Recado curto e grosso*

Anabela Fino    08.Sep.12    Outros autores

Anabela FinoA arrogância imperial com que a troika estrangeira trata os países “intervencionados” atinge extremos de humilhação. Agora envia as suas ordens aos ministérios gregos por correio electrónico. Não se trata de descortesia acidental. Trata-se de deixar bem claro que para a troika estrangeira a Grécia (ou Portugal) deixou de ser um país soberano. As correspondentes troikas nacionais assim colonizadas têm o comportamento correspondente: agacham-se.

As ordens chegaram por mensagem electrónica aos ministérios gregos das Finanças e do Trabalho e não há dúvidas quanto à respectiva autenticidade; foi mesmo a troika estrangeira que está a tratar da saúde aos gregos quem decidiu recorrer a este meio expedito para ditar aos seus serventuários locais os próximos passos a seguir para apressar a liquidação do país-berço da cultura ocidental aos mais diversos níveis.

O recado – divulgado pelo diário económico Imerisia na segunda-feira – é curto e grosso na forma e no conteúdo: há que pôr os gregos que ainda têm trabalho a trabalhar seis dias por semana; reduzir para 11 horas o período de descanso mínimo entre turnos de trabalho; acabar com as restrições às alterações de turnos de trabalho para permitir que as mesmas satisfaçam as necessidades dos patrões; reduzir para metade a indemnização por despedimento, tal como o prazo de que dispõe a empresa para notificar o trabalhador da rescisão do contrato; reduzir ainda mais a contribuição das empresas para a Segurança Social.

É de admitir que a missão da troika, quando chegar amanhã a Atenas para mais uma «avaliação», de que dependerá nova tranche a cobrar com juros de usura, espere ter o assunto se não arrumado pelo menos em avançado estado de maturação. Afinal, «só» se trata de pôr mais lenha na fogueira que já mandou 23,1 por cento dos trabalhadores para o desemprego (dados de Maio), fez recuar em três décadas o nível do poder de compra dos assalariados, e fará regredir o PIB – só este ano, segundo as estimativas dos sindicatos – qualquer coisa como sete por cento. Com as novas imposições, que implicam cortes da ordem dos 11,5 mil milhões de euros, o desemprego pode disparar para os 29 por cento em 2013. Nada de mais, como se vê.

Já agora, cabe notar que por cá – na terra dos bons alunos – as propostas ainda chegam ao vivo e a cores, tanto quanto se sabe, embora nem por isso sejam de mais fino recorte: reduzir salários, despedir sem restrições, cortar subsídios, acabar com as portarias de extensão, descapitalizar a Segurança Social… é a receita mais do mesmo para acabar com o moribundo. Um pavio tão curto está mesmo a pedir resposta grossa.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº2023, 6.09.2012

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