Ratzinger e o milagre das rosas ( II )

Jorge Messias    24.Feb.07    Colaboradores

“Na realidade quem governou a igreja durante uma década, por interposta pessoa”, devido à evidente incapacidade por doença de João Paulo II, “foi o cardeal Ratzinger que se fez cercar por uma impressionante rede de conselheiros e colaboradores, conservadores, tecnocratas, jesuítas e do Opus Dei”

Quando foi eleito papa pelo Colégio Cardinalício, Ratzinger tinha já um passado que o definia claramente. Era ultraconservador, determinado e duro. Sabe-se que no conclave houve uma febril corrida a todo o género de pressões, por parte de poderosos grupos de interesses, mas o facto evidente é que os cardeais eleitores que escolheram Ratzinger o fizeram conscientemente. Tinham ideias claras sobre a igreja que queriam e acerca do homem a quem entregavam todo o poder. Sabe-se, de resto, que entre os vários “lobbies” foi negociado e concluído um “ Pacto do Conclave “.

Na altura em que o cardeal se transfigurou no papa Bento XVI, a sua longa carreira eclesiástica não dava margem a dúvidas. Doutorado em Teologia, ainda decorriam as sessões do Vaticano II (1962 a 1965), foi conselheiro pessoal do poderoso arcebispo de Colónia, o cardeal Joseph Frings. O facto deve ser assinalado visto que Frings dominava os capitais fabulosos da mais rica diocese alemã. Colónia, juntamente com o arcebispado de Boston, viria a desempenhar um papel decisivo nas transformações sofridas pelo Vaticano durante e depois da grande crise financeira causada pelas políticas de intervenção do Vaticano e pela gestão aventureirista do cardeal norte-americano Paul Marcinkus.

Porém, o primeiro grande plano da notoriedade obtida por Ratzinger - também conhecido na igreja como Monsenhor Panzer - teria de aguardar pela década de 80, quando o seu íntimo amigo João Paulo II, em 1981, o designou para Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, a sucessora do temível Tribunal do Santo Ofício.

Nesses anos, admitia-se que uma nova cisão atingisse a igreja, tal como acontecera no século XVI, a partir da Reforma de Martinho Lutero. Surgira na América Latina um novo conceito de missão cujas características principais eram, por um lado, a permanência das igrejas locais nos quadros orgânicos da instituição católica tradicional; por outro lado, a condução das lutas dos pobres e dos explorados em termos de uma verdadeira revolução social. Formaram-se então as primeiras comunidades de base. Organizavam-se os camponeses sem terra.

Curiosamente, sem nenhuma afinidade ter com esta orientação, Ratzinger participava num núcleo jesuíta (o da Revista Concilium) cujo principal objectivo estratégico consistia em apoiar a Teologia da Libertação desde que esta representasse uma alternativa à influência crescente dos partidos comunistas e de libertação das Américas do Centro e do Sul. Mas as posições dos teólogos da libertação continuavam a resvalar para a esquerda política. A intervenção conjunta de Ratzinger e de Wojtyla fez-se então notar pelo rancor das perseguições movidas a padres e a teólogos do novo movimento eclesial. A neutralização de sacerdotes e leigos como os irmãos Boff, Gustavo Gutierrez, Hans Kung ou Ernesto e Fernando Cardenal depressa decapitou a chamada “Igreja dos Pobres”. Simultaneamente, o Vaticano em ligação íntima com a administração norte-americana, com o Pentágono e com a CIA, apoiou as ditaduras militares e os mais reaccionários movimentos religiosos da América Latina. Dez anos mais tarde, a mesma história viria a ter lugar nos países da Europa Central e do Leste, culminando com o derrube dos regimes socialistas no poder. Estes acontecimentos corresponderam, sem dúvida, aos mais brilhantes êxitos obtidos pela aliança igreja/capital liderada por João Paulo II e por Joseph Ratzinger que agora ocupa a cátedra de S. Pedro e era, então, a eminência parda de todo o sistema capitalista neoliberal e católico.

O “milagre das rosas”

Embora a presença de Ratzinger fosse sempre uma constante nos actos e nas teses de João Paulo II, a imagem que o cardeal alemão cultivou foi sempre subsidiária do protagonismo do papa. Com uma ou outra inevitável excepção, as punições, as transferências de cargos ou a espionagem exercida pela Congregação da Doutrina da Fé contra os homens e as mulheres da Teologia da Libertação disfarçaram a sua tirania atrás da fachada das obrigações impostas pelo princípio da unidade da igreja de que o Papa é supremo responsável. Sabia-se já que o papa polaco era portador de uma doença degenerativa irreversível. Deste modo, na realidade quem governou a igreja durante uma década, por interposta pessoa, foi o cardeal Ratzinger que se fez cercar por uma impressionante rede de conselheiros e colaboradores, conservadores, tecnocratas, jesuítas e do Opus Dei. Ao longo dos anos 80 assistiu-se, igualmente, à reabilitação das organizações católicas mais reaccionárias (Lefebrevianos, Comunidade de Santo Egídio, Comunhão e Libertação, etc.); radicalizaram-se as posições dogmáticas da hierarquia em relação aos problemas internos da igreja, nomeadamente os da democratização do aparelho, da inclusão eclesial da mulher, do celibato dos padres e do centrismo eclesiástico. Outrotanto poderá dizer-se relativamente às grandes questões da humanidade: às formas de organização do poder, à distribuição da riqueza e à rapina agravada dos recursos humanos, geradora das guerras, das lutas de classes e do desemprego, da formação de monopólios tecnológicos, da exploração dos povos mais pobres localizados nas terras dos recursos naturais mais ricos, da prostituição, do fabrico e comércio das armas, do abuso das crianças, das misérias da droga. Em todos estes campos vitais e ao longo da influência crescente de Ratzinger, esse imenso leque de grandes questões recebeu um tratamento ambíguo por parte do Vaticano, desproporcional à tremenda força política e financeira que a Santa Sé acumulara. Definições de base desse tipo e a noção que o Vaticano tem do seu próprio poderio endureceram, na era de Ratzinger, e são factores decisivos no constante agravamento da situação mundial.

Não se esgotam porém, nas encíclicas e pastorais de duplo sentido, os reflexos negativos que o fundamentalismo de uma religião tão vasta como a católica podem causar à humanidade. Sob a capa da intelectualidade, Joseph Ratzinger tudo tem feito para submeter as ciências ao jugo da ética e da moral católicas. Anátemas à contracepção, à sida (a que o Vaticano chama patologia do espírito a resolver com a castidade), ao aborto desejado pela mulher, à pena de morte a não ser em casos de absoluta necessidade” (!), à homossexualidade, à laicização do ensino e à intervenção efectiva do Estado na prestação dos cuidados de saúde, na segurança social, no controlo da banca, nas comunicação, nas instituições que se afirmam com fins não lucrativos, nas fundações filantrópicas, nos casos de corrupção a nível do Estado ou dos monopólios multinacionais, etc., etc. Se olharmos de perto, uma a uma, estas tristes realidades à luz da ética católica cuja paternidade pertence, em grande medida, à vasta rede dominada por Ratzinger, veremos como a doutrina católica garante invariavelmente uma saída salvadora para os autores dos crimes a que os teólogos chamam pecado. Tudo o resto é anátema. Anátemas à eutanásia clínica, mesmo em casos desesperados e a pedido do doente; à aproximação da igreja com outros credos que persistam em conservar a sua independência face à hierarquia romana; aos ateus e aos não-crentes; a qualquer tentativa de laicização da sociedade civil como forma de oposição ao império do poder central e religioso; anátema aos que ainda sonham com uma “igreja dos pobres”, com a abertura de uma janela sobre o mundo ou com a rigorosa utilização de conceitos obscuros (como os de voluntariado, de banca social ou de nova evangelização), apenas no sentido da fé e com completa condenação do seu aproveitamento em função dos interesses dos ricos e dos opressores.

É claro que os teóricos da velha igreja que preparam os engodos do catolicismo doutrinal compreendem que a mensagem do obscurantismo só poderá passar aos homens trocando o passo às palavras e convencendo a opinião de que repressão é liberdade e a miséria pureza espiritual. Por isso, logo a seguir à eleição pelos cardeais, de Bento XVI, surgiu a tese espantosa de que Ratzinger, o “mau da fita”, morrera na História e se transfigurara num Bento XVI intelectualizado, sem ambição nem interesses materiais, puramente espiritual. Vistas bem as coisas, trata-se da nova versão, revista e aumentada, do velho “milagre das rosas”. A Rainha Santa levava no regaço o dinheiro dos pobres mas quando o feroz marido quis saber o que ela transportava em si, a rainha benzeu-se e respondeu “ São rosas, Senhor …”.

É evidente que o tempo dos milagres já passou. Está fora de questão convencer alguém de que o papa actual não é o Ratzinger, tal qual sempre foi. Tanto mais que chegam notícias insistentes de que Bento XVI está a proceder a uma cuidadosa limpeza no próprio Colégio dos Cardeais e no governo do Vaticano. “Limpeza”, desta vez entre os conservadores e tecnocratas, a exemplo da que já fez há anos, entre os teólogos e bispos progressistas.

Uma vez mais, trata-se de dividir para reinar. Nada de novo nem de original. É um princípio respeitado na Companhia de Jesus. E quanto aos métodos que Bento XVI utiliza, também nada têm de especial. São-nos mesmo familiares: emagrecimento do número de cardeais, reformas antecipadas, transferência de cargos, encerramento de serviços, aperto dos cintos de alguns e criação de novos postos para os íntimos do papa, definição de um novo figurino para uma igreja que se deseja obediente, disciplinada, servil, funcionando como uma milícia ao serviço do papa. Lá, tal como cá.

Note-se, porém, que quanto mais a igreja católica procurar soluções deste tipo, maior é o seu descrédito.

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