Rolling Heads

Jacques Gruman    23.Ene.14    Outros autores

A cada dois dias, longe da nossa vista e das câmaras fotográficas, um prisioneiro das masmorras medievais brasileiras, vulgo sistema prisional, é assassinado pelos seus pares. E neste universo de horror destaca-se o complexo de Pedrinhas no Maranhão, o estado mais pobre do Brasil.

O que os olhos não veem, o coração não sente. Um cataclisma na Indonésia comove menos do que um vizinho que machuca o dedo. Não fosse isso, ficaríamos alarmados a cada dois dias, quando, longe das nossas vistas e das câmeras fotográficas, um prisioneiro das masmorras medievais brasileiras, vulgo sistema prisional, é assassinado por seus pares. Em 2013, foram 218 homicídios. Número subdimensionado, pois não inclui as mortes violentas em carceragens de delegacias. Pessoas sob custódia do Estado, empilhadas e vivendo em condições degradantes, viram animais. Alguma surpresa? Nenhuma. O surpreendente é que não haja rebeliões diárias. O sangue está no ar.

O que acontece no complexo de Pedrinhas, no Maranhão, é um microcosmo da realidade penitenciária, radicalizada por sucessivos governos omissos. A barbárie no burgo dos Sarney tem várias formas de expressão. A que emergiu com a decapitação de presos é uma delas. Tomamos conhecimento de que o complexo de Pedrinhas responde por quase um terço de todos os homicídios cometidos em cadeias no país. “Aqui é um caldeirão do inferno”, disse um interno. Num espaço onde caberiam quatro detentos, acotovelam-se promiscuamente treze. Na terra de dona Roseana, a chance de ser morto num presídio é quase 60 vezes maior do que do lado de fora.

Outra expressão é a verbal. A governadora, num cinismo que beira o deboche, garante que seu governo não cometeu qualquer ato contra os direitos humanos. Completa afirmando que a piora da segurança se deve … ao aumento da riqueza do estado ! Quer dizer que o Maranhão está se aproximando da Dinamarca e nós não sabíamos? Madame coronel perdeu, definitivamente, a compostura. As estatísticas não perdoam. O Índice de Desenvolvimento Humano do Maranhão está em penúltimo lugar no Brasil. A mortalidade infantil lá é quase o dobro da média nacional. Das 100 cidades com melhor IDH no Brasil, nenhuma é maranhense. Mais de 20% dos maranhenses vivem em extrema pobreza. Como é praxe nas elites caboclas, o discurso Poliana vem regado a luxo e ostentação. A soberana faz questão de manter na despensa bacalhau de primeira, camarões variados (o gosto da doutora é refinado), lagosta, patinhas de caranguejo, salmão e oito sabores de sorvete. Tudo pago pelos cidadãos, que recebem, em contrapartida, serviços básicos calamitosos. Socorrei-os, são Virgulino !

Revolta o silêncio obsequioso do governo federal. É bom lembrar que, num surto de franqueza, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, disse, em 2012, que “entre passar anos num presídio brasileiro e perder a vida, eu talvez preferisse perder a vida”. A calamidade, portanto, é bastante antiga e conhecida. Por que, dada a comoção nacional, a presidente não convoca uma cadeia nacional de televisão para demonstrar solidariedade aos parentes das vítimas, reconhecer a gravidade da situação e anunciar medidas concretas? Por que sempre se adia uma discussão séria sobre a realidade penitenciária no Brasil? Por que só ouvimos governantes irem à TV para falar abobrinhas, vomitar obviedades e repetir autoglorificações ? Será que o cálculo político-eleitoral prevalecerá sempre sobre os imperativos éticos?

Abraço

Jacques

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