Rosa, José e os contentores

Correia da Fonseca    01.Abr.12    Colaboradores

Rosa e José, um casal de velhos, vive num contentor. Muitos outros, ditos “sem abrigo”, vivem na rua. E o rumo político que conduz cada vez mais portugueses à miséria prossegue, também com a anunciada “lei dos despejos” do governo PSD-CDS. De Norte a Sul, são muitos os Josés e as Rosas que já olham com angústia, se não com antecipado desespero, as casas onde ainda vivem.

1. Deixemo-nos de eufemismos, de camuflagens vocabulares: Rosa e José são velhos. O que podia não ser terrível. Mas é. Num dia já distante, ainda Abril vinha a caminho, Luís Filipe Costa disse na televisão, com a coragem que audácias dessas exigiam então a quem trabalhava na RTP: «– Não é triste ser velho, triste é ser velho em Portugal!». De então para cá, rodaram anos, iluminaram-se esperanças e projectos, regressaram ao poder opressões e rancores, e as palavras de Luís Filipe Costa continuam vivas e actuais. Foi neste quadro que uma reportagem da TVI trouxe a nossas casas Rosa e José Clemente, velhos e também com grandes dificuldades físicas que os obrigam a andar apoiados em canadianas. Mas não é tudo. Rosa e José tinham uma casa. Já não a têm: veio uma empresa e destruiu-a. As empresas, muitas delas, são assim: robustas, poderosas, tanto e de tal modo que são capazes de destruírem muita coisa por onde passam quase sem se darem conta disso porque não têm olhos para tudo, nem sequer estão obrigadas a terem coração e consciência: têm contas de lucros e perdas, cash flow, talvez a pompa de um conselho de administração, e isso lhes chega. Por isso Rosa e José, que viviam na sua casa ali para os lados de Vila Franca de Xira, onde aliás continuam a viver, moram agora num contentor. Há nove anos. O que significa que quando lhes destruíram a casa eram menos velhos, embora já em maturidade avançada, e talvez ainda andassem sem a ajuda de canadianas. Não ficou claro na reportagem se a perda de uma casa habitável contribuiu para o aparecimento das suas dificuldades de locomoção, mas é de crer que habitar num contentor não seja saudável para ninguém.

2. A questão está nos tribunais. Há nove anos. E até parece haver uma certa consensualidade quanto à razão que lhes assiste. Entretanto, dia após dia e talvez sobretudo noite após noite lá estão no contentor. É de crer que um dia destes a coisa se irá resolver e talvez esse desfecho os encontre ainda vivos. Talvez. É claro que quanto a isso não pôde a reportagem avançar previsões, teve de limitar-se a registar a esperança, talvez o sonho, da Rosa e do José de um dia voltarem a ter uma casa e de nela morrerem, já que a tal empresa impediu que nela vivessem pelo menos nove anos de declínio físico. Escusado é acrescentar que a reportagem teve uma dominante vertente pungente, como era inevitável. Mas teve mais, pelo menos para os telespectadores atentos ao país onde vivemos e que decerto não são tão poucos quanto conviria a alguns: lembrou os muitos mais que nos diversos lugares deste nosso território efectivamente saqueado vivem em contentores ou ainda em piores condições, sem sequer poderem arrimar-se a uma longínqua expectativa que lentamente se vá movendo em distantes tribunais. Que estão condenados aos contentores, ou a barracas de paredes permeáveis às humidades e permissivas aos ventos, ou aos recantos menos expostos das ruas onde passam as noites. Porque não se julgue que os chamados sem-abrigo são apenas homens: reportagens transmitidas por altura do Natal mostraram-nos que também mulheres partilham desse tipo de cidadania.

3. A verdade é que está o País cheio de Rosas e de Josés, acontecendo apenas que não há reportagens que cheguem para todos eles. Há-de ser por isso, por essa impossibilidade prática de a televisão vir, serão após serão, falar-nos dos nossos concidadãos que assim vão sobrevivendo até que um dia tudo para eles se acaba (com final na cama de um hospital, em enfermaria ou em corredor), que o governo, os governos, não dão por eles. Mais: há notícia de que está prestes a sair uma lei que tenderá a reforçar o número de Rosas e Josés que, tendo sido expulsos das suas casas, terá de encontrar abrigo em contentores se tiverem a sorte de os encontrarem disponíveis, o que é duvidoso. O motor que desencadeará então essa peculiar espécie de migração interna não será já o empreendimento de uma empresa descuidada com as consequências de trabalhos que mandou executar, mas sim uma decisão política premeditada e democraticamente votada por uma maioria parlamentar. É claro que, dito assim, parece um exagero, e bem desejo que o seja. Mas é certo que, de Norte a Sul, são muitos os Josés e as Rosas que já olham com angústia, se não com antecipado desespero, as casas onde ainda vivem.

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos