Sanções e aviões de passageiros

Paul Craig Roberts    20.Jul.14    Outros autores

Diz o autor que “o império de Washington começa a abrir fissuras, uma circunstância que vai trazer consigo uma acção desesperada”. As “fissuras” que aponta resultam de o imenso poder militar da maior potência imperialista ter cada vez menor correspondência com o respectivo poder económico, e do processo de “desdolarização” de um volume crescente de trocas económicas internacionais. A “acção desesperada” verifica-se em diversas partes do mundo, mas pode estar em curso - com ainda maior gravidade e aventureirismo - na Ucrânia.

Nota: Já estão disponíveis fotografias dos destroços do avião das linhas aéreas da Malásia. Reparem na extensa mancha de fragmentos e numa significativa secção da fuselagem. Estão a observar os restos de um avião que foi atingido por um míssil a 33 mil pés de altitude e que caiu sobre terreno denso. Recordem-se de que nem no local em que alegadamente um avião atingiu o Pentágono nem no alegado local da queda do 4º avião sequestrado no 11 de Setembro foram encontrados destroços semelhantes. Ponderem a questão. Não restam dúvidas de que a comissão encarregue de produzir o relatório do 11 de Setembro concluirá que apenas os aviões das linhas aéreas da Malásia deixam destroços.

A decisão unilateral, tornada pública por Obama em 16 de Julho, de bloquear o acesso a empréstimos bancários nos EUA a empresas russas de energia e armamento demonstra a impotência de Washington. O resto do mundo, incluindo as duas maiores organizações comerciais da América, voltou as costas a Obama. A Câmara de Comércio dos EUA (USCC) e a Associação Nacional de Manufactureiros (NAM) publicaram anúncios no New York Times, Wall Street Journal, e Washington Post protestando contra tais sanções por parte dos EUA. A NAM declarou que a associação de manufactureiros está “desapontada pela forma como se ampliam crescentemente sanções unilateralmente declaradas por parte dos EUA, o que irá prejudicar os compromissos comerciais do país.” Bloomberg noticiou que “dirigentes da União Europeia reunidos em Bruxelas se recusaram a acompanhar as medidas decretadas pelos EUA.”

Na tentativa de isolar a Rússia, o Pateta da Casa Branca isolou Washington.

As sanções não terão qualquer efeito nas empresas russas. As empresas russas podem conseguir mais empréstimos bancários do que aqueles de que necessitam na China, ou em França ou na Alemanha.

Os três traços que definem Washington - arrogância, presunção e corrupção – fazem com que Washington tenha compreensão lenta. Gente arrogante envolta em presunção é incapaz de aprender. Quando deparam com resistência respondem com subornos, intimidação e ameaça. A diplomacia requer capacidade de aprender, mas há anos que Washington abandonou a diplomacia para se apoiar apenas na força.

Consequentemente, com as suas sanções Washington está a prejudicar o seu próprio poder e influência. As sanções estão a encorajar países a abandonar o sistema de pagamentos em dólares que constitui o fundamento do poder dos EUA. Christian Noyer, Governados do Banco de França e membro do conselho de governo do Banco Central Europeu, afirmou que as sanções de Washington estão a empurrar empresas e países para fora do sistema de pagamentos em dólares. A elevada quantia extorquida ao banco francês BNP Paribas por realizar negócios com países que Washington desaprova deixa claro o acrescido risco legal de utilizar o dólar quando é Washington quem define as regras do jogo.
O ataque de Washington contra o banco francês constituiu ocasião para que muitos recordassem as numerosas sanções impostas no passado e tomassem em consideração sanções futuras, como as que impendem sobre o banco alemão Commerzbank. É inevitável um movimento no sentido da diversificação das unidades monetárias utilizadas no comércio internacional. Noyer referiu que o comércio entre Europa e China não necessita de utilizar o dólar e que os pagamentos podem ser inteiramente realizados em Euros ou Renminbi.

O fenómeno da extensão de regras dos EUA a todas as transacções denominadas em dólares-USA está a acelerar o movimento de afastamento em relação ao sistema de pagamentos em dólares. Alguns países estabeleceram já acordos bilaterais com parceiros comerciais no sentido de passar a fazer os pagamentos nas suas próprias moedas. Os BRIC estão a estabelecer novos métodos de pagamento alheios ao dólar e estão a organizar o seu próprio Fundo Monetário Internacional para financiar défices comerciais.

O valor de câmbio do dólar US depende do seu papel no sistema internacional de pagamentos. Na medida em que este papel se reduza, reduzir-se-á igualmente a procura de dólares e o valor cambial do dólar. A inflação penetrará na economia dos EUA pela via dos preços dos produtos importados, e os já muito sacrificados americanos irão sofrer ainda maior compressão nos seus padrões de vida.

A desconfiança em relação a Washington tem vindo a crescer neste século XXI. As mentiras de Washington, do tipo das “armas de destruição massiva” no Iraque, da ”utilização de armas químicas por Assad”, da “bomba nuclear iraniana”, são reconhecidas como tal por outros governos. As mentiras foram utilizadas por Washington para destruir países e para ameaçar outros de destruição, mantendo o mundo em confusão constante. Washington não contribui com qualquer vantagem que compense a confusão que inflige em toda a parte. A amizade com Washington implica a aceitação de tudo aquilo que Washington reclame, e os governos estão a constatar que a amizade de Washington não vale os altos custos que implica.

O escândalo da espionagem da NSA e a recusa de Washington em pedir desculpas e em desistir dela aprofundou a desconfiança em Washington por parte dos seus próprios aliados. Sondagens de opinião internacionais mostram que outros países consideram os EUA a maior ameaça à paz. O próprio povo americano não tem qualquer confiança no seu governo. Sondagens de opinião mostram que uma larga maioria de americanos considera que os políticos, os media prostituídos (“presstitute media”), e os grupos de interesse privados – como Wall Street e o complexo militar/securitário – vigarizam o sistema para se servir dele à custa do povo americano.

O império de Washington começa a abrir fissuras, uma circunstância que vai trazer consigo uma acção desesperada de Washington. Hoje (17 de Julho) ouvi na rádio uma noticia da BBC acerca de um avião das linhas aéreas da Malásia ter sido abatido na Ucrânia. A informação pode ter sido honesta, mas soava como se se tratasse de incriminar a Rússia e os “separatistas” ucranianos. Enquanto a BBC ia solicitando opiniões preconceituosas umas atrás das outras, a emissão concluía com uma informação oriunda das redes sociais de que os separatistas teriam abatido o avião utilizando armamento russo.

Ninguém naquele programa se interrogou acerca do que é que os separatistas teriam a ganhar com o derrube de um avião comercial. Em vez disso, o que era discutido a era se a responsabilidade russa era insofismável, e se essa responsabilidade iria forçar a UE a apoiar sanções mais duras por parte dos EUA em relação à Rússia. A BBC seguia o guião de Washington e orientava a narrativa no sentido conveniente a Washington.
A aparência de uma operação de Washington é evidente. Todos os belicistas responderam à deixa. O vice-presidente dos EUA Joe Biden declarou que o avião “explodira no ar.” Não “fora um acidente.” Por que motivo, a não ser que tenha um objectivo a atingir, irá alguém ser tão conclusivo antes de obter qualquer informação? Claramente, Biden não estava a sugerir que teria sido Kiev a fazer explodir o avião no ar. Biden estava a adiantar-se às provas no sentido de culpar a Rússia. Aliás, sabendo-se como Washington opera, irá acumular culpabilizações até que deixem de ser necessárias quaisquer provas.

O Senador John McCain atirou-se à suposição de que existiam cidadãos dos EUA a bordo do avião para apelar a acções punitivas contra a Rússia antes que fossem conhecidas a lista dos passageiros e a causa da queda do avião.

A “investigação” está a ser conduzida pelo regime fantoche de Washington em Kiev. Não creio que possamos ter qualquer dúvida acerca das conclusões a que chegarão.
Existe uma alta probabilidade de que iremos depararnos com mais provas fabricadas, do género das provas fabricadas que o Secretário de Estado dos EUA Colin Powell apresentou na ONU “provando” a existência das inexistentes “armas de destruição massiva.” Washington tem tido sucesso com tantas mentiras, falsificações e crimes que acredita que poderá sempre ter sucesso de novo.

No momento em que escrevo, não dispomos de informação fidedigna acerca da queda do avião, mas a velha questão que os romanos formulavam continua a ser pertinente: “Quem beneficia?” Não existe qualquer motivo concebível para os separatistas abaterem um voo comercial, mas Washington tinha um motivo – culpabilizar a Rússia – e tinha possivelmente um segundo motivo. Entre as notícias e boatos circula um que diz que o avião presidencial de Putin seguiu uma rota idêntica ao do avião da Malásia num intervalo de tempo de 37 minutos. Esta informação conduziu a que se especulasse que Washington teria decidido ver-se livre de Putin e confundiu o avião da Malásia com o jacto de Putin. A RT refere que os dois aviões têm aparência semelhante. http://rt.com/news/173672-malaysia-plane-crash-putin/

Antes que me digam que Washington é demasiado sofisticado para confundir um avião com outro, não se esqueçam que quando Washington abateu um avião comercial iraniano em espaço aéreo iraniano, a marinha dos EUA alegou que tinha pensado que os 290 civis que assassinara iam a bordo de um avião de combate iraniano, um F-14 Tomcat, que é fabricado nos EUA e que é corrente na marinha dos EUA. Se a marinha dos EUA não é capaz de distinguir um seu avião de combate corrente com um avião comercial iraniano, é evidente que os EUA podem confundir dois aviões que de acordo com a informação da RT têm aparência muito semelhante.

No decurso de toda a incriminação da Rússia pela BBC, não ocorreu a ninguém mencionar o avião de passageiros iraniano que os EUA “fizeram explodir no ar”. Ninguém aplicou sanções a Washington.

Quaisquer que sejam as consequências do incidente com o avião da Malásia, ele demonstra os riscos da política moderada de Putin perante a dura intervenção de Washington na Ucrânia. A decisão de Putin de responder com diplomacia em vez de com meios militares às provocações de Washington na Ucrânia deu-lhe trunfos, como é evidente pela oposição da UE e dos interesses de negócios dos EUA às sanções de Obama. Todavia, ao não impor um rápido fim ao conflito na Ucrânia que os EUA patrocinam, Putin deixou aberta a porta às tortuosas maquinações nas quais Washington é especialista.

Se Putin tivesse correspondido aos apelos dos anteriores territórios russos da Ucrânia do sul e do leste no sentido de regressarem à Mãe Rússia o imbróglio ucraniano chegado ao fim há meses, e a Rússia não estaria agora a correr o risco de ser responsabilizada e criminalizada.
Putin não retirou todas as vantagens de se ter recusado a enviar tropas para os antigos territórios russos, porque a posição oficial de Washington é que existem tropas russas a operar na Ucrânia. Quando os factos não correspondem às intenções de Washington, Washington trata de rearrumar os factos. Os media dos EUA acusam Putin de ser o responsável pela violência na Ucrânia. São as acusações de Washington e não quaisquer factos reconhecidos que constituem a base para as sanções.

E como não existe qualquer acto demasiado cobarde para que Washington não o empreenda, Putin e a Rússia poderão tornar-se nas vítimas de uma tortuosa maquinação.

A Rússia parece hipnotizada pelo Ocidente e motivada para se inserir como parte do Ocidente. Este desejo de aceitação facilita as manobras de Washington. A Rússia não precisa do Ocidente, mas a Europa precisa da Rússia. Uma opção para a Rússia consiste em preocupar-se com os interesses russos e esperar que a Europa a venha cortejar.

O governo russo não deveria esquecer que a atitude de Washington em relação à Rússia assenta na Doutrina Wolfowitz, que estabelece:
“O nosso primeiro objectivo é prevenir a reemergência de um novo rival, seja no território da antiga União Soviética seja noutro lugar, que represente uma ameaça da ordem daquela que a antiga União Soviética colocava. Este é o considerando dominante que sustenta a nova estratégia de defesa, e requer que trabalhemos para impedir que qualquer potência hostil domine uma região cujos recursos, sob controlo consolidado, sejam suficientes para gerar poder global”.

Fonte: http://www.paulcraigroberts.org/2014/07/17/sanctions-airliners-paul-craig-roberts/

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