Resultado paradoxal de uma fake news

Atilio A. Boron    21.Jul.20    Outros autores

Dois jornais reaccionários argentinos fizeram manchete com base em informação falsa acerca da posição sobre a Venezuela assumida pelo seu governo na reunião da Comissão de Direitos Humanos da ONU em Genebra. O tiro saiu-lhes duplamente pela culatra: fizeram figura de urso (juntamente com os seus patronos políticos, que enganaram) e provocaram uma clarificação positiva na política externa do país. Para quem conheça o papel dos media reaccionários na América Latina, é um importante registo.

A mentira criada por dois jornais reacionários da Argentina teve um efeito inesperado: enganou e os seus incansáveis ​​promotores fizeram figura de urso.

Ontem à tarde, Clarín e La Nación titulavam a sua edição digital com grandes caracteres celebrando o pronunciamento do governo argentino na Comissão de Direitos Humanos da ONU reunida em Genebra. Engolindo sem a menor perspicácia a notícia – incompleta e tendenciosa e portanto falsa - divulgada pela “imprensa independente”, a direcção do PRO não tardou a emitir uma declaração na qual “felicitava” o governo argentino pelo seu “reconhecimento, tardio mas correcto, sobre a grave situação venezuelana”. O comunicado intitulado “Mais vale tarde do que nunca” foi assinado por Patricia Bullrich e Fulvio Pompeo (não confundir com Mike, o secretário de Estado, embora ambos pensem da mesma forma) culmina com uma exortação ao governo para manter essa atitude “no tempo, nos diferentes âmbitos políticos e diplomáticos existentes, a fim de apoiar um processo que permita sem mais delongas eleições livres e independentes na Venezuela.”

Nesse caso, a meia verdade criada pela fake news enganou e os seus incansáveis ​​promotores fizeram figura de urso. De facto, passado pouco foi conhecida a versão completa da posição argentina, onde se ratificava: a) o reconhecimento de Nicolás Maduro como o único presidente legítimo da Venezuela; b) a legalidade da convocação de eleições parlamentares marcadas pelo governo bolivariano para Dezembro deste ano; c) se reafirmava a condenação do bloqueio e das sanções económicas, que exacerbam o sofrimento da população; d) o mesmo relativamente ao princípio da não intervenção, tema sobre o qual, no programa Victor Hugo Morales para a AM 750, o presidente reafirmou que ninguém tinha o direito de dizer aos venezuelanos como deveriam resolver seus problemas. “Nem eu, nem Trump, nem ninguém”, sentenciou, para consternação de uma direita colonizada que atribui esse direito ao Presidente dos Estados Unidos. Além disso, na entrevista Fernández lembrou a frustrada intervenção de José Luis Rodríguez Zapatero para normalizar o processo eleitoral na Venezuela e que foi sabotada, no último momento e quando tudo estava resolvido, pela atitude antidemocrática da oposição.

O resultado: uma fake news que pregou uma partida à direita. Para cúmulo, com seus esclarecimentos de hoje, o presidente distanciou-se ainda mais do Grupo de Lima, que considerou irrelevante e não representativo; e desqualificou explicitamente - e chamando-o pelo nome - os supostos direitos que o ocupante da Casa Branca esgrime para se intrometer nos assuntos internos da Venezuela. Reafirmou também o seu repúdio pelo golpe e a ditadura na Bolívia e o compromisso da Argentina com o ex-presidente Evo Morales e com todos os bolivianos que procurem asilo neste país.

Duas conclusões emergem deste episódio: primeiro, que é imprescindível alinhar a Chancelaria com as posições da Casa Rosada. Não é necessário ser um lince ou ser capaz de ver debaixo de água para perceber que as melodias que ressoam no Palacio San Martín não são do agrado do presidente. E para desempenhar um papel positivo no concerto regional ou internacional, este país tem de ter uma política externa, não duas, e evitar que o presidente tenha que vir esclarecer perante os media o que foi que o Ministério das Relações Exteriores fez ou disse.

Segunda conclusão: a Argentina poderia ter ido um pouco mais longe na sua intervenção em Genebra. Por exemplo, questionando a imperdoável - e permanente - omissão que Michelle Bachelet faz da questão das sanções económicas e do bloqueio à Venezuela de cada vez que examina a situação dos direitos humanos nesse país. Poderia também ter expressado a sua insatisfação perante o facto de esta funcionária não ter usado a mesma bitola para julgar a acção criminosa das forças policiais no Chile, com as suas quase quatrocentas pessoas que ficaram cegas ou perderam um olho, além das mulheres violadas e dos milhares de detidos e os trinta mortos durante a repressão; ou assinalar a incongruência de falar sobre “tortura e maus-tratos e violência de género” às mãos das forças de segurança num continente onde o abuso (que nem sempre é tortura) e a violência de género são o pão de cada dia, incluindo na Argentina. Apesar disso, a esta senhora apenas se preocupa com o que possa acontecer sob o governo de Nicolás Maduro, ao mesmo tempo que ignora as maciças violações dos direitos humanos perpetradas no Chile pelo regime de Piñera ou pela ditadura boliviana.

O governo argentino poderia também ter-lhe solicitado que voltasse o seu inquisitivo olhar para a vizinha Colômbia, onde, segundo a agência EFE, nada suspeita de simpatias chavistas, o governo Iván Duque foi responsável ou cúmplice pelo assassínio de 100 activistas sociais e políticos entre o início de Janeiro e 15 de Maio deste ano. * Mas Bogotá é um agente por procuração do governo dos Estados Unidos e Bachelet, no seu papel de serva submissa da Casa Branca, nem lhe passa pela cabeça fazer tal coisa e prefere jogar seus dardos contra a República Bolivariana em vez de o fazer contra o narcogoverno colombiano.

Em suma, fazendo as somas e as subtrações, graças à fake news de Clarín e La Nación, a política do governo argentino em relação à Venezuela ficou delineada com perfis mais nítidos e esperançosos. E isto é uma boa notícia.

Fonte: https://rebelion.org/paradojales-resultados-de-una-fake-news/

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos