Roberto Bolaños - No Limiar do Apocalipse

«Ultrapassei os 91 anos. Li mais de três mil livros. Pouco recordo da maioria. Mas sei que não vou esquecer 2666 de Roberto Bolaños*, um chileno mexicanizado de quem nunca ouvira falar».

O romance tem mais de 1000 páginas, exatamente 1030 na tradução portuguesa. Nunca lera livro sequer parecido.
Gostei? É difícil responder. Chegar ao fim foi difícil. Interrompi a leitura muitas vezes. Semanas depois retomava-a. Ao terminar a ultima página, esforcei-me, em meditação estéril, para formar uma opinião sobre a densa, caótica obra. Não consegui.
Ensaiei uma descida `as raízes do entusiasmo da crítica pelo romance. Na contra capa, citações do El Mundo, do Economist, do Observer, do Sunday Times, da New York Times Books Review< coincidem na conclusão de que o escritor produziu uma catedral da literatura. Para o Washing/i>ton Post, «Bolaños juntou-se aos imortais». Para o Independent, «a vida inteira está dentro destas páginas ardentes».
Recordei que Volodia Teitelboim escreveu quase as mesmas palavras sobre o Ulisses, de Joyce.
Como dar uma ideia do que é 2666 se o próprio autor teria dificuldade em responder à questão?
Não terminou o livro. Aos editores e herdeiros deixou indicações para publicarem como romances independentes as cinco partes da sua obra. Elas podem ser lidas como novelas autónomas. Algumas personagens e cenários atravessam o livro.
Para o autor, 2666 tem um Centro. As personagens movem-se na Alemanha, na Roménia, na Rússia, em Espanha, nos Estados Unidos, no México, mas Bolaños acha que existe um Centro, localizado em Santa Tereza, a cidade imaginária que é na realidade Ciudad Juarez, o polo mundial do crime organizado. O esclarecimento é útil, para nos movermos no labirinto.
Um crítico literário sintetizou a sua opinião sobre o romance afirmando que «2666 é a trajetória do universo no limiar do apocalipse».
Essa metafórica e indecifrável conclusão expressa o esforço de Bolaños para explicar o absurdo, o horror e o encanto da vida.
O herói do romance é um alemão que, superando tarde o analfabetismo, adotou o nome literário de Archimboldi quando se tornou escritor.
Um escritor, cuja ficção tresloucada transcende a razão. Os seus primeiros livros, ignorados pela crítica e pelo público, venderam escassas centenas ou apenas dezenas de exemplares. Mas o editor e a baronesa sua mulher viram nele um génio. Archimboldi tem um punhado de admiradores fanáticos, de diferentes nacionalidades. Quatro deles correm pelo mundo com fome de o conhecer, mas não o encontram.
Como soldado da Wehrmacht, antes de se assumir como Archimboldi, esteve como militar durante a segunda guerra mundial na Roménia, na Ucrânia, na Rússia, na Hungria. Volta à Alemanha, viaja, como escritor quase desconhecido, pela França, pela Itália e outros países. Num dos muitos absurdos de 2666 aparece, mais de uma vez, como candidato ao Nobel de literatura.
Romance torrencial, nele se inserem, inesperadamente, extensas estórias sobre temas sem relação aparente com a trama de qualquer das cinco novelas teoricamente autónomas.
A reflexão sobre a História é quase permanente e nela emerge uma erudição caótica, mas impressionante.
A crítica não qualificou o livro de pornográfico. E não é. Mas o erotismo e o sexo estão omnipresentes nas cinco partes. Não creio na existência de outro romance onde palavras como os verbos foder, enrabar, chupar, masturbar surjam repetidamente em tantas páginas, conjugados em múltiplos tempos, tal como os substantivos pénis, vagina, ânus, puta.
Bolaños, repito, faleceu antes de concluir o romance que o absorveu durante décadas.
Archimboldi encontrava-se, no final, em Santa Tereza. Atravessara o Atlântico ao encontro do sobrinho, um aventureiro encarcerado num presidio da cidade do crime, acusado de múltiplos assassínios.
Qual seria o desfecho do romance? Qualquer resposta seria especulativa. Roberto Bolaños não foi homem de confidências.

*Roberto Bolaños, 2666,Editora Quetzal, Lisboa, 2009

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