Reflexão sobre a pandemia

Orhan Pamuk    13.May.20    Outros autores

O grande escritor turco Orhan Pamuk, prémio Nobel da Literatura, escreveu no The New York Times esta bela reflexão. Com ele recordamos que a história da humanidade é também fortemente marcada pelo rasto de grandes epidemias. Que os comportamentos humanos perante elas têm historicamente traços comuns. Que o isolamento e a solidão, e o medo da morte, podem assumir duas faces, e que a outra é a da solidariedade e do entendimento entre os humanos que partilham, em todos os continentes, a mesma situação.

Nos últimos quatro anos escrevi um romance histórico situado em 1901, durante o que é conhecido como a terceira pandemia de peste, um surto de peste bubónica que matou milhões de pessoas na Ásia, mas não muitas na Europa. Nos últimos dois meses amigos e familiares, editores e jornalistas que conhecem o assunto desse romance, “Noites de Praga”, vêm-me fazendo uma enxurrada de perguntas sobre pandemias.

Estão sobretudo curiosos acerca das semelhanças entre a actual pandemia de coronavírus e os surtos históricos de peste e cólera. Há uma superabundância de semelhanças. Ao longo da história humana e literária, o que torna as pandemias semelhantes não é mera comunalidade de germes e vírus mas que as nossas respostas iniciais tenham sempre sido as mesmas.

A resposta inicial ao surto de uma pandemia foi sempre a negação. Os governos nacionais e locais atrasaram-se sempre em responder e distorceram factos e manipularam números para negar a existência do surto.

Nas páginas iniciais de “Um Diário do Ano da Peste”, a mais esclarecedora obra literária já escrita sobre contágio e comportamento humano, Daniel Defoe refere que em 1664 as autoridades locais em alguns bairros de Londres tentaram fazer com que o número de as mortes em resultado da praga parecesse inferior ao real, registando outras doenças, inventadas, como causa da morte.

No romance de 1827 “I Promessi Sposi”, talvez o mais realista romance já escrito sobre um surto de peste, o escritor italiano Alessandro Manzoni descreve e apoia a raiva da população local face à resposta oficial à praga de 1630 em Milão. Apesar das evidências, o governador de Milão ignora a ameaça representada pela doença e nem mesmo cancela as comemorações de aniversário de um príncipe local. Manzoni mostrou que a praga se espalhou rapidamente porque as restrições introduzidas eram insuficientes, a sua aplicação era frouxa e os seus concidadãos não as atenderam.

Grande parte da literatura sobre pragas e doenças contagiosas apresenta o descuido, a incompetência e o egoísmo dos que estão no poder como o único instigador da fúria das massas. Mas os melhores escritores, como Defoe e Camus, permitiram aos seus leitores vislumbrar algo que está para além das políticas sob a vaga de fúria popular, algo que é intrínseco à condição humana.

O romance de Defoe mostra-nos que por detrás das intermináveis ​​críticas e ilimitada raiva existe também uma raiva contra o destino, contra uma vontade divina que testemunha e talvez até tolere toda essa morte e sofrimento humano, e uma raiva contra as instituições da religião organizada que parecem inseguras sobre como lidar com seja o que for disso.

A outra resposta universal e aparentemente espontânea da humanidade face às pandemias foi sempre criar boatos e divulgar informação falsa. Durante as pandemias passadas, os boatos foram principalmente alimentados pela desinformação e pela impossibilidade de ver o quadro geral.

Defoe e Manzoni escreveram sobre as pessoas manterem distâncias quando se encontravam nas ruas durante as pragas, mas também pedindo notícias e histórias das suas respectivas cidades e bairros, para poderem articular um quadro mais amplo da doença. Somente através dessa visão mais ampla poderiam esperar escapar da morte e encontrar um lugar seguro para se abrigar.

Num mundo sem jornais, rádio, televisão ou internet, a maioria analfabeta dispunha apenas da sua imaginação para vislumbrar onde estava o perigo, a sua severidade e a extensão do tormento que poderia causar. Essa sustentação na imaginação deu ao medo de cada pessoa a sua própria voz individual e imbuiu-a de uma qualidade lírica - localizada, espiritual e mítica.
Os boatos mais comuns durante surtos de peste foram sobre quem tinha trazido a doença e de onde ela vinha. Por volta de meados de Março, quando o pânico e o medo se começaram a espalhar pela Turquia, o gerente do meu banco em Cihangir, o meu bairro em Istambul, disse-me com ar conhecedor que “essa coisa” era a resposta económica da China aos Estados Unidos e ao resto do mundo.

Tal como o próprio mal, a praga foi sempre retratada como algo que viera de fora. Já havia atingido outro lugar antes, e não havia sido feito o suficiente para a conter. No seu relato da propagação da praga em Atenas Tucídides começou por notar que o surto tinha começado muito longe, na Etiópia e no Egipto.

A doença é estrangeira, vem de fora, é trazida com intenção maliciosa. Os rumores sobre a suposta identidade dos seus portadores originais são sempre os mais difundidos e populares.
Em “I Promessi Sposi “, Manzoni descreveu uma figura que tem constituído desde a Idade Média um elemento fixo na imaginação popular durante surtos de peste: Todos os dias haveria um boato sobre esta presença demoníaca e malévola que no escuro andava a espalhar líquido infectado de pestilência nos puxadores das portas e nas fontes de água. Ou talvez um velho cansado que se tinha sentado no chão dentro de uma igreja para repousar fosse acusado por uma mulher que passava de ter esfregado o casaco à volta para espalhar a doença. E em breve se reunia uma multidão de linchadores.

Estas explosões inesperadas e incontroláveis ​​de violência, boatos, pânico e rebelião são comuns em relatos de epidemias de peste desde o Renascimento. Marco Aurélio culpou os cristãos no Império Romano pela praga da varíola de Antonino, pois eles não se associaram aos rituais para propiciar os deuses romanos. E durante as pragas subsequentes, os judeus foram acusados ​​de envenenar os poços tanto no Império Otomano como na Europa cristã.

A história e a literatura das pragas mostram-nos que a intensidade do sofrimento, do medo da morte, do pavor metafísico e do senso de estranheza experimentado pela população atingida determinará também a profundidade da sua raiva e descontentamento político.

Tal como naquelas antigas pandemias de peste, rumores infundados e acusações baseadas em identidades nacionalistas, religiosas, étnicas e regionalistas tiveram um efeito significativo sobre a forma como os acontecimentos se têm desenrolado durante o surto de coronavírus. A propensão das redes sociais e dos media populistas de direita para amplificar mentiras desempenhou também um papel.

Hoje, porém, temos acesso a um maior volume de informação confiável ​​sobre a pandemia que estamos a viver do que aquele que as pessoas alguma vez tiveram em qualquer pandemia anterior. É também isso que torna tão diferente o poderoso e justificável medo que todos sentimos hoje. O nosso terror é menos alimentado por rumores e mais baseado em informação precisa.

Quando vemos multiplicarem-se os pontos vermelhos nos mapas dos nossos países e do mundo, percebemos que já não resta nenhum lugar para onde fugir. Nem precisamos da nossa imaginação para começar a temer o pior. Assistimos a vídeos de colunas de grandes camiões negros do exército carregando cadáveres de pequenas cidades italianas para crematórios próximos, como se estivéssemos a assistir ao nosso próprio cortejo fúnebre.

O terror que estamos a sentir, no entanto, exclui imaginação e individualidade, e revela quão inesperadamente semelhantes são as nossas frágeis vidas e compartilhada humanidade. O medo, tal como a ideia da morte, faz-nos sentir sós, mas o reconhecimento de que todos estamos a experimentar uma angústia semelhante retira-nos da nossa solidão.

O conhecimento de que toda a humanidade, da Tailândia a Nova York, compartilha as nossas ansiedades sobre como e onde usar uma máscara facial, a forma mais segura de lidar com os alimentos que compramos na mercearia e se a quarentena é de manter é uma constante advertência de que não estamos sozinhos. Gera um senso de solidariedade. Não estamos já mortificados pelo nosso medo; descobrimos nele uma humildade que encoraja a compreensão mútua.

Quando assisto as imagens televisionadas de pessoas à espera no exterior dos maiores hospitais do mundo, percebo que o meu terror é compartilhado pelo resto da humanidade, e não me sinto sozinho. Com o tempo, sinto menos vergonha do meu medo e vejo-o cada vez mais como uma resposta perfeitamente sensata. Lembro-me daquele ditado sobre pandemias e pragas, que diz que aqueles que têm medo vivem mais.

Eventualmente, percebo que o medo provoca duas respostas distintas em mim, e talvez em todos nós. Às vezes, faz com que me retire para a solidão e o silêncio. Mas outras vezes ensina-me a ser humilde e a praticar a solidariedade.

Comecei a sonhar em escrever um romance sobre a peste há 30 anos, e mesmo nessa fase inicial o meu foco estava no medo da morte. Em 1561, o escritor Ogier Ghiselin de Busbecq - embaixador do Império dos Habsburgos no Império Otomano durante o reinado de Suleiman, o Magnífico - escapou da praga em Istambul refugiando-se a seis horas de distância na ilha de Prinkipo,a maior das ilhas dos Príncipes, a sudeste de Istambul, no mar de Mármara. Observou as insuficientemente restritivas leis de quarentena introduzidas em Istambul e declarou que os turcos eram “fatalistas” por causa de sua religião, o Islão.

Cerca de século e meio mais tarde, até mesmo o sábio Defoe escreveu no seu romance sobre a praga de Londres que turcos e maometanos “professavam Noções de predestinação, e de ser predeterminado o fim de todos os homens”. O meu romance sobre a peste ajudar-me-ia a pensar o “fatalismo” muçulmano no contexto do secularismo e da modernidade.

Fatalistas ou não, historicamente foi sempre mais difícil convencer muçulmanos do que cristãos a tolerar medidas de quarentena durante uma pandemia, especialmente no Império Otomano. Os protestos comercialmente motivados que os lojistas e a gente do campo de todas as religiões tendiam a levantar quando resistiam à quarentena eram agravados, entre as comunidades muçulmanas, por questões relacionadas com a modéstia feminina e a privacidade doméstica. As comunidades muçulmanas no início do século XIX exigiam “médicos muçulmanos”, pois na época a maioria dos médicos era cristã, mesmo no Império Otomano.

A partir da década de 1850, como as viagens de barco a vapor estavam a ficar mais baratas, os peregrinos que viajavam para as terras santas muçulmanas de Meca e Medina tornaram-se os mais prolíficos transportadores e propagadores de doenças infecciosas do mundo. Na viragem para o século XX, para controlar o fluxo de peregrinos para Meca e Medina e de volta para seus países os britânicos estabeleceram um dos principais escritórios de quarentena do mundo em Alexandria, no Egipto.

Estes desenvolvimentos históricos foram responsáveis ​​por espalhar não apenas a estereotipada noção do ‘fatalismo’ moçulmano mas também o preconceito de que eles e os outros povos da Ásia eram os originadores e os únicos portadores de doenças contagiosas.
Quando, no final de “Crime e Castigo” de Fyodor Dostoievski, Raskolnikov, protagonista do romance sonha com uma praga, está a falar do interior da mesma tradição literária: “Sonhava que o mundo inteiro estivesse condenado a uma nova e terrível praga estranha que havia chegado à Europa vinda das profundezas da Ásia.”

Nos mapas dos séculos XVII e XVIII, a fronteira política do Império Otomano, onde se considerava ter início o mundo para além do Ocidente, era marcada pelo Danúbio. Mas a fronteira cultural e antropológica entre os dois mundos era assinalada pela praga e pelo facto de a probabilidade de a contrair ser muito mais elevada a leste do Danúbio. Tudo isto reforçou não apenas a ideia do fatalismo inato tantas vezes atribuído às culturas orientais e asiáticas, mas também a noção preconcebida de que pragas e outras epidemias provinham sempre dos recantos mais sombrios do Oriente.

A imagem que recolhemos de numerosos relatos históricos locais diz-nos que, mesmo durante grandes pandemias de peste, as mesquitas em Istambul ainda realizavam funerais, os enlutados ainda se visitavam para oferecer condolências e chorosos abraços, e antes de se preocuparem com de onde viera a doença e como estava a espalhar-se, as pessoas estavam preocupadas em estar adequadamente preparadas para o funeral seguinte.

No entanto, durante a actual pandemia de coronavírus, o governo turco adoptou uma abordagem secular, proibindo funerais para aqueles que tenham morrido da doença e tomando a decisão inequívoca de fechar mesquitas às sextas-feiras, quando os fiéis normalmente se reuniam em grandes grupos para a oração mais importante da semana. Os turcos não se opuseram a essas medidas. Por maior que o nosso medo seja, é também sábio e tolerante.
Para que um mundo melhor surja após esta pandemia, devemos abraçar e nutrir os sentimentos de humildade e solidariedade gerados pelo momento actual.”

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