israel que noutros lados, há pobres, mas não tantos como no terceiro mundo, nem os ricos nem a classe média se viram seriamente afectados. A segurança está sob controlo. Não há ataques terroristas, não há árabes: quando terrorismo acalma, como sucedeu nos últimos anos, que é que se recorda que há um «problema palestino»? O exército o primeiro-ministro, Benjamin Netaniahu podem continuara a temorizar-nos com o perigo terrorista, mas, entretanto, este não existe; a ameaça nuclear iraniana, momentaneamente, também é uma vaga opção. De momento, a vida em Israel é segura.

Claro, de tantos em tantos anos irrompe uma onda de violência, mas normalmente acontece em lugares periféricos, que não interessam a ninguém que vive no centro do país, são mísseis Kassam sobre Sederot ou katiushas sobre Kiryat Shmona. Depois vem o período de acalmia, como este agora. O muro, a imprensa, o sistema educativo, e a propaganda política fazem um magnífico trabalho, criam a ilusão de nos fazer esquecer aquilo que precisamos de esquecer e ocultar o precisamos de esconder. Eles estão lá e nós estamos aqui, e aqui a vida é uma doçura como o mel, e não uma explosão. Como a Suiça? Talvez melhor.

Sempre soubemos somar os prazeres da vida. Praticamos o culto da segurança, a verdadeira religião da sociedade, e perpetuamos a memória do Holocausto. Em Israel podemos desfrutar, e vitimizarmo-nos, estarmos em festa e queixarmo-nos. Onde é que outro lugar assim?

Os israelenses não pagam qualquer preço pela injustiça da ocupação, pelo que a ocupação nunca terminará Só terminará no momento em que os israelenses paguem e entendam o custo da ocupação. Nunca porão fim à ocupação por sua própria iniciativa, por que é que deveriam fazê-lo? Nem o mais cruel dos ataques terroristas ocorrido no país conseguiu que os israelenses compreendam a relação de causa e efeito entre a ocupação e o terror. Sob a capa da imprensa e dos políticos, as duas fontes de enlouquecimento e de cegueira mais importantes da sociedade israelense, aprendemos a pensar que os árabes nasceram para matar, que todo o mundo está contra nós, que o anti-semitismo é que predomina nas relações com Israel, que não existe relação entre as nossas coisas e o preço que pagamos de vez em quando.

Como um boicote internacional ou um terrível derramamento de sangue não se vêem no horizonte próximo, então, com o que nos deveríamos preocupar? É certo que o mundo começou a olhar de esguelha para Israel, mas o que é que isso importa? Os israelenses estão convencidos que, de qualquer maneira, o mundo os odeia. Enquanto puderem continuar a gozar os prazeres da vida não há razão para preocupações. Tentem perguntar aos israelenses por que se fecham e ouvirão desdém, nunca uma autocrítica. Os israelenses não somente desfrutam como estão muito contentes consigo mesmo, do seu alto nível de moralidade, do seu exército e do seu país.

Tudo isto podia ser muito bom se não fosse o facto da cegueira ser perigosa e de um final pouco feliz ser previsível. Outro genial Verão em Telavive – e em Gaza e em Jenin – mas uma parte do mundo lançar-nos-á isto à cara. E então mostraremos um rosto surpreendido, de miseráveis vítimas, uma coisa que a nós tanto nos gosta.

* Colunista de o diário israelense Haaretz

Tradução de José Paulo Gascão a partir da versão em espanhol publicada em

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